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“Tremendo sucesso”

Este artigo tem mais de 7 anos

A opinião de

Dois noticiários que vi hoje e duas notícias de abertura entregues de forma semelhante: ambas revelaram a “significativa perda de poder de Donald Trump” após as eleições intercalares de ontem. Nos dois casos, os pivots de informação não conseguiram esconder alguma satisfação na transmissão desta informação, como se a actual presidência americana tivesse os dias…

É verdade que o Partido Democrata reconquistou a Câmara dos Representantes, e isso introduz uma novidade legislativa gigantesca. Trump passa a precisar de negociar com a oposição todas as medidas que quiser impor. O cenário afigura-se castrante e contrastante relativamente ao que vinha a acontecer nos últimos quase dois anos. É por demais expectável que os Democratas accionem muitos travões no futuro, e que queiram ainda rever aqueles que até agora foram os dossiers mais controversos desta presidência.

Também é verdade que, ao perder o domínio sobre comissões parlamentares, Donald Trump arrisca-se a ser enfrentado nas grandes polémicas que o têm ensombrado. Por muito improvável que seja, ou por muito esfumado que esteja, o certo é que o fantasma da destituição ganha corpo. Não só as várias suspeitas sobre Trump podem ser escarafunchadas com mais pujança, agora a oposição tem os votos necessários para acender os rastilhos da exoneração. Duvido que tal processo destitutivo esteja para breve, mas lá que isto é um ceptro poderosíssimo para os democratas, é.

Então, se eu não sou um apreciador do senhor Trump, porque é que me está a falhar o optimismo? Porque o tweet do presidente a anunciar que os resultados das intercalares tinham sido um “tremendo sucesso” é dos menos iludidos que ele já escreveu. Perder a Câmara dos Representantes é uma chatice, mas se as intercalares servem para medir o pulso político aos E.U.A., então eu vou ter de concordar com o Donald do Twitter.

Primeiro, e mais óbvio, há que notar a vitória do Partido Republicano no Senado. Com esta vantagem na Câmara Alta, Trump vai continuar a nomear quem quiser para os cargos da administração. Não é, contudo, aqui que eu dou razão à satisfação do presidente na sua rede social de eleição. Apesar do forte equilíbrio bipartidário que estas intercalares preconizam, e apesar de algum enfraquecimento na margem de manobra de Donald Trump, a verdade é que o resultado presente não sopra para longe as nuvens do futuro. Olhando para o céu, a minha previsão meteorológica continua a ter 5 letras e 4 algarismos. Nas nuvens leio “Trump 2020”.

A adesão às urnas foi considerável e favoreceu ambos os partidos. Apesar disso, tenho a suspeita de que os detractores da actual presidência estavam mais motivados (e, consequentemente, mobilizados) do que os defensores –  é uma suspeita que carece de dados, por isso dou a mão à palmatória e espero que me corrijam. A minha cisma tem que ver com as características das eleições intercalares: estas são, à partida, as que menos estimulam aquele eleitorado que fez a reviravolta em 2016. As intercalares afiguram-se mais políticas, ou seja, espicaçam menos o lado pessoal, práctico e icónico que inflamou as presidenciais. Parte dos factores mobilizadores que surpreenderam e deram a reviravolta há 2 anos, aqui atenua-se. Então é crível pensar que o equilíbrio notado nestas intercalares pode voltar a vergar-se para o lado trumpiano em 2020.

Para além disso, no campeonato das pequenas batalhas dentro desta eleição, é provável que o Partido Republicano leve vantagem. O grande feito Democrata passa pela eleição inaudita de candidatos pertencentes a minorias, sejam elas étnicas, seja pela orientação sexual  – mas, até aqui, não se pode clamar tal feito como uma vitória em confronto directo com os Republicanos, caso contrário correr-se-ia o risco de instrumentalização das características dos candidatos, ou de amesquinhar a eleição até à fórmula “pretos vs brancos”, ou “gays vs héteros”.

Assim sendo, temos mesmo que admitir que as batalhas mais estimulantes foram provavelmente as vencidas pelo partido de Trump, e pelo próprio Trump. Por exemplo no Texas, Ted Cruz derrotou a rock-star democrata, a sensação de nome curioso: Beto O’Rourke. Noutra estirpe de confrontos, todos os Democratas dos chamados swing states (estados onde o equilíbrio bipartidário é grande) que se opuseram à nomeação do juiz Kavanaugh foram derrotados no Senado.

Na campanha, o presidente foi meticuloso e revelou contenção ajuizada (acreditem, estou mesmo a falar de Donald Trump) nas deslocações que escolheu fazer, e essa preservação fortaleceu-o, já que as visitas selectas transformaram-se em vitórias eleitorais para o seu partido. Mais: os candidatos Republicanos que não apoiam o presidente foram, de uma forma geral, trucidados nas urnas. Então, quando falo em pequenas batalhas estimulantes, a vitória de Trump não é exclusivamente contra o partido adversário; há justas internas de onde o presidente sai reforçado de forma inequívoca.

Do lado Democrata, Nancy Pelosi foi a voz e o rosto do suposto sucesso eleitoral. Pelosi tem também a voz e a cara de muitas vozes e de muitas caras que associamos àquele partido. Reside nela um lado de continuidade e de identidade, duma facção que não se renovou. Não acho errado mantermos aquilo que nos parece decoroso, mas o decoro está apequenado numa América que, desde 2016, se marimba para etiquetas. Continuidade, num mundo que tanto mudou, já parece displicência. Falta um campeão Democrata. Falta um São Jorge à altura do dragão alaranjado. Temo que “tremendo sucesso” seja o rascunho de 2018 para um tweet trumpiano de 2020.

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