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Night Summit: está cada vez mais difícil beijar

Este artigo tem mais de 9 anos

A opinião de

Até que enfim. Um ano e trinta e sete mil newsletters na caixa de spam depois, o Web Summit chegou a Lisboa. Está aí o maior evento europeu de tecnologia que reúne investors, founders, developers, marketeers, influencers, partners, speakers e outras palavras anglo-saxónicas que até têm tradução para português mas que em inglês soam sempre mais entrepreneur.

Não foi com surpresa que recebi o convite do SAPO24 para escrever sobre o maior evento tech que já passou pelo país, eu que conto com um já vasto background em tecnologia e estou a falar daquele 3 Menos a TIC no 8º ano. Num universo tecnológico tão fugaz como o de hoje em dia, é com uma lagrimita no olho que recordo esse longínquo 8º ano quando instalar o Sims no Windows 97 era coisa para demorar três glaciações.

À partida, confesso-me entusiasmado. Venderam-nos a Web Summit – é o Web Summit ou a Web Summit? – como uma cena de geeks mas, a julgar por oradores como Ronaldinho Gaúcho, Luís Figo e Rui Costa, o evento está a um Edgar Davids de se transformar num “Amigos do Zidane contra Amigos do Ronaldo”, essas míticas peladinhas que acabam sempre com um empate a 7 golos e este parágrafo possui claramente referências a mais sobre bola.

Vamos ao que interessa: a Night Summit. Ou, traduzido de Entrepreneur para Português, as festas da Web Summit. 

A cena é: está cada vez mais difícil beijar. A tecnologia e o empreendedorismo têm-nos facilitado a vida em quase tudo mas, aqui que ninguém nos ouve, na noite está cada vez mais difícil.

Não podemos oferecer um copo a uma miúda porque as festas são sempre all you can drink. Não podemos dar-lhe boleia porque ela já tem car-sharing. Não podemos perguntar coisas sobre a vida dela porque é stalking. Não podemos contar coisas da nossa vida porque é self-marketing. Não podemos emprestar-lhe a camisola quando está frio porque é pouco eco-friendly. Não podemos ir lá para casa porque ela está a fazer couchsurfing. Não podemos sequer ficar amigos porque afinal era só networking ou outra coisa qualquer acabada em ing.

Os tempos mudaram. Olhamos para um engate como se fosse uma app que só traz legendas em mandarim. Olhamos para um flirt como se fosse um Business Plan: “Se investir o meu budget numa refeição para duas pessoas no Prego da Peixaria e em dois balões de gin no Sol e Pesca, será que vou atingir o break-even em linguadão?”. 

Mudou tudo. Já não somos ciumentos compulsivos, somos empreendedores risk-averse que procuram um equilíbrio de Nash entre Amor e Ciúme. Já não somos foleiros espontâneos, somos marketeers com estratégias de naming para decidir se chamamos a nossa nova acquisition de Bebé, Amor, ou Querida. Já não somos inseguros crónicos, somos brand managers que planeiam a melhor estratégia para aumentar o rácio de matches no Tinder. Já não somos pessoas, somos entrepreneurs.

Guilherme Guerra Geirinhas, humorista co-autor do projeto Bumerangue e criativo publicitário na BAR Lisboa. Sobrevivente de gripe das aves. Põe primeiro o leite e só depois os cereais.

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