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Será Javier Milei o banqueiro anarquista que vai salvar a Argentina?

Este artigo tem mais de 1 ano

A opinião de

Desesperados com décadas de soluções políticas e económicas falhadas, os argentinos resolveram dar luz verde a uma reviravolta em dezembro de 2023, elegendo um presidente que prometia destruir tudo para construir um modelo melhor.

Javier Milei, com 54 anos, teve uma carreira anódina como economista até ser eleito para o Parlamento. em 2021, com a popularidade obtida em debates na televisão. Os seus comentários tinham uma retórica muito agressiva contra o que considerava ser a “casta corrupta” – políticos, sindicatos, académicos e jornalistas.

Alem da verborreia violenta, distinguia-se pela sua aparência. O cabelo desgranhado, tipo Boris Johnson, mas escuro como Carles Puigdemont, grandes patilhas, rosto quadrado e a expressão de Malcolm McDowell no filme “Laranja Mecânica”, ao mesmo tempo diabólica e divertida. Chamam-no “Enlouquecido” e “Gadelhudo”. Segundo um deputado do seu partido, Milei é o cruzamento de Elvis Presley com Wolverine.

Milei etiqueta-se a si próprio como “capitalista anarquista” e é impossível localizar as suas decisões na dicotomia tradicional de esquerda e de direita. (Vem a propósito o conto de Fernando Pessoa de 1922, “O Banqueiro Anarquista”) onde fui buscar o título para este artigo.) Tem confraternizado com os políticos internacionais de direita, ou mesmo extrema-direita, como Trump, Orbán e Bolsonaro. É apoiante do Vox espanhol e do AfD alemão. Contudo, neste primeiro ano tem governado dentro das normas democráticas da Constituição e não se meteu nos golpes típicos dos outros governantes autocráticos, como impor-se ao poder judicial ou calar a imprensa.

O programa económico é capitalista, seguindo a escola ultra-liberal de Friedrich Hayek, mas é na área social/cultural que Milei tem feito as afirmações mais estravagantes: é contra o aborto, inclusive em casos de violação, contra a inclusão e a educação sexual nas escolas, permite a venda livre de armas à população civil, é a favor do comércio de órgãos e nega o aquecimento global. Segue as mesmas teorias da conspiração das extremas direitas contra o “marxismo cultural”.

Quando ganhou as eleições presidenciais, com uma campanha frenética em que empunhava uma moto-serra (para cortar os excessos do aparelho de Estado) os argentinos estavam desesperados: a inflação andava nos 200% ao ano e 40% da população vivia abaixo do nível de pobreza.

Uma frase da campanha dá bem a ideia do seu estilo: “O Estado é como um pedófilo numa creche, com as crianças acorrentadas e untadas com vaselina.”

Entrincheirou-se na Casa Rosada, com as janelas sempre cobertas por cortinados espessos, porque trabalha dia e noite. Fora as necessidades do cargo, sai uma vez por semana para passear os “filhos de quatro patas”, quatro mastins chamados Murrey (de Murrey Rothbard), Milton (de Milton Friedman) Robert e Lucas (de Robert Lucas ) Foram todos clonados nos Estados Unidos a partir do original, Conan (de Conan, o Bárbaro) que morreu em 2017. Mas, para Milei, Conan ainda está vivo algures e comunica-se com ele por telepatia.

A economia argentina sempre esteve dependente da agricultura e da pecuária, setores sujeitos a grandes flutuações. O seu desenvolvimento ficou em suspenso durante os vários governos militares, incluindo o período entre 1976 e 1983 em que esquadrões da morte foram responsáveis pela tortura e morte de milhares de esquerdistas.

Contudo, Milei considera que as principais causas do estado insolvente do país são a governação incompetente e corrupta