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“A Casa das Portas”. A estadia de Somerset Maugham em casa de um velho amigo

A realidade e a ficção estão tão mescladas que dificilmente se distinguem uma da outra em “A Casa das Portas”, o terceiro romance de Tan Twan Eng, uma das grandes figuras da atual literatura asiática. Nomeado melhor livro do ano por The New York Times, The New Yorker ou The Washington Post, entre outros, este…

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Willie

Penang, 1921

Somerset Maugham acordou com falta de ar. Uma tosse violenta fez-lhe estremecer o corpo até que, por fim, abençoadamente, acalmou e ele pôde voltar a respirar. Estava deitado na cama dentro do casulo da rede para os mosquitos à espera de que a respiração voltasse à normalidade. Tinha um leve sabor a lama na língua. Engoliu uma vez, molhou os lábios com a língua e o sabor desapareceu. Sentiu que tinha o corpo encharcado ao recostar-se na cabeceira da cama. Estivera a sonhar: uma grande vaga projetara-o do barco para um rio de águas turbulentas; a água lamacenta
descera-lhe pela goela e enchera-lhe os pulmões fazendo-o cair para as profundezas sem luz do sol. Foi então que acordou num estado de frenética e resfolegante apneia.

Depois de abrir a rede, sentou-se na borda da cama, assentando os pés no soalho. Sentia-se mais cansado do que quando se fora deitar. Atirara o travesseiro para o chão com um pontapé e tinha a certeza de que gritara ao acordar; esperava que ninguém tivesse ouvido. Inclinou a cabeça para um lado e escutou: havia apenas o sussurro das ondas na praia.

O quarto estava escassamente mobilado: uma poltrona de junco perto das janelas, uma estante baixa carregada de velhos e amarelados romances, uma cómoda de carvalho encostada a uma parede e, num canto, um lavatório com uma bacia de porcelana. Ocupando metade de uma parede havia um almeirah de teca, em cima do qual estavam os seus sacos e malas.
Tocou na fotografia emoldurada da mãe que estava na mesinha de cabeceira, fazendo um pequeno ajuste na posição, de modo que o rosto dela ficasse mais virado para as janelas. Recordava-se de a mãe ter sempre uma expressão pesarosa nos olhos castanhos. Naquela manhã, pareciam ainda mais melancólicos do que habitualmente.

Levantou o travesseiro do chão e voltou a pô-lo em cima da cama antes de atravessar o quarto de pés descalços. Abriu as portadas das janelas e inclinou-se para fora. O mundo ainda estava recoberto por uma camada de tinta cinzenta, mas nas extremidades do céu infiltrava-se já um brilho pálido. Situado num canto do primeiro andar da casa, o quarto tinha largas vistas para o jardim que ficava abaixo. À esquerda, a mais ou menos dez metros, uma cerca de madeira baixa encerrava a parte final do jardim, separando a propriedade da praia. Perto da cerca havia uma alta casuarina, com um banco de jardim de ferro forjado por baixo. Lançando um olhar à praia, descobriu a figura de Lesley Hamlyn. Estava na linha de água, a olhar para o mar. Pouco depois deu meia-volta e começou a voltar para casa. Passou pelo portão de madeira e atravessou o relvado até desaparecer por baixo do telhado do alpendre sem levantar os olhos para ele. O criado ainda haveria de trazer a Willie o jarro de água quente para fazer a barba, mas ele enxaguou a cara na bacia e tirou um conjunto de roupa lavada do guarda-roupa — uma camisa branca de mangas compridas, um par de calças caqui e um casaco de linho de cor creme, engomado pelo dhobi na noite anterior quando estavam a jantar. Encontrou os sapatos, engraxados na perfeição, no lado de fora da porta do quarto. Os quartos dos Hamlyn ficavam no lado oposto do patamar e tinham as portas fechadas.

A meio do patamar havia uma zona de estar que se projetava para formar a parte de cima do alpendre, com as janelas que havia nos três lados a dar para o relvado da frente e o caminho de entrada em arco. Do outro lado deste espaço quadrado, havia mais quatro quartos. Deste lado do patamar estava a casa de banho dos hóspedes e, contíguo a ela, o quarto de Gerald. Os sapatos de couro de Gerald também haviam sido engraxados e colocados junto à porta do quarto. Willie avançou ao longo do patamar para as escadas, parando de vez em quando para observar a fileira de aguarelas penduradas na parede. Eram imagens de lojas locais, com as finas linhas negras — arquitetónicas na sua precisão — a pormenorizar o requintado trabalho em gesso das frontarias. A meticulosidade dos desenhos era animada pelas pinceladas de cores vívidas que capturavam habilmente a atmosfera dos fervilhantes e cacofónicos bairros asiáticos das cidades dos Estabelecimentos do Estreito2. Cada uma das aguarelas tinha um título no canto inferior direito — Moulmein Road, Bangkok Lane, Ah Quee Street, Rope Walk — e todas elas, como Willie descobriu quando esquadrinhou a assinatura, eram da autoria de Lesley Hamlyn.

