Algo invulgar se passa na rua de João Vaz Corte Real. Há bulício, riso, correrias e uns quantos palavrões a serem atirados de boa fé numa via a dez minutos a pé da marina de Angra do Heroísmo, cidade-pérola da ilha Terceira, nos Açores. E a razão é só uma: as Sanjoaninas.
É por causa desta grande festa popular — que teve início nesta sexta-feira, 21 de junho, e se prolonga até ao final do mês — que se aglomeram gentes em clima festivo entre um balcão dos CTT e um stand de automóveis. Pequenos, graúdos e maduros estão reunidos para o ensaio geral da Associação da Marcha dos Veteranos, o último antes de este grupo se entregar às ruas de Angra na véspera de São João. Trata-se de um dos mais importantes eventos da ilha, e não é exagero afirmar que há quem espere por ele durante o ano todo.
Na Terceira não se desfila num momento e se dança noutro — como, por exemplo, ocorre nas Marchas Populares de Lisboa. Aqui, os dois atos entrelaçam-se numa coreografia que se vai fazendo ao longo da cidade. Também aqui, não se marcha para ganhar, mas sim para celebrar a própria ação de com dois pés gingar rua acima, rua abaixo. Sem júri, nem prémios, nem vencedores, ganham todos os que afinem a voz para cantar bem alto o amor que têm pelas Sanjoaninas, assim como todos os outros que venham assistir.
Sem a pressão da competição, é a afeição o que move os integrantes da Marcha dos Veteranos, grupo criado em 2001 e que deve o seu nome a um gesto nobre. Este deu-se quando alguns membros daquela que ainda é uma das principais entidades dedicadas à arte da marcha na ilha, a Marcha Oficial das Sanjoaninas (MOS), a abandonaram para dar lugar a uma nova geração. Assim o explica José Gabriel, que saiu da MOS, grupo que ajudou a criar, porque diz ser “necessário saber retirar-se pela porta grande”, tendo formado subsequentemente uma nova marcha com um núcleo de amigos, para manter a sua paixão não só viva, como ativa.
Não obstante todas as simbólicas passagens de testemunho aos marchantes mais jovens, o nome deste grupo ajuntado na rua acima descrita não é um sinónimo de idade. José Gabriel, por exemplo, já tem as suas duas filhas a participarem. Os “Veteranos” são, então, todos os que tenham vindo de outras associações para se juntar aqui, tendo como único requisito já ter alguma experiência na marcha. Tal refletiu-se no à vontade com que foram chegando ao ensaio geral os 64 participantes — uns mais veteranos que outros — que compõem os 32 pares que vão desfilar este ano. É a experiência aliada à vontade de saborear e cantar com gosto os temas da terra natal.
Mas regresse-se ao ensaio geral. Ele tem este nome por um motivo. É porque é o último antes da atuação per se e é quando tem de estar tudo pronto. Os anteriores, começados em maio, focaram-se principalmente na letra que este domingo ecoará pelas ruas de Angra. José Gabriel explica que sem se saber a letra da canção, o resto cai por terra. Quando cada sílaba já está aprendida, passa-se para “o andamento” — ou, noutras palavras, a coreografia.
A dois dias do grande desfile, só falta o derradeiro passo: fazer tudo aquilo que se aprendeu, mas com a banda a tocar. E faz-se com a Charanga das Fresquinhas, um grupo de homens do Samouco, perto do Montijo, que regressa à ilha nas Sanjoaninas para tocar, pela terceira vez consecutiva, com os seus amigos veteranos. A sua presença, aliás, fizeram-na sentir ainda antes do ensaio, quando iniciaram o seu aquecimento na Praça Velha de Angra, dispostos numa rodinha a animar as pessoas na esplanada e os curiosos em redor. Trompetes, trombone, clarinete, tuba e saxofone a soar ao ritmo do tambor, do bombo e dos pratos. A fórmula é irresistível.
Agora, com a Charanga, segue então o baile, que tem sempre um tema associado. Se há dois anos se honraram os 75 anos da SATA e no ano passado se celebraram os fotógrafos da ilha, este ano louvam-se os cavaleiros da Terceira — não os guerreiros militares, mas os que lutam nas praças, já que esta é uma terra de grande tradição tauromáquica.
A questão do tema, atente-se, é a própria essência da marcha. Assim o dizem Délia Alves e Esmeralda Amaral, ambas parte da atual direção da Associação Marcha dos Veteranos. Délia, que a integra desde 2001, explica que cada marcha adapta-se às letras e à música — respetivamente a cargo do poeta Álamo Oliveira e do músico Carlos Alberto Moniz, ambos terceirenses. Segundo “a presidente”, começa tudo na letra, depois vem a música e, por fim, a coreografia. Não cumprir esta cadeia de acontecimentos é não compreender que é da necessidade de mensagem, e não de mero virtuosismo, que se fazem os desfiles sanjoaninos.
Foi assim que, de uma letra inspirada na tradição tauromáquica da Terceira, se escolheu um pasodoble e se adaptaram os passos em conformidade para a marcha deste ano. Para a coreografia, Délia explica que toda a veterania acumulada dos marchantes lhes permite assimilar com facilidade uma sequência complexa de passos, tal como um guitarrista bem treinado é capaz de aprender uma música difícil com alguma rapidez.
O resultado esteve à vista. Quando se passou das palavras aos atos e a Marcha dos Veteranos iniciou o seu ensaio geral, os marchantes como a banda começaram a descer a rua como se ensaiassem juntos há meses. Durante perto de 25 minutos, seguiu-se um complexo esquema de movimentos, tecido de tal forma que, aos olhos destreinados, a menção de Délia a “facilidades” tornou-se difícil de acreditar. Passos, voltas, meias-voltas, mãos que se prenderam e se largaram, trocas de parceiros entre triangulações e ziguezagues caracterizaram uma coreografia onde os marchantes nunca perderam a ginga e os sorrisos. E, sim, também houve a ocasional correria de quem se esqueceu de determinado movimento e teve de encontrar o seu lugar rapidamente. É para isso que os ensaios servem, afinal de contas.
Nas laterais, a acompanhar este comboio da folia, iam seguindo membros das famílias dos participantes, entre crianças que sabiam a letra da canção na ponta da língua e adultos a apreciar o momento. Ao longo da rua, a marcha foi ocupando o asfalto, não por um capricho ou rasgo de desobediência civil, mas por necessidade. Para que o ensaio fosse feito nas condições mais próximas àquelas que vão ser encontradas na noite de São João, marchantes e banda desfilaram pela via.
Assim foi, entre gritos redundantes de “alegria!”, até se chegar a um perigoso obstáculo: uma rotunda. A imprevisibilidade do trânsito levou a que o ensaio terminasse, dando as vozes e os instrumentos lugar às palmas. Mas a música, na verdade, não parou. Querendo manter a festa, a Charanga desatou num concerto improvisado para quem quisesse continuar a dar às ancas, ao som de canções como “Despacito”, “Coração Não Tem Idade” até, sim, um medley entre o mega-êxito infantil “Baby Shark” e o clássico “Stand By Me”.
A próxima vez que o grupo voltar a reunir será já para descer a cidade, tão engalada como cada um dos membros. Se a Marcha dos Veteranos consegue fazer de um ensaio uma festa, imagine-se o que farão na noite pela qual esperaram todo o ano.

















