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Os debates sobre autonomia, aprendizagem e o fim das ilusões estratégicas na Europa multiplicam-se hoje em vários países, atravessando governos, parlamentos, universidades, centros de reflexão e organizações internacionais. O que durante décadas foi frequentemente tratado como uma preocupação sem sentido transformou-se numa questão central para o futuro do continente. A realidade geopolítica impôs-se aos discursos, obrigando a Europa a confrontar-se com as suas dependências, vulnerabilidades e limitações, mas também com a necessidade de reaprender a pensar estrategicamente e de assumir maiores responsabilidades pela sua própria segurança, prosperidade e influência no mundo.
Há um fio condutor que une estes debates aparentemente distintos sobre a segurança europeia: a crescente percepção de que os pressupostos que sustentaram décadas de estabilidade relativa podem já não ser suficientes para garantir a estabilidade das próximas décadas.
O primeiro debate centra-se na arquitectura de segurança transatlântica. Uns defendem um plano B para situar a Europa perante uma menor presença americana no Velho Continente. Insistem, contudo, que falar de um “Plano B” europeu não significa defender o fim da NATO nem questionar a importância histórica da aliança. Significa reconhecer que uma estratégia séria não assenta em certezas absolutas, mas na capacidade de responder à mudança. O que acontecerá se os Estados Unidos concentrarem uma parte crescente dos seus recursos e atenção estratégica no Indo-Pacífico? O que acontecerá se futuras administrações americanas definirem as prioridades nacionais de forma diferente? O que acontecerá se Washington continuar a ser simultaneamente confrontado com múltiplas crises em diferentes teatros? Estas não são perguntas subversivas. São perguntas responsáveis. Uma aliança sólida não se enfraquece quando os seus membros discutem cenários alternativos. Pelo contrário: fortalece-se quando cada aliado assume uma maior parcela de responsabilidade pela segurança colectiva. A verdadeira autonomia estratégica europeia não consiste em substituir a NATO. Consiste em garantir que a Europa continua a ser um parceiro indispensável dentro dela. A resiliência estratégica começa precisamente aí: na disposição de admitir que os pressupostos podem mudar.
O segundo debate transporta-nos para a realidade concreta do campo de batalha.
O recente exercício militar realizado na ilha de Gotland revelou algo que muitos relatórios de planeamento tendem a suavizar: operadores de drones ucranianos conseguiram penetrar repetidamente nas posições dos participantes, obrigando à interrupção dos exercícios para ajustar tácticas e procedimentos. Um dos participantes ucranianos terá resumido a situação com brutal simplicidade: numa guerra real, aquelas posições já teriam sido destruídas. Igual cenário já tinha acontecido nos exercícios REPMUS em Portugal. A observação é desconfortável precisamente porque é verdadeira. A guerra na Ucrânia está a evoluir a uma velocidade que desafia doutrinas, processos de aquisição, modelos de treino e estruturas organizacionais concebidas para ritmos muito mais lentos.
Não se trata de uma crítica às forças da NATO. Trata-se de reconhecer que nenhuma força militar acumula experiência comparável à de quem combate diariamente durante anos. As lições repetem-se com uma consistência impressionante: as retaguardas logísticas já não são verdadeiras retaguardas, as posições fixas tornaram-se vulnerabilidades, a assinatura electromagnética pode ser tão perigosa como a exposição física. Hoje, a dispersão salva forças, o engano protege capacidades, a guerra electrónica tornou-se central e a capacidade de adaptação supera frequentemente a qualidade do plano inicial.
O paradoxo é que grande parte deste conhecimento não está escondido. Operadores, soldados, comandantes e analistas ucranianos têm partilhado continuamente observações, sucessos, fracassos e adaptações. O desafio raramente é aceder às lições. O desafio é aceitar que algumas delas exigem uma revisão profunda de pressupostos que considerávamos quase permanentes. A Ucrânia deixou de ser apenas receptora de apoio. Tornou-se uma das maiores fontes de experiência militar contemporânea disponíveis para a Europa. Ignorar essa realidade não é prudência. É desperdício estratégico.
O terceiro debate, sobre o fim das ilusões estratégicas na Europa, é talvez o mais difícil. Durante décadas, muitos decisores europeus partiram do princípio de que conflitos prolongados acabam inevitavelmente quando os custos ultrapassam os benefícios esperados, mas essa lógica pressupõe que todas as partes definem sucesso, fracasso e racionalidade da mesma forma. A experiência recente sugere o contrário. Para o Kremlin, conceitos como força, prestígio nacional, controlo político, resiliência e projecção de poder não são apenas instrumentos de política externa. São elementos centrais da própria legitimidade do regime. Consequentemente, aquilo que muitas sociedades ocidentais interpretariam como custos insustentáveis pode ser entendido de forma muito diferente em Moscovo. Esta diferença ajuda a explicar porque razão as operações híbridas, a sabotagem, a guerra cibernética, as campanhas de influência e a manipulação informacional não são actividades periféricas. São componentes estruturais de uma competição estratégica contínua. Uma competição que não começa quando rebenta uma guerra nem termina quando os combates cessam. Daqui resulta uma conclusão inevitável: a dissuasão não pode assentar apenas no diálogo. O diálogo permanece essencial. Nenhuma arquitectura de segurança séria pode existir sem canais diplomáticos, mas a diplomacia só produz resultados duradouros quando é sustentada por capacidades credíveis. Capacidade militar, industrial, resiliência económica, coesão política, preparação social e capacidade de absorver pressão durante períodos prolongados. Quem apenas fala, sem demonstrar capacidade de agir, negoceia sempre a partir de uma posição de fragilidade.
Estes três debates não são independentes. Convergem numa única questão estratégica:
– Está a Europa preparada para se tornar um actor estratégico pleno ou continuará a comportar-se como um espaço geopolítico protegido por garantias externas que considera permanentes?
A resposta não passa por rejeitar a herança transatlântica nem por substituir instituições que continuam a ser fundamentais. Passa por construir uma Europa capaz de ser simultaneamente um pilar mais forte da NATO e menos vulnerável às fragilidades inerentes à dependência excessiva de um único conjunto de pressupostos. Porque a história recente demonstrou algo que muitos prefeririam ignorar: os pressupostos mudam, mudam com eleições, mudam com crises, mudam com mudanças de prioridades estratégicas e mudam, por vezes, mais depressa do que as instituições conseguem adaptar-se.
A resiliência estratégica começa com a honestidade intelectual de reconhecer essa realidade. E de compreender que conceitos aparentemente universais como paz, vitória, segurança ou estabilidade podem significar coisas profundamente diferentes para actores diferentes.
A Europa não precisa de escolher entre optimismo e pessimismo.
Precisa de escolher entre complacência e preparação.
E essa escolha já não pode ser adiada!
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