No rés do chão, atravessou a casa arejada e cheia de luz até chegar ao alpendre das traseiras, cumprimentando com um aceno de cabeça os criados por que passava nos corredores. Robert e Lesley já se encontravam sentados à mesa do pequeno-almoço, resguardados um do outro pelos jornais que liam. Willie estudou-os da porta. Lembrava-se de que Robert era um homem bonito, alto e de ombros largos, de modo que ficara consternado ao ver a figura curvada que, apoiando-se numa bengala com cana de malaca e cabo dourado, o esperava a respirar pesadamente no pórtico da casa, na tarde do dia anterior: a espessa cabeleira de Robert desaparecera, sendo agora a cúpula da cabeça uma basílica depilada que apenas exibia uma rala franja de cabelo encanecido acima das orelhas. Também não reconhecera a voz do velho amigo — o magnífico barítono que costumava invejar reduzira-se a um tom lamuriento e fissurado.

O doberman que estava deitado aos pés de Robert ergueu a cabeça para ladrar à aproximação de Willie da mesa. Marido e mulher baixaram os jornais.

— Não sejas mal-educado, Claudius — disse Robert inclinando-se para acariciar as orelhas do cão. — Bom dia, Willie. Acordaste cedo. Dormiste bem?

— Como um… bebé — balbuciou Willie.

— Serve-te, Willie — disse Robert apontando com o queixo para o aparador. Willie abriu as tampas das caçarolas que conservam a comida quente. Arenque fumado, bacon, salsichas, ovos e tostas, como esperava. Havia igualmente travessas de queijos e taças de fruta local — bananas, mangas e carambolas. Encheu apenas meio prato e sentou-se à mesa.

— Não te encolhas, Willie — disse Robert.

— Ainda não fui capaz — o maxilar de Willie projetou-se, tentando forçar a saída das palavras seguintes — de me habituar ao apetite falstaffiano que têm aqui — disse, acabando por superar o bloqueio da garganta que levava as pessoas a olhá-lo com pena e impaciência. — Os montes de comida a… todas as refeições… com este… calor… — Virou-se para Lesley. — Vi-te… na… praia.

— É o meu passeio matinal — respondeu ela. — O teu secretário, o Gerald, já se levantou?

O arrastamento nas palavras era delicado, mas Willie percebeu-o.

— Não é daqueles… que acordam cedo. Espero que isso não cause nenhum incómodo — respondeu mantendo o olhar fixo no dela.

— Não sejas pateta, Willie — interveio Robert, acrescentando para Lesley: — Querida, diz, por favor, ao cozinheiro para lhe guardar alguma coisa todas as manhãs.

Robert cortou uma fatia de camembert e deu-a ao doberman. O cão engoliu-a de uma assentada e lambeu os beiços.
— O Claudius adora queijo.

Robert esboçou um sorriso enquanto dava outra fatia ao cão. Willie notou que os lábios de Lesley se haviam transformado numa linha fina e tensa.

— Tens uma visita.

Apontou para um lagarto-monitor que saía do fundo da cerca de hibiscos. O animal tinha cerca de um metro de comprimento, com a cauda grossa a atingir quase o tamanho do corpo. Atravessou o relvado com uma graça pesada e musculosa enquanto punha a língua para fora e para dentro. Os pardais que depenicavam na relva levantaram voo.
— Oh, é apenas o Monty — disse Robert. — Apareceu há já alguns anos. Vai beber um gole à piscina dos Warburton aqui ao lado. Então o que é que temos para hoje, velho amigo? A Lesley adorará mostrar-te as vistas.

Lesley interveio antes de ele poder responder.

— Hoje tenho de estar no bazar da igreja com as outras senhoras e depois vou à cidade fazer umas coisas.

— Sendo assim, fica para outro dia — disse Robert. — Aqui a rapariga é uma especialista na história da ilha, Willie. Sabe tudo sobre a região. Costumava organizar excursões na cidade para os nossos amigos de fora. Andámos a mostrar isto àquele escritor alemão quando ele esteve em Penang… Querida, como é que ele se chamava? Hesse, não era? Sim. Hermann Hesse.

— O que eu… quero é uns dias calmos e descansados… na praia — disse Willie. — Tenho montes… de livros para ler e o Gerald ainda não recuperou totalmente. Precisa de descanso, de muito… descanso.

