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Porque é que encolhemos com a idade? A ciência por detrás da perda de altura

A ideia de que os seres humanos encolhem com o avançar da idade é frequentemente tratada como uma anedota ou um mito. No entanto, a redução de estatura ao longo da vida é um fenómeno real e muito estudado. O que é menos compreendido pelas pessoas é o que realmente conduz a esse encolhimento gradual.

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A perda média de altura situa-se entre um e três centímetros ao longo da vida adulta, mas pode atingir cinco centímetros em idades mais avançadas, especialmente em pessoas com fragilidade óssea, de acordo com estudos. Dizem também os especialistas que a variação depende de factores como a genética, estilo de vida, alimentação e presença de doenças nos ossos.

O fenómeno começa, “de forma quase silenciosa”, na coluna vertebral.

“Os discos intervertebrais, estruturas gelatinosas responsáveis por absorver impacto e proporcionar mobilidade, vão perdendo hidratação ao longo das décadas. Essa desidratação reduz a sua espessura e, por consequência, a altura total da coluna. A maior parte da perda de estatura ocorre por alterações nos discos intervertebrais. Com o tempo, estes discos tornam-se menos elásticos e comprimem-se de forma mais acentuada.  Além disso, pequenos colapsos ou microfraturas nos corpos vertebrais podem ocorrer em pessoas com osteoporose, especialmente mulheres após a menopausa, acelerando a perda de altura”, diz ao 24notícias o Miguel Faria, médico especialista em ortopedia.

Outro factor significativo é a alteração de postura. A musculatura do tronco, “em particular os músculos paravertebrais e abdominais”, perde força com a idade, o que “favorece um aumento da curvatura dorsal”.

“Esta inclinação para a frente pode criar a impressão de que a pessoa perdeu mais altura do que na realidade ocorreu. A postura diz-nos muito sobre o envelhecimento da coluna. Muitas vezes, o que parece ser perda de altura estrutural é, na verdade, um colapso postural decorrente de fraqueza muscular ou má higiene ergonómica ao longo da vida”, de acordo com o especialista.

Mas há mais fatores para esta ‘perda de altura’, como a redução da densidade mineral óssea. A partir dos 50 anos, a massa óssea tende a diminuir de forma constante. “Nas mulheres, esse processo acelera devido à queda dos níveis de estrogénio. A osteopenia e a osteoporose não só aumentam o risco de fracturas como contribuem para a deformação progressiva das vértebras”, afirma.

Podemos evitar “encolher”?

Apesar de tudo, o envelhecimento não precisa de ser sinónimo de perda significativa de altura, sobretudo com prevenção, exercício e monitorização clínica.

Os especialistas defendem que grande parte da perda de altura “é mitigável”, nomeadamente com exercícios de fortalecimento muscular, sobretudo para a região lombar e dorsal, sendo que a prática regular de actividades como pilates, ioga ou treino funcional é particularmente eficaz.

Além destes comportamentos, a nutrição desempenha igualmente um papel crítico com consumos de cálcio, vitamina D e proteínas, que ajudam a preservar tanto a massa óssea como a muscular.

O que é mito e o que é verdade?

O mito não reside no facto de perdermos altura, pois isso é real, mas na crença de que o fenómeno é inevitável. “A perda de estatura não é igual para todos e está longe de ser um destino inevitável. O que importa é identificar cedo os factores de risco e adoptar estratégias preventivas”, salienta.

“Para muitos, ‘encolher’ pode parecer um detalhe menor do envelhecimento. Mas, para a medicina, é um marcador vital da saúde óssea e postural, capaz de sinalizar problemas que merecem atenção. Em suma, medir a altura pode ser mais importante do que parece, mesmo depois dos tempos de crescimento já terem ficado para trás”, conclui.

Dados e estudos recentes em Portugal

Prevalência de osteoporose

Um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), publicado em 2024, revela que 15% da população portuguesa sofre de osteoporose.

  • Este rastreio envolveu 767 pessoas, com média de idade de 58 anos;
  • No mesmo estudo, “mais de 10% dos indivíduos reportaram perda da altura ao longo do tempo”, o que pode indicar fraturas vertebrais ou colapsos vertebrais silenciosos;
  • Segundo as autoras do estudo, esse registo de “perda de altura” é um sinal relevante de fragilidade óssea.

Declínio da densidade mineral óssea (DMO) em idosas

  • Um trabalho de dissertação da Escola Superior de Saúde de Viseu documenta que a densidade óssea diminui com a idade e que, nas mulheres, a perda óssea acelera após a menopausa;
  • No estudo, constatou-se que antes da menopausa a perda média de massa óssea ronda os 0,8% por ano, enquanto na menopausa pode subir até 2,3% por ano;
  • A dissertação também descreve que, ao nível da coluna vertebral, as vértebras podem sofrer deformações (achatamento) e deformidade postural (cifose), o que poderia contribuir para a sensação ou a medição de perda de altura;
  • Além disso, a perda de tónus muscular (sarcopenia) também é apontada como um fator que altera a postura nos idosos, contribuindo para mudanças na forma da coluna.

Taxa de perda óssea segundo diretrizes nacionais

No caderno de atenção básica sobre envelhecimento (publicado por entidades portuguesas), há uma referência a taxas médias de perda de densidade óssea: cerca de 1% por ano nas mulheres pós-menopausa e valores menores nos homens.

  • Esse documento refere que nos primeiros 5 a 10 anos após a menopausa a perda de osso trabecular (parte mais porosa) pode atingir 2–4% ao ano, enquanto o osso cortical (mais denso) perde cerca de 1% por ano;
  • Esses números sustentam a ideia de que a diminuição da densidade óssea – especialmente nas vértebras – pode servir de base para a perda de altura medida ou percebida.

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