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NBA: Quem estava preparado para este vendaval?


Este artigo tem mais de 7 anos

Diz o ditado que a defesa ganha campeonatos. Mas o ataque ganha espetadores. Por isso, a NBA quer pontos, pontos e mais pontos. E mudou as regras para os ter.

149-129. 136-140. 143-142. 122-144. 146-115. 126-140. Podem parecer resultados de jogos All Star, mas são resultados de partidas desta temporada da NBA. Entre 2014 e 2018, a marca dos 140 pontos foi atingida ou ultrapassada apenas 11 vezes. Esta época, essa marca já foi alcançada oito vezes. No pouco mais de um mês que levamos de temporada, essa barreira já foi atingida quase tantas vezes como nas quatro épocas anteriores.

No ano passado, os Golden State Warriors lideraram a NBA em pontos marcados, com uma média de 113.5 por jogo. Este ano, dez equipas estão com uma média mais elevada do que essa. Os Milwaukee Bucks lideram neste momento, com 121.4 pontos por jogo.

A NBA está a ser varrida por um furacão de pontos como há muito não havia memória. Está-se a correr e a marcar pontos como não se corria e marcava desde os anos 80. Esta temporada, as equipas estão com uma média de 110.4 pontos marcados por jogo. É a média mais alta desde a temporada de 1984-85. E desde 88-89 que não se jogava a um ritmo tão alto. Nesse ano, as 25 equipas da liga jogaram uma média de 100.6 posses de bola por jogo. Foi a última vez que a marca das 100 posses de bola por jogo foi ultrapassada. Até este ano. A amostra ainda é pequena e é possível que baixe até ao fim da época (ou não), mas, até agora, as 30 equipas da liga estão a jogar 100.3 posses de bola por jogo. Jogos mais rápidos e com mais pontos tem sido a imagem de marca desta temporada.

Como chegámos a este vendaval ofensivo? Com uma tempestade perfeita. E com mão humana na criação da mesma.

créditos: James Harden é o atual melhor marcador da NBA, com uma média de 29 pontos por jogo

Desde a sua fundação, a NBA procura beneficiar o espetáculo e tornar o jogo de basquetebol o mais atrativo possível para os fãs. E, guiada por esse objetivo, a sua história tem sido uma corrida e uma procura do (des)equilíbrio certo entre os ataques e as defesas. A NBA sabe que os fãs gostam de ver jogos com muitos pontos e jogadas ofensivas espetaculares. E sabe também que precisa de dar espaço aos seus artistas para brilhar. Por isso, sempre que as defesas começam a apanhar os ataques, a liga altera as regras para manter a balança desequilibrada para o lado dos ataques e do espetáculo.



Em 1947, proibiu as defesas à zona (como alternativa à defesa homem-a-homem). Em 54, introduziu o relógio dos 24 segundos (tempo que cada equipa dispõe para atacar, ou seja, lançar ao cesto). Em 66, decretou que os defensores não podiam ficar dentro da área restritiva (o chamado “garrafão”) mais de 3 segundos.

E assim, nos anos 60 e 70, eram comuns jogos com 130 e 140 pontos. Cada um defendia o seu jogador e a defesa era, basicamente, a soma de cinco defesas individuais. Eram defesas ainda pouco desenvolvidas e pouco coletivas. E, sejamos honestos, não era a coisa com que os jogadores (vá, à exceção do histórico Bill Russell) estivessem mais preocupados. Portanto, entre as regras que o dificultavam e as equipas que pouco o executavam, basicamente não se defendia muito nessas décadas.

Em 1981, quando as defesas começaram a ficar mais sofisticadas e a média de pontos baixou ligeiramente, a liga introduziu as regras da defesa ilegal, que obrigava cada defensor a ficar colado ao atacante, a não poder ficar a meio caminho em posição de ajuda, nem fazer dois-contra-um sobre um jogador sem bola. Mais uma vez, para abrir espaço no campo e dar mais oportunidades aos jogadores para atacar o cesto.

E quando, nos anos 90, as defesas começaram a explorar ao limite (ou para lá dele) o contacto físico e as regras (algo preconizado pelos Bad Boys de Detroit e aperfeiçoado pelas equipas de Pat Riley em Nova Iorque e Miami, bem como pelos Spurs de Gregg Popovich), a liga voltou a mexer nas regras. Quando o jogo começou a ficar feio e jogos com 70 e 80 pontos marcados começaram a ser comuns, a NBA voltou a desequilibrar a balança para o lado do ataque e do espetáculo.

Em 2001, eliminou a defesa ilegal (substituiu as regras desta última pela regra dos “3 segundos defensivos”), diminuiu o tempo para passar o meio de campo de 10 para 8 segundos e limitou o “hand check” (e, em 2004, eliminou-o completamente).

A par destas mudanças nas regras, a evolução dos jogadores e a revolução do jogo exterior (que já dissecámos aqui) têm feito subir, ano após ano, o ritmo de jogo e os pontos marcados. E criado um barril de pólvora ofensivo.

Este ano, a NBA volta a dar novo ênfase ao ataque e esse barril explodiu. Uma regra e uma instrução foram o gatilho para a explosão: a mudança de 24 segundos de ataque para apenas 14 após ressalto ofensivo e o foco posto na liberdade de movimentos dos jogadores, principalmente no perímetro, com instruções para os árbitros punirem os agarrões, os empurrões, os braços presos e todas as formas ilegais de restringir os movimentos dos atacantes.

Com as circunstâncias atuais do jogo, aliadas às mudanças nas regras deste ano, a balança ficou ainda mais desequilibrada para o lado do ataque. Há mais jogadores tecnicamente evoluídos e a lançar melhor do que nunca, e esses jogadores gozam de mais liberdade de movimentos do que nunca. Nunca foi tão difícil defender na NBA.

créditos: Kyrie Irving, o “Uncle Drew” dos Boston Celtics

Uma questão que se coloca é: ficou a balança desequilibrada demais? Para Kyrie Irving e Draymond Green, sim. As estrelas dos Celtics e Warriors foram dois dos jogadores que têm manifestado algum desagrado com esta supremacia ofensiva. Irving disse, após o encontro frente aos Charlotte Hornets (em que Kemba Walker marcou 60 pontos) que “não há defesa nenhuma na NBA neste momento”. E, em declarações à ESPN, Green disse que “(os jogos) têm sido apitados de forma bem apertada. Já nos tinham dito. A defesa já não é realmente um ênfase nesta liga. Por isso, estamos a ver estes resultados elevados. (…) como combatemos isso? Limpar a defesa, deixar de usar tanto as mãos, deixar de meter as mãos.”

O ataque vende. Mas, como podemos ver pelo Jogo All-Star, também ninguém gosta de um jogo em que não se defende. É preciso um equilíbrio entre ataque e defesa. É nesse equilíbrio que reside a beleza do jogo. Porque o ataque precisa da defesa para existir. Marcar pontos sem oposição, como acontece no All-Star, tem muito pouco mérito (e muito pouco interesse). Uma boa defesa valoriza o ataque. Por isso, gurus defensivos, esperamos pela vossa resposta.

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