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Direito a viver. Direito a morrer?

Este artigo tem mais de 9 anos

A opinião de

Discute-se hoje no Parlamento a morte medicamente assistida. Eutanásia. À esquerda, acordo quanto ao direito à vida e à morte, sobretudo em relação à forma como se morre, e a dignidade que lhe deve estar implícita. À direita, o não garantido. Nos restantes grupos parlamentares o “nim” tão conveniente, porque ainda precisamos de informação e…

É um facto que, a quem nunca pensou nisso, falta informação. Falta-nos sobretudo, independentemente da ideologia que possamos subscrever, ou da moral que nos rege, a capacidade para estar no lugar do outro. Neste caso não temos. Não há como estar nesse lugar.

O tema é complexo e divide opiniões. Também eu me sinto dividida entre aquilo que sinto ser o direito que cada um tem em relação à sua pessoa e a moral, repetida à exaustão, do inalienável direito à vida. As diferentes confissões religiosas são contra a eutanásia e suicídio assistido, apelando aos cuidados paliativos, enquanto alguns membros da sociedade defendem a necessidade de se criar uma fórmula que permita uma morte digna.

O que é isso de uma morte digna?

Costuma dizer-se que “teve uma morte santa”, significando que não sofreu.

Esse é, para mim, o tema desta questão: não sofrer. Creio que muitos terão medo de morrer mas eu tenho mais medo da morte ou, em boa verdade, da forma como se morre. A tal morte “santa”, a dormir, ou de forma tão repentina que o indivíduo nem sabe do que morreu, é seguramente menos assustadora do que uma morte lenta, a agonizar em hospitais e com tratamentos que, sabemos, estão apenas a adiar o inevitável. Ninguém quer isso. Como também ninguém quer ver aquele de quem gosta sofrer.

Evitar a morte é, muitas vezes, uma forma de distanásia, um prolongamento da vida por meios artificiais. Permite a quem cá fica manter a pessoa viva, mesmo que visivelmente sem vida própria. A que custo e para quê? Na maior par das vezes tal implica sofrimento para a pessoa, que acabará por morrer.

Existe um documento, o testamento vital – semelhante ao DNR (do not resuscitate), expressão que tantas vezes ouvimos nas séries de televisão em que o faz de conta permite grandes acrobacias médicas – que permite a cada um de nós definir o tipo de tratamento ou cuidados de saúde que pretendemos (ou não) receber quando estivermos incapazes de expressar a nossa vontade. E se este documento pode resolver boa parte das decisões difíceis, não resolve seguramente as consequências de uma doença prolongada e incapacitante.

A questão da eutanásia, parece-me, colocar-se-á mais nos limites da acção e consequências da sua generalização, porque poderá antecipar desnecessariamente a morte. Importa, portanto, definir de forma muito concreta, como e quando tal pode acontecer. Caso exista, serão prováveis desvios à norma e abusos. Isso assusta-me. Assusta-nos. Contudo, mesmo com excessos no horizonte, que espaço para direito individual sobre a integridade física, ou seja, o direito a sermos nós a decidir o que fazer com o nosso corpo? Afinal, o corpo não é apenas um instrumento que precisa do espírito para funcionar? Não é o espírito que dá força e vida ao corpo, que regressa ao pó quando perde o espírito? Não é o espírito aquilo que dá vida ao corpo, essa força invisível que nos mantém vivos?

Independentemente da discussão filosófica em torno da vida, ou religiosa em relação ao corpo e alma, pensemos no seguinte, uma vez que é sempre um bom exercício colocarmo-nos no lugar do outro: imaginem-se presos a uma cama, suores frios causados pela dor, cujos medicamentos apenas conseguem atenuar. Impossibilitados de se manterem em pé sem ajuda, de se alimentarem sem recurso a uma sonda, com um saco pendurado na cama para onde escorre aquilo que o corpo fisicamente vai deitando fora.

Todos os dias o ritual se repete, de limpeza e mobilização para evitar o atrofio total dos músculos, mudança de posição para evitar (a dada altura, apenas aliviar) as escaras, mudança dos tubos que vos garantem o funcionamento do sistema. O corpo ainda funciona, mal, mas a cabeça não perdoa. Olham a janela, sentem a vida a escorrer pelos dedos, como a água do mar que foi, está a passar. Escutam as conversas e sabem – sentem – que o fim está longe, embora inevitável.

Assim passam os dias, com as visitas de quem vos quer bem, o vazio no vosso olhar, a inércia no corpo e a ausência de força nas mãos. A impotência em absoluto para todos. A doença – aquela doença – não tem cura e todos o sabem.

Permanecem assim ou?…

Paula Cordeiro é, entre outras actividades consideradas (mais) sérias, autora do Urbanista, um híbrido digital que é também uma aplicação para smartphones. Baseado em episódios diários, o Urbanista é um projecto para restaurar a auto-confiança perdida e denunciar o preconceito social. Na verdade, os vários preconceitos sociais (raça, género, orientação sexual e outros difíceis de catalogar), embrulhados num estilo de vida saudável, urbano e divertido.

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