— O pobre rapaz parecia ter um ar bastante doente ontem à noite. — Robert espreitou para Willie por cima dos óculos.

— E tu também, se me permites que te diga.

— As últimas semanas têm sido bastante… exigentes.

O Hermann Hesse esteve em Penang?

— Há onze ou doze anos. Nunca li nada dele. E tu?

— Um par de livros. Robert, se já leste o jornal…

Robert passou-lhe o Straits Times e continuaram a tomar o pequeno-almoço num silêncio confortável. Lesley pediu desculpa e entrou em casa quando Robert partiu para o escritório que tinha na cidade. Willie permaneceu à mesa a beber devagar uma chávena de chá. Um rangido fê-lo olhar para o outro lado da balaustrada.

Um tâmil encanecido, de camisola sem mangas e calções caqui, aparecera na esquina da casa empurrando um carrinho de mão. Parou na borda do relvado e pegou numa foice que escolheu entre o monte de utensílios que havia no carrinho. Acocorando-se, começou a executar um lânguido movimento semicircular com a foice, de modo que a lâmina fazia saltar tufos de relva quando tocava ao de leve no relvado.

De regresso ao quarto, Willie parou diante da porta de Gerald e encostou o ouvido. Não conseguiu ouvir nada.
— Gerald — chamou em voz baixa.

Não obteve qualquer resposta, nem sequer o mais leve roçagar. Não tem nada de surpreendente, pensou Willie, tendo em consideração a quantidade de bebidas que ele esvaziara na noite anterior. Recolheu o diário e voltou para o rés do chão. Os criados já tinham levantado a mesa do pequeno-almoço. Caminhando pelo relvado, decidiu seguir a vereda de gravilha para explorar o jardim. O caminho serpenteante dava a impressão de os terrenos serem mais extensos do que realmente eram, uma ilusão ampliada pelas impressionantes árvores altas: uma figueira mantida no seu lugar pelos calços triangulares das raízes; árvores de noz-moscada com frutos, resquícios das plantações de especiarias que Robert lhe dissera cobrirem aquele lado da ilha no passado; um par de arecas, cujo nome em malaio, pinang, como se lembrava de ter lido algures, a ilha adotara. E ali estava o saboeiro de que Robert se gabara na noite anterior.

— Tem trezentos anos, Willie. É uma das árvores mais antigas da ilha. O tronco é tão largo que são precisos três homens com os braços totalmente esticados para o abraçar. O Walter, que é o supervisor do Jardim Botânico, traz cá muitas vezes pessoas para o ver.

Willie encostou a mão à casca dura e crocodiliana. Imaginou as grandes raízes da árvore profundamente cravadas no solo, para manter o colosso ereto. O tronco atingia uma altura de quase vinte metros, espalhando-se numa intricada filigrana de ramos e folhas que traziam à mente de Willie a rede de bronquíolos e alvéolos dos pulmões.

Retomou o passeio, fazendo um aceno de cabeça para o criado que estava a lavar o Humber à frente da garagem. Por trás da garagem, havia um campo de ténis que tinha as gastas linhas brancas interrompidas aqui e ali por montes de folhas mortas e poças de chuva. Um corvo, pousado num poste enferrujado da rede, virava a cabeça para a esquerda e para a direita como se estivesse a arbitrar um jogo. Willie regressou ao banco que havia por baixo da casuarina.

A área ao redor da árvore estava coberta de ramos e pequenas sementes espinhosas. Puxou para si um dos ramos mais baixos e examinou-o, passando o polegar pelos compridos galhos verde-acinzentados e as pelas folhas coriáceas.

O kebun pousou a foice e aproximou-se rapidamente de Willie, agarrou no trapo atirado para um ombro nodoso e, com um vigoroso gesto de esforço, limpou o orvalho que humedecia o banco. Quando acabou a limpeza, Willie ofereceu-lhe um cigarro. O homem endereçou-lhe um sorriso vampírico. Willie sorriu interiormente: mesmo depois de tantos meses a viajar pelos Estados Federados da Malásia, a visão de dentes tingidos de vermelho-sangue pelo sumo de noz de bétele ainda lhe causava náuseas. Sentou-se no banco, abriu o diário numa página nova, tirou a tampa da caneta de tinta permanente e escreveu a data no canto superior direito: 2 de março de 1921. Bateu com a caneta nos dentes e depois acrescentou com a sua letra elegante: «Chegada a Cassowary House ontem à tarde. Ainda fraco, mas sinto muitas melhoras hoje.» Passou o olhar de escritor pela casa. As janelas de Gerald estavam abertas e a brisa fazia mexer os cortinados. Pensou durante um momento.

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