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“Máfia, uma História Global”. Entrar na mente de Al Capone

“Máfia, uma História Global”, uma investigação de duas décadas do historiador norte-americano Ryan Gingeras, é um retrato completo e elucidativo de gangues e gângsters, sindicatos insidiosos e reis do crime, que acompanha a sofisticação dos marginais ao longo dos tempos como resposta a desafios como a industrialização, a globalização ou a era digital, e que…

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A Cidade de Al: o momento de Capone ao sol

No início do século XX, Chicago era famosa pela imundície. Inicialmente, a culpa era atribuída à localização física e à ecologia: os terrenos eram pantanosos, tornando as ruas da cidade velha insuportavelmente lamacentas. Os primeiros cidadãos viviam com os odores terríveis resultantes do sistema deficiente de drenagem. A cidade adquiriu a alcunha de «Cidade de Chapa» graças aos edifícios desleixados construídos pela população em rápido crescimento. A reconstrução após o grande incêndio de 1871 aliviou alguns destes problemas. Outras formas de sujidade revelaram-se mais obstinadas. Como rampa de lançamento para os migrantes que rumavam para oeste do Mississípi, Chicago era afamada pela transitoriedade, pela moral duvidosa e pela corrupção. Enquanto o movimento progressista na América atingia o auge do seu poder, entre as décadas de 90 do século XIX e 20 do século XX, havia pelo menos 500 operações de porta aberta dedicadas ao sexo (e sem dúvidas muitas mais nunca contabilizadas). A liberdade gozada por madames e senhores do jogo acompanhou de perto a evolução da cidade até se tornar um dos baluartes do Partido Democrático.

A máquina política começou a rugir na década de 70 do século XIX sob o proeminente jogador Michael Cassius McDonald. A fortuna particular e as ligações às forças musculadas locais permitiam-lhe escolher quais os candidatos às eleições municipais. No seu reinado, a corrupção era a ordem do dia. Foi Chicago quem deu ao mundo a expressão «vota cedo e vota muito».

A cidade já tinha mais do que a sua conta de gangues e figurões antes da chegada de Al Capone, que não poderia ter sido mais oportuna: coincidiu com o abate a tiro de «Big» Jim Colosimo, um dos gângsteres mais temidos de Chicago. À época considerado «o assassínio da Máfia mais célebre da América», está até hoje oficialmente por resolver. É, no entanto, indiscutível que os homens que beneficiaram mais com a morte de Cosimo foram os herdeiros do seu império criminoso. Como seu antigo número dois, Johnny Torrio herdou de Jim os bordéis, os saloons e as salas de jogo. Designou o jovem Snooky – como Capone era tratado pelos amigos – para trabalhar à porta do seu clube, o Four Deuces. O dinheiro regular que Alphonse ganhava era mais do que alguma vez ganhara em Nova Iorque.

As oportunidades de negócio multiplicaram-se à medida que ele criava um grupo próprio e variegado de confidentes e capangas.
Havia Jake Guzik, oriundo de uma família alargada de proxenetas e corretores nascidos na Rússia, e o contrabandista e recetador Frank Nitti, que também se mudara para Chicago depois de uma infância passada na Sicília e em Brooklyn. No final da década de 20 do século passado, esta parceria rendera a Capone uma fortuna estimada em 40 milhões de dólares.

A violência no terreno, mais do que qualquer outra coisa, foi a pedra-base da fama e da fortuna de Capone. A Guerra Castellamarese de Nova Iorque foi uma bagatela em comparação com a carnificina a que Chicago assistiu na disputa de distribuição de álcool e de outros vícios. Foram mortas 700 pessoas em Chicago até ao levantamento da Proibição. Houve meses em que a média de mortes na cidade foi de uma por dia. Os gângsteres abonados aproveitaram a venda no mercado negro de metralhadoras do exército, frequentemente referidas como «máquinas de escrever de Chicago». Nenhuma das máfias da cidade tinha escrúpulos em usar dinamite para se livrar de lojas, clubes e armazéns pertencentes aos rivais. Foram as batalhas com Dean O’Banion e Bugs Moran, da zona norte da cidade, que promoveram Capone a uma posição de liderança.

