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“Imunidade Psicológica”. Um guia para criar um escudo mental contra as agressões do dia a dia

Vivemos tempos em que as agressões emocionais são uma constante: comentários maldosos nas redes sociais, assédio laboral, críticas motivadas pela inveja ou palavras ofensivas vindas de quem menos esperamos. Como se pode lidar com este desgaste contínuo? “Imunidade Psicológica”, do psiquiatra francês Christophe Massin, apresenta uma abordagem inovadora que convida a pensar a mente como…

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O treino do “não”

O «não» é uma dificuldade central para Cordeiro, é a prova de fogo. A inércia da sua reatividade leva-o a assumir mais trabalho, a acomodar-se bem ou mal, mesmo se isso lhe custa. Deixar de seguir este caminho é algo que lhe pede um esforço importante.

Pela minha experiência, os aspetos técnicos de como dizer «não» têm a sua importância e ajudam a esta aprendizagem, mas é a unificação interior que exerce a influência mais determinante. Na prática, isso significa tomar consciência, em primeiro lugar, das diferentes vozes que ouvimos dentro de nós e que têm discursos opostos. No nosso exemplo, os argumentos que levam a ficar mais tempo no trabalho para entregar o número pedido, o medo de deixar o chefe descontente, a impressão de que a urgência real não é tão grande e o corpo que resiste a fazer um esforço suplementar. Eis uma bela cacofonia em que as vozes chocam entre si e se contradizem!

A primeira armadilha que devemos evitar é querer suprimir uma delas. A unificação não se realiza reprimindo aquilo que incomoda. Cada parte tem a sua razão de ser. É preciso deixar de as opor e de criar argumentos dentro da nossa cabeça. O que devemos fazer é tentar ter um panorama que as inclua a todas e reconhecer a contribuição que estes diferentes pontos de vista trazem para compreendermos a situação. Pode assim emergir um sentimento global mais justo e com mais nuances, permitindo a Cordeiro sentir-se completamente bem com ele próprio e com o seu ambiente, uma vez que não rejeita nada. Sim, cabe-lhe produzir este número, mas também sente a sua própria lassidão e o stress do chefe que lhe pediu isto no último minuto; sente que nada justifica trabalhar mais uma hora agora e, finalmente, não pode evitar desapontá-lo se adiar a tarefa para amanhã.

Admitindo todos estes elementos, ele sente-se mais sólido para apoiar a sua decisão e deixou de ter dúvidas, porque está ancorado nele próprio e na realidade. Outro aspeto crucial é que dizer «não» implica uma dimensão energética. Paradoxalmente, enunciar esta negação é como uma afirmação: «Estou aqui, existo, ninguém faz de mim o que quer.» Quando animava sessões de terapia em grupo, propunha por vezes um exercício em que os participantes eram convidados a dizer «não» em voz alta e no tom que lhes vinha espontaneamente. Ao ouvi-los, notava uma evolução ao longo do exercício: o participante começava por enunciá-lo sem grande convicção e, progressivamente, esta palavra mágica começava a despertar emoções, a suscitar “nãos” muito mais vivos, desesperados, aterrorizados, raivosos ou furiosos.

No entanto, a intensidade emocional anda de mãos dadas com a impotência. Esses “nãos” eram reflexo do sofrimento, e quando sofremos estamos numa posição para que nos seja imposto algo. De facto, há recordações traumáticas da infância ou situações atuais de dor e de frustração que emergem. Levando o exercício mais longe, chegamos a um ponto de viragem em que o “não” muda radicalmente de tom: rebenta de energia, torna-se uma completa afirmação de si que rejeita o comprometimento, a submissão, a escravatura do medo e da dependência. A pessoa recupera o seu direito a existir, independentemente do que possam pensar ou julgar, e não quer mais deixar-se modelar pelas expetativas de outros nem pela sua própria busca de reconhecimento. Cada “não” traz-lhe uma verdadeira volúpia e experimenta um sentimento inédito de liberdade.

Quando entramos em contacto com esta energia, o ato de recusar dispensa argumentos ou volume sonoro. Entramos num registo de determinação tranquila, de certeza face ao que não queremos. É uma ilustração do famoso «não é uma frase completa»! Enquanto essa necessidade de justificação se manifestar, isso traduz que a unificação não é total. Neste círculo vicioso, cada justificação enfraquece. Basta que o outro insista e nos culpabilize para que isso aniquile qualquer tentativa de rebelião. Cordeiro tem todo o interesse em escolher esta fórmula como mantra, retendo qualquer argumentação defensiva! Deve treinar a sobriedade e só fornecer explicações se estas lhe forem pedidas, e a conta-gotas, para não entrar no caminho habitual… Ainda para mais, sabe que assim está a expor as suas falhas e a fornecer ferramentas ao outro para que insista e vença.

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