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Em causa estão ferros de pescoço datados de 1780, do período em que o comércio de pessoas escravizadas na África Oriental era dominado por árabes omanitas — prática que terminou no final do século XIX após resistência africana e pressão britânica. As peças, avaliadas em cerca de mil libras, integram um leilão intitulado “Challenging History”, segundo conta o The Guardian.
O leiloeiro Marcus Salter, da Cheeky Auctions, em Tain, afirmou que pretende que o “artefacto sensível” confronte o público com a história e garantiu não querer ofender. Disse ainda que está a vender as correntes em nome de um negociante cujo pai as possuía há 50 anos, acrescentando que “haverá sempre dinheiro envolvido, aconteça o que acontecer”. Argumentou também que, se fossem doadas a um museu, poderiam acabar armazenadas sem serem vistas, e sublinhou que a venda foi autorizada pela plataforma utilizada, que considera as correntes um objecto histórico.
As críticas têm sido intensas. A deputada trabalhista Bell Ribeiro-Addy, que preside ao grupo parlamentar multipartidário para as reparações africanas, afirmou que comercializar estes objectos equivale a continuar a lucrar com o tráfico de escravos. Defendeu que só faria sentido colocá-los num museu e comparou a sua venda ao comércio de restos humanos como peças de colecção, alertando para o risco de “fetichizar” objectos que deveriam ser encarados com horror.
Nigel Murray, advogado reformado das Terras Altas escocesas, classificou o leilão como “vil” e disse que deixou de querer fazer negócios com a empresa depois de ver as correntes promovidas no Facebook. Criticou o facto de se utilizar um leilão, método historicamente usado para vender pessoas escravizadas, para vender agora as próprias correntes.
Já em 2024, o especialista Ronnie Archer-Morgan, do programa Antiques Roadshow, recusou avaliar uma pulseira de marfim ligada à escravização. A advogada Caecilia Dance, que tem trabalhado em casos de restituição de arte saqueada pelos nazis, afirmou que não existe legislação específica que proíba a venda de objectos ligados à escravatura, mas defendeu que a melhor solução seria a sua doação, venda ou empréstimo de longo prazo a museus com ligações às comunidades afectadas. Acrescentou que, tal como aconteceu com obras associadas ao saque nazi, hoje amplamente rejeitadas pelo mercado, é provável que o mesmo enquadramento ético venha a aplicar-se a objectos relacionados com a escravatura, numa altura em que a opinião pública tende cada vez mais a favorecer a restituição.
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