Comecemos com uma breve lição de mandarim. Deixemos de lado o tradicional “olá” e “obrigado” e questionámos o nosso interlocutor, Liang Zhan, como se pronunciava em chinês a palavra “futebol”. A resposta foi dada de forma pausada, num português mais ou menos percetível, com direito a repetição, separando as sílabas, como estivéssemos a aprender a juntar palavras numa qualquer primeira aula do primeiro ciclo. “Zu qiu”. Assim se pronuncia. 足球, assim se escreve.
Elevámos a dificuldade e pedimos o som de “Sintrense”. “xin te lün si”, escutámos. Tinha a resposta na ponta da língua. Disse-o, soletrando, de novo, pausadamente. Traduzido para carateres chineses resulta assim: 辛特伦斯. Os agradecimentos são extensíveis aos smarphones, porque sem eles não era possível uma rápida tradução.
Posto isto, temos “futebol” e temos “Sintrense”. E também temos o que junta as duas palavras e cuja soma resulta no que nos levou até Sintra, isto é, o investimento chinês no futebol português. No caso concreto, no Sport União Sintrense.
Depois dos restaurantes, das lojas, do imobiliário, bancos (Haitong), seguradoras (Fidelidade), da EDP e da REN, o olho para o negócio do Império do Meio virou-se para o desporto que movimenta milhões. Há donos chineses no futebol português. Ao contrário de outros campeonatos, a entrada começa por baixo, pelas divisões secundárias.
No centenário clube de Sintra mora um dos mais recentes exemplos deste investimento. A Elegant Behaviour, Lda detém 70% da Sintrense SAD. Com capital social de 50 mil euros foi constituída no passado mês de julho. São três os acionistas: Paulo Zhan, Gengshu Qian e Johnny Ye. Os restantes 30% estão nas mãos do clube. Um negócio em tudo semelhante a outros concretizados noutras sociedades anónimas desportivas em Portugal por parte de capitais chineses.
Formar jogadores chineses e elevar o clube centenário a outros campeonatos
Aos 52 anos, Liang Zhan, presidente do grupo Iberia Universal Lda, empresa de media e comunicação sedeada em Lisboa, assume a presidência da SAD do Sport União Sintrense, equipa que milita na Série G do Campeonato de Portugal Prio (3ª divisão). A seu lado, Mauro de Almeida, vice-presidente (à esquerda na fotografia), e José Sequeira, presidente do clube e que aqui encarna o papel de Vogal. Paulo Zhan (centro-esquerda), filho de Liang, ocupa igualmente lugar na cúpula como Presidente da Mesa da Assembleia-Geral. À direita na imagem vemos Gonçalo Neves, o diretor desportivo do clube, ao lado de Liang.
Residente em Portugal há mais de duas décadas, Sintra foi a porta de entrada de Liang, ex-professor que virou homem de negócios. Vergado ao peso da história do património Mundial da UNESCO e à importância dos 105 anos do clube, o “amor” à nova terra é reforçado com a tradicional queda para multiplicar números. “Um comerciante gosta e quer ganhar dinheiro”, diz com uma desarmante simplicidade e um sorriso, abanando a cabeça para baixo e para cima numa postura de “quase” submissão que esconde uma plena afirmação.
O futebol na China é moda. “O presidente (Xi Jinping) gosta de futebol”, justifica Liang Zhan assim as razões que estão por detrás desta diversificação de negócios do presidente da Iberia Universal. Expressas na primeira pessoa diz: “primeiro ajudar o futebol chinês. Depois ajudar aqui o futebol do Sintrense a subir de divisão”. Meio a brincar, meio a sério, aponta a altos voos, amparados, claramente, numa paciência de chinês. “Para a Liga Europa e Superliga (leia-se Champions League).
Descendo à terra e à realidade com que se depara, sublinha que “Portugal pode ajudar o futebol chinês”. A ajuda “na formação de jovens jogadores para que possam desenvolver as suas potencialidades e adquirir experiência com treinadores e o futebol português que tem hoje em dia mais credenciais (campeões de Europa)”, sustenta.
Os atletas que pisam os relvados nacionais, quando regressam à China levam uma espécie de carimbo de certificação. Com alto valor comercial. Os responsáveis do Sintrense sabem isso de cor e salteado. “Ter jogado em Portugal valoriza muito na China…”, refere Mauro de Almeida, vice-presidente que dá como exemplo do avançado Yu Dabao, 28 anos, ex-Benfica, internacional pela seleção chinesa, estrela do Beijing Guoan (Chinese Super League) e que vale 600 mil euros de acordo com o site transfermarkt.com. Exemplos mais recentes apontam para valores de um milhão e meio de euros de valor de transação de quem cá jogou e partiu.
Em janeiro sai um e entram três compatriotas dos “donos” do clube
Neste momento há dois jogadores chineses a trabalhar às ordens do treinador Luís Loureiro, ex-jogador, internacional, com passagens pelo Sporting, Boavista, Braga e Dínamo de Moscovo. O guarda-redes e Bo Hao, 30 anos, defesa que nos últimos seis andou por divisões distritais. O Alta de Lisboa foi a última camisola que vestiu.
Em janeiro parte para a China em busca do contrato da vida. “O meu empresário está a tratar de tudo. Pode ser a Liga principal ou a segunda”, anuncia Bo. Quer jogar no país natal para, após pendurar as chuteiras, sentar-se desta vez no banco, e vestir a pele de treinador. “Vou tirar um curso de treinador. Lá ou cá. O meu empresário depois dirá o que for melhor”, referindo que os anos em Portugal “deram para tirar bons apontamentos dos que os treinadores fazem”.
O intercâmbio futebolístico luso-chinês não se restringe a entrada e saída de jogadores. A informação é outro bem precioso. E, nesse campo, joga a favor deter um grupo de Media (rádio Íris, revista Fanzine e um jornal em língua chinesa) onde são publicados, com regularidade, “artigos sobre o futebol português”.
A informação futebolística é bem-vinda ao país que quer se tornar uma superpotência. Recentemente, a pedido da embaixada chinesa, Liang Zhan falou sobre o mundo da bola nacional. “Na China desconheciam que Benfica estava no Guinness Records – clube com mais sócios no mundo. Há quem pense que Figo era do Benfica (ndr: a comunidade chinesa em Portugal tem uma “queda” pelas águias por causa da cor da camisola, explica)”. Destaca ainda o valor das vendas dos jogadores do Porto e a Academia de Alcochete, um local que recorda esteve quase a passar para o domínio chinês, num negócio que intermediou, mas que não se concretizou.
Liang Zhang elogia o trabalho feito em Portugal dentro e fora dos relvados. No futebol e no pós-futebol. “Na China quem acaba futebol não sabe fazer mais nada”, alerta.
Um duelo de chineses em casa emprestada
Conhecedor da “Geração de Ouro” de Portugal, Liang cita de cor os nomes de Figo, Rui Costa, João Pinto e Sá Pinto. Para os novos valores do futebol português entra em campo Paulo Zhan, filho, 26, nascido já em Portugal, em Sintra. Pai e filho, vestidos a rigor, fato e gravata, discutem futebol. O PIN do clube sobressai na lapela de ambos.
Paulo, em português fluente, afirma não ter simpatia por qualquer clube. Tem sim “empatia por clubes pequenos que batem o pé aos grandes” e admiração por quem aposta na formação. “Gosto do Dortmund. E o Atlético de Bilbao”, reconhece.
Num estádio com capacidade para 1800 pessoas decorrem obras debaixo da bancada central que tem vista para o Palácio da Pena. São da responsabilidade do clube. A SAD suporta os custos com o plantel (a rondar os 150 mil euros). 1600 sócios completam o universo Sintrense que se estende por dois campos.
Atualmente, passadas que estão 7 jornadas, o clube que tem Francisco Ruiz, irmão de Alan Ruiz (Sporting) e Victor Sanches, primo de Renato, o Golden Boy com o mesmo apelido, ocupa atualmente o 3º lugar do Campeonato de Portugal Prio.
Domingo defronta, fora de portas, o Atlético Clube de Portugal. Em comum, têm o financiamento “made in China”. 70% da SAD do histórico clube de Alcântara pertence à Anping Football Club, investidores chineses que gerem o futebol profissional.
No caso do Atlético seria mais um casamento perfeito entre quem tem dinheiro e jogadores (chineses) e quem necessita de verba e aceita artistas alheios (portugueses). No entanto, ao contrário do que se passa em Sintra, há um divórcio entre a SAD e clube e, por esse fato, a Tapadinha (que pertence ao clube) não pode ser utilizada, pelo que este duelo de “donos” chineses decorrerá no Estádio 1º de Maio, Lisboa, em casa emprestada.
