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“Quem perdoa facilmente, não tem carácter”

Este artigo tem mais de 3 anos

Lídia Jorge é uma das vozes mais poderosas da literatura portuguesa. Neste episódio do podcast Um Género de Conversa, fala sobre a construção do romance “Misericórdia”, a perda da mãe e o seu lugar enquanto filha. Uma conversa onde reflete também sobre a importância da dignidade na velhice, o percurso do feminismo e as possibilidades…

Ouça aqui a conversa com Lídia Jorge

“Temos de pensar que é um processo dinâmico, não chegamos a nada definitivo, tudo é refeito, revisto, alterado e existirão sempre surpresas. Existem aquelas mulheres que darão sempre um ponto de pé atrás para que outras possam andar para a frente”, conclui a escritora. E acrescenta reconhecer que temos feito um caminho de conquista e que a imagem pode prejudicar e diminuir a percepção intelectual das mulheres. Aconteceu com ela. “ Um amigo brasileiro, antes de me conhecer, dizia: ‘quero conhecer a Lídia porque dizem ter cara de dona de casa, de quem vai à missa todos os dias’. Eu não era levada a sério. Hoje uma mulher pode aparecer, muito bonita, bem arranjada, mostrar braços e pernas, mas a parte intelectual é que conta, isso é uma grande conquista. As mulheres aparecerem na sua inteireza”.

Lídia Jorge é conhecida por ser uma mulher de causas, acreditando na intervenção política dos escritores, eles que são, como gosta de dizer, os cronistas do seu tempo. Gosta de pensar o tempo que vive, gosta de perceber o que lhe acontece e o que acontece ao mundo. “Tenho sempre a cabeça cheia de fábulas. Os escritores existem em duas espécies: os escritores-âncora, o que lhes interessa é a profundidade e o histórico; os escritores-antena, aquelas que procuram no tempo a lição e o estímulo.”

Nestes 50 minutos de conversa com Paula Cosme Pinto e Patrícia Reis, o ponto de partida é o recém-publicado “Misericórdia”, livro que foi um pedido da mãe, que se lê com o coração nas mãos, pessoalíssimo, repleto de uma intimidade que revela a ligação entre uma mãe e uma filha. Um romance que não é sobre a morte, é sobre a resistência e a compaixão. “Os lares são criações generosas, sobretudo da segunda metade do seculo XX, configuram a solidariedade dos estados modernos democráticos europeus. Enquanto a infância é valorizada, há um cuidado extremo com as crianças, o início e o fim da vida são os mais frágeis. O mundo moderno contemporâneo deu toda a atenção aos mais novos e tentou arrumar, tentar tranquilizar, os mais velhos. A ver se a pessoa fecha os olhos depressa”.

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