Em 1924, depois de Johnny Torrio conseguir eliminar o mentalmente instável O’Banion, atiradores irlandeses fizeram-lhe uma emboscada e deixaram-no por morto. Torrio sobreviveu, mas a sua decisão de se reformar permitiu a Capone assumir totalmente as rédeas da organização. A guerra atingiu o auge no Dia de São Valentim de 1929. O massacre a tiros de metralhadora de sete homens numa garagem da zona norte incluiu todos os tenentes principais de Moran. Capone, estava evidentemente implicado, claro, mas nunca foi acusado.

Capone gabava-se abertamente dos jornalistas que tinha no bolso. Mas não precisava de subornar jornalistas para escreverem sobre ele. As suas atividades e tropelias tinham uma notável difusão a nível nacional. Ele adorava a atenção das câmaras e dava liberalmente entrevistas. Vestia-se de modo berrante, um facto que reconhecia e no qual se deleitava. A persona pública de Capone era desarmante e até encantadora. «Toda a sua postura», observou um jornalista, «é de uma criança grande.» Poderia facilmente convencer um incauto de que era tão «inofensivo quanto um grande São-Bernardo». Também tinha sentido de humor, um traço que refletia a crueza do que o rodeava. Ao chegar a Chicago, mandara fazer cartões de visita enquanto trabalhava à porta do Four Deuces de Torrio, que o apresentavam como Al Brown, vendedor de móveis em segunda mão. Quando lhe perguntaram que tipo de móveis vendia, respondeu: «Qualquer velharia onde um homem possa querer deitar-se.» Esta fachada ocultava apenas em parte uma verdade essencial sobre Capone: ele matava sem hesitação nem remorso.

Tendo cometido o seu primeiro homicídio na adolescência, atraiu três dos seus próprios capangas para uma festa privada, drogou-os, e a seguir massacrou-os com um taco de basebol.

A história das mortes do taco de basebol foi uma das muitas repetidas na primeira biografia publicada de Capone, em 1930.

O autor, Fred Pasley, repórter do Chicago Tribune, também dava credibilidade a histórias menos prováveis, como a alegação de que Capone tinha combatido em França durante a guerra (uma história que ele usou mais do que uma vez para justificar as cicatrizes que tinha na cara). O retrato de self-made man feito por Pasley ainda fascinava o público muito depois da queda de Capone. Muitos partilhavam da convicção de Pasley de que ele revolucionara «o crime e a corrupção», dando-lhes uma natureza mais eficiente e pragmática. E, realmente, a noção de Capone como um Henry Ford hipermalévolo condizia com os tempos. A produção e o consumo em massa tinham alterado as vidas de todos os americanos na década de 20 do século XX. Ironicamente,
a primeira narrativa ficcional da sua vida, o romance Scarface, não oferece lições alegóricas aos leitores. Lançado no mesmo ano que a biografia escrita por Pasley, a história do autor Armitage Trails sobre o gângster Tony Camonte é pura literatura de cordel. Camonte, tal como Capone, virá a tornar-se poderoso e célebre, mas a sua dramática ascensão e queda pouco tem de declaradamente moralizante.

Hollywood manteve toda a emoção das interpretações de Pasley e Trail da vida de Capone, mas acrescentou doses muito mais pesadas de piedade. Antes de Hawks terminar Scarface, foram lançados dois outros filmes: O Pequeno César e Inimigo Público.

César e Inimigo continham apenas vagas referências a Capone. Os desempenhos dos protagonistas de cada um dos filmes – Capone, Paul Muni, Edward G. Robinson e James Cagney – não deixam dúvidas sobre quem inspirou as suas personagens. Ao contrário do Capone da vida real, a personagem principal de cada um dos filmes tem uma morte violenta. A falta de ambiguidade era intencionalmente crua. Sob a sombra da Depressão, Hollywood queria que os espectadores saíssem das salas com a mesma lição: não cedam ao dinheiro fácil. O crime não compensa.

Os críticos estrangeiros, como muitos nos Estados Unidos, tiveram dificuldade em ver além da violência de Scarface. Um crítico do Times de Londres entendeu que a Metro-Goldwin Mayer tinha o desejo declarado de expor os espectadores à «selvageria do mundo dos “gângsteres”», a fim de o denegrir aos olhos do público. «Isso, claro, é um disparate.» Scarface, do ponto de vista do crítico, era «uma exploração brilhante e desprovida de escrúpulos das possibilidades dramáticas da guerra de gangues». Não era de modo algum «um panfleto de ética social» para os espectadores levarem para casa e digerirem. No entanto, o filme tinha pontos positivos. Estava bem interpretado e bem filmado, embora fosse confusa a razão por que a personagem principal tratava a irmã com «uma possessividade tão estranha e feroz».

As alusões propositadas de Hawks ao incesto podem ter passado ao lado de muitos espectadores, mas a sua dramatização da vida de Capone sintonizou-se com um surto internacional de fascínio. Na era da rádio, noticiários de cinema e divulgação crescente, a violência da terra dos gangues americana cativava o interesse das pessoas em todo o mundo. Capone tornou-se o seu rosto mais reconhecível. Os observadores estrangeiros, porém, retiravam lições diferentes do que estava a acontecer em Chicago e noutros lugares dos Estados Unidos. «Não temos de desdenhar esta América que deixa andar à solta os seus criminosos mais proeminentes», aconselhava um editor alemão aos seus leitores. Também eles tinham os seus demónios, como os irmãos Sass, que foram acusados de uma série de roubos em Berlim no final da década de 20 do século passado. Os irmãos Sass não atingiam a estatura de Capone. Mas também eles raramente passavam mais do que poucas semanas na prisão apesar de «toda a gente saber deles». Um comentador francês concordava.

Não havia dúvida de que os «“bandidos de Chicago” estavam na ribalta da imaginação popular» devido à influência do cinema e dos romances em fascículos. Mas, na verdade, estes «luxuosos bandidos americanos não são mais [nem] menos sanguinários e brutais do que os vilões apaches de outras grandes cidades do mundo». Pegando na deixa dos relatos europeus, um diário turco coroou Capone «o rei dos bandidos» da América. Escrevendo num país onde os bandidos à antiga ainda aterrorizavam o interior, um comentador achava chocante que o banditismo tivesse tirado as vidas a mais de 12 mil americanos.

Capone era uma «ameaça exemplar à civilização americana», mas não estava só. Afinal, Arnold Rothstein chegara a ser «tão poderoso quanto o presidente americano».

Após a proibição: a máfia americana internacionaliza-se Eliot Ness não gostava menos dos holofotes que Alphonse Capone. Fazia tudo para ter equipas de filmagens a postos quando organizava rusgas em bares clandestinos por toda a Chicago. E, contudo, o homem que inspirou o filme e a série televisiva Os Intocáveis não foi o homem que colocou Capone atrás das grades. Essa honra coube a Elmer Irey, chefe da autoridade executiva do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos. Foram os seus agentes que investigaram os registos financeiros de Capone e recolheram provas que documentavam os seus pagamentos em falta à autoridade tributária. Na elaboração do caso, os promotores de acusação puxaram à emoção do júri, aconselhando os jurados a não ver os crimes do arguido como inofensivos ou inconsequentes. Capone, insistiram, não era Robin Hood. Não comprara 6500 dólares de carne ou 8000 dólares de fivelas de cinto para beneficiar aqueles que a Depressão deixara desempregados.

Enquanto os cidadãos comuns que ganhavam muito menos pagavam o que deviam, Capone escondera a sua exorbitante fortuna, gastando-a consigo próprio. As suas transgressões importavam pelo significado que tinham para o bem comum.

A letra da lei tinha de ser aplicada na totalidade, independentemente da aparente trivialidade. Todos os cidadãos tinham de comunicar voluntariamente os seus rendimentos e pagar o que deviam. De outro modo, advertiu-se o júri, a justiça desapareceria e a sociedade organizada regrediria «ao estado selvagem».

A vitória obtida por Irey e pelos procuradores federais refletia uma verdade mais profunda sobre a natureza do estado americano nesta época. Sob a presidência de Herbert Hoover, os braços do governo federal cresceram em tamanho e força.

No final da década de 20 do século passado, o Departamento do Tesouro, ao qual pertenciam Ness e Elmer, possuía a autoridade e o financiamento necessários para esmagar contrabandistas como Capone. Em 1930, o seu Bureau de Proibição empregava cerca  e quatro mil pessoas e tinha um orçamento de treze milhões de dólares. Anos antes, J. Edgar Hoover tomou conta do que então se chamava Bureau de Investigação. Sendo um gabinete executivo inicialmente encarregado de policiar a escravatura branca ao abrigo da Lei Mann, o bureau de Hoover era mais pequeno, e em 1930 tinha um orçamento de apenas dois milhões de dólares. A sua recente cruzada contra assaltantes de bancos e inimigos públicos como Machine Gun Kelly e Babyface Nelson popularizou-o na América. Assim, o seu orçamento aumentou para uns ainda modestos cinco milhões de dólares. Não obstante, a influência de Washington sobre as autoridades e administrações locais estava em expansão.

Mais do que qualquer outra coisa, foi a exaustão do público americano o que pôs fim à tirania da Proibição. A rescisão da Décima Oitava Emenda, em 1933, foi saudada com cenas de alegria louca. Para aqueles que tinham acumulado fortunas com o contrabando de álcool, os esforços para reconverter o negócio das bebidas já tinham começado. Alguns procuravam reinvestir em negócios legítimos ou em esquemas mais estáveis, como a extorsão laboral. Outros esgueiraram-se para a obscuridade. Outros ainda foram para a prisão. Em Nova Iorque, uma revolução política varreu o submundo. Em 1934, os eleitores da cidade elegeram para mayor o republicano Fiorello La Guardia.

La Guardia, ele próprio filho de imigrantes sicilianos, ganhou reputação ao desmascarar mafiosos e os políticos que os protegiam.

A ajudar a sua vantagem como reformador estava a nomeação de um procurador do ministério público republicano, Thomas Dewey, que enfrentou a indústria do vício da cidade.

Com a ajuda da primeira vice-procuradora afro-americana da cidade, Eunice Carter, Dewey condenou Lucky Luciano pela acusação de gerir prostitutas. Em 1936, um juiz de Nova Iorque condenou-o a não menos de 30 anos de prisão. Dewey dedicou-se então a ajudar ao colapso de uma das organizações mais temidas da cidade, a Murder Inc. O seu dirigente, Louis «Lepke» Buchalter, fora essencial para consolidar a posição da Murder Inc. como força dominante no tráfico de drogas e nos esquemas laborais na cidade de Nova Iorque. No final da década, acusações bem-sucedidas e mortes misteriosas tinham dizimado as fileiras da Murder Inc. Thomas Dewey certificou-se de que Lepke morresse na cadeira elétrica em 1944.

O encarceramento de Luciano e a morte de Al Capone às mãos da demência sifilítica foram apenas percalços para as organizações criminosas nascidas sob a Proibição. O domínio do submundo de Chicago passou para um consórcio de veteranos das Guerras da Cerveja, incluindo homens como Jake Guzik e Frank Nitti. O suicídio de Nitti, em 1944, abriu caminho para um afluxo de sangue fresco à cabeça do que viria a chamar-se o Outfit de Chicago. Assumindo a parte de leão das responsabilidades estava Joe Accardo, um dos supostos atiradores no massacre do Dia de São Valentim, e Sam Giancana, o seu protegido.

As Cinco Famílias de Nova Iorque também sofreram mudanças em termos de chefias e orientação. Mas estas, juntamente com outros baluartes da era da Proibição, começavam a pensar em grande. Durante a década de 20 do século XX, algumas organizações desenvolveram grandes esferas geográficas de influência. Com Capone, Chicago reinava sobre grande parte do Centro-Oeste americano. A sua aquisição de uma grande propriedade na Flórida, bem como a compra, por parte de Lansky, de uma pista de corridas de cavalos em Miami, foram marcos na relação nascente deste estado com o crime organizado. Durante um célebre conclave de gângsteres, Johnny Torrio lançou a ideia de um entendimento mútuo em termos de expansão.

O país era suficientemente grande para que houvesse «cidades abertas», onde as famílias do norte e do leste fossem livres para explorar oportunidades. E os gângsteres já estavam de olhos postos em cidades a oeste do Mississípi.

Entre os primeiros a chegar ao Pacífico estava Jack Dragna.

Na juventude, Jack alternava entre Nova Iorque e a sua Corleone natal, na Sicília. Ganhou corpo como membro da família de Giuseppe Morello, mas saiu da cidade para fugir à lei. Extraordinariamente, chegou a Los Angeles em 1915 sem conhecer ninguém e sem qualquer plano aparente para ter sucesso.

No final da década de 20 do século passado, o controlo do comércio do vício na cidade levava a gente dos jornais a chamar-lhe o «Al Capone do Oeste». A jovem família de Dragna foi gradualmente acolhendo outros vindos do leste. Uma chegada digna de nota foi a de Johnny Roselli. Após uma temporada com Capone em Chicago, Johnny adotou a Califórnia e a oportunidade de reinvenção. Repudiou a agressividade grosseira associada à imagem de gângster do tipo de Capone. Empenhou-se em perder o sotaque e adotou uma aparência mais elegante e cuidada. «O Johnny era muito observador», recordava um amigo, «e, obviamente, quando era bastante jovem, percebeu que as boas maneiras, o bom aspeto, os gestos apropriados, os vinhos aconselháveis, a boa comida, tudo isso, eram muito importantes para quem queria ser um cavalheiro.» E acabou por dar bom uso à sua experiência. Enquanto mantinha ligações estreitas com as famílias de Nova Iorque e de Chicago, abriu caminhos em Hollywood como corretor de apostas e fura-greves.

Os passos de Roselli seriam em breve seguidos por Bugsy Siegel. O contrabandista de álcool nova-iorquino chegou também na expectativa de um novo começo – um anseio que Roselli ajudou a satisfazer. Os dois não tardaram a travar amizade.

Antes do final da década de 30 do século XX, ambos os gângsteres atendiam à indústria e às necessidades de vedetas e executivos
de Hollywood. Os dois uniram então forças para comprar uma pista de corridas em Tijuana, no México. Esta aquisição alimentou os apetites e as ambições de Siegel. A sua primeira incursão em Las Vegas deu-se quando, juntamente com Meyer Lansky, comprou um hotel na cidade. Havia casinos no que viria a ser Vegas Strip*, mas o local «estava num estado lastimoso», recordava Lansky. «As condições de vida eram más. Ninguém queria ir jogar a Las Vegas. As ligações aéreas eram deficientes. E a viagem por estrada era incómoda. O calor era tanto que os fios dos carros derretiam.» Siegel tinha outra visão. Em 1945, usurpou o plano de um investidor para construir uma estância de luxo, o Flamingo. Durante os dois anos seguintes, deu tudo ao projeto. O cantor e dançarino Jimmy Durante encabeçou a primeira noite de entretenimento, em dezembro de 1946, e um desfile de talentos de Hollywood compareceu à inauguração.

Os entendidos da indústria elogiaram Las Vegas como uma versão mais limpa e glamorosa da Barbary Coast de São Francisco. No entanto, a realização deste sonho valeu a Siegel dívidas tremendas e inimizades. Homens armados certificaram-se de que a sua glória fosse breve.

É quase certo que Meyer Lansky soubesse do assassínio do amigo de infância e o aprovasse. O dinheiro que ele e outros figurões da Costa Leste tinham investido na construção do Flamingo tornou-os sócios passivos por muitos anos. Quando Siegel foi morto, em 1947, Lansky já se transformara numa espécie de magnata internacional do jogo. No início da década de 30 do século passado, financiou um casino na cidade de corridas e lazer de Saratoga, um lugar que tinha anteriormente acolhido Arnold Rothstein. Viu oportunidades ainda maiores em Cuba. À chegada, Lansky encontrou o país enfraquecido pela Depressão e por uma mudança violenta de governo. Antes do crash de 1929, os promotores locais tinham atraído legiões de turistas americanos para a ilha, com ofertas de sexo barato, rum acessível e vida fácil. Na última fase da Depressão, as coisas começavam a mudar. O clima tenso que se seguiu a um golpe de 1933 levou as empresas de turismo a advertir os passageiros de que os navios de cruzeiro só atracavam em Havana «se as condições permitirem». Lansky divisou um plano para ajudar a revitalizar os casinos de Havana e reanimar a indústria turística do país. Com a contribuição financeira de Bugsy Siegel e de Moe Dalitz, antigo contrabandista de álcool de Cleveland, Lansky comprou quotas no Hotel Nacional e noutros estabelecimentos de jogo. Não havia nada de ilegal no interesse crescente de figuras da máfia em Cuba. Com o apoio do ditador Fulgencio Batista, Lansky e outros gângsteres americanos enriqueceram, mantendo-se fora do alcance de Thomas Dewey e dos agentes da autoridade tributária dos Estados Unidos.

Também estabeleceram um novo padrão para o turismo internacional. Os seus hotéis e casinos eram elegantes, bem geridos e economicamente acessíveis. Havana era acessível por via aérea e marítima, o que a tornava ideal para os turistas chegados de mais longe. Foi por estes padrões que Las Vegas foi mais tarde avaliada.

O início da Segunda Guerra Mundial tolheu, mas não deteve, a ressurgência de Havana. Com a entrada da América no conflito, em 1941, o patriotismo impeliu alguns mafiosos a juntar-se à luta. Moe Dalitz, o sócio de Lansky em Cuba, alistou-se e ascendeu ao posto de segundo-tenente enquanto supervisionava o departamento de lavandaria do exército. Concluída a guerra, Dalitz apoiou-se na sua folha de serviços e restabeleceu-se como o financiador legítimo do Desert Inn Resort and Casino, em Las Vegas.

Para «Lucky» Luciano e outros em Nova Iorque, a participação no esforço de guerra aconteceu por acaso. Em fevereiro de 1942, um vapor de passageiros atracado da doca de Manhattan incendiou-se. A investigação ao incidente foi inconclusiva. Não obstante, a Marinha dos Estados Unidos receou que tivesse sido sabotagem. Para prevenir ataques futuros, os agentes de contrainformação foram autorizados a abordar membros do submundo de Nova Iorque. Meyer Lansky agarrou a oportunidade de ajudar. Antes da guerra, organizava espancamentos de simpatizantes nazis. Agora ofereceu-se como intermediário entre o governo e Luciano. Da sua cela de prisão no norte do estado de Nova Iorque, Lucky aceitou dar assistência aos esforços da Marinha no policiamento da atividade dos estivadores nas docas da cidade. Lansky intermediou acordos semelhantes com outros patrões das famílias de Nova Iorque para o estabelecimento de operações de vigilância em cafés, hotéis e bares locais. Em troca dos seus serviços, alguns agentes do governo ajudavam a cobrar dívidas em nome de Luciano.

«Entregavam o dinheiro que recolhiam e foram sempre honestos nas suas ações», vangloriou-se mais tarde Luciano.

«Acho que foi a primeira vez que a Marinha dos Estados Unidos ajudou diretamente a Máfia.» Luciano obteve uma farta recompensa pela sua assistência. Em 1946, Thomas Dewey, agora governador do estado de Nova Iorque, comutou-lhe a sentença e libertou-o. Os oficiais da marinha que o empregaram durante a guerra mostraram-se defensivos ao falar com a imprensa sobre essa colaboração. «Luciano foi como todos os informadores utilizados pelo nosso trabalho de espionagem», alegou um deles. «Não fez mais do que qualquer bom cidadão americano teria feito.» Apesar de ter sido deportado para Itália pelo governo como estrangeiro indesejável, Luciano não cortou com a sua vida antiga. No início de 1947, circulavam rumores nos jornais de que ele estava em Cuba «a fazer um negócio de narcóticos». No oeste, os repórteres citavam a morte de um «cabecilha mexicano da droga» como indício da «tomada pela Máfia do comércio mexicano de droga».

O assassínio parecia ser a prova definitiva de que Lucky Luciano, tido como patrão «da Máfia», exercia influência além dos Estados Unidos. O submundo americano era uma poderosa força internacional.

As autoridades americanas estavam sem dúvida na origem destas revelações. Contudo, a narrativa alargada que ligava Luciano ao comércio de droga foi quase exclusivamente obra de um homem. Antes da Segunda Guerra Mundial, a estatura de Harry Anslinger no combate ao crime era pequena em comparação com a de J. Edgar Hoover. A sua agência, o Bureau Federal de Narcóticos (FBN), era pequena e recebia muito menos atenção mediática do que o FBI de Hoover. Mas, nos últimos tempos da Proibição, os homens de Anslinger foram encarregados de policiar a venda e o consumo de drogas nos Estados Unidos. Ao contrário de Hoover, Anslinger estendeu a sua luta à Europa, à Ásia e à América Latina. Os arquivos dos seus casos neste período constituem os alicerces de muito do que sabemos sobre o comércio moderno de narcóticos e as suas origens. Foram as suas investigações, juntamente com os seus fiáveis agentes, que apresentaram ao mundo Elie Eliopoulos e os traficantes de entre guerras. O contributo de Anslinger para a aplicação da lei não parou aí. Foi ele, mais do que Al Capone ou qualquer outra figura no século XX, quem definiu a importância da Máfia no nosso tempo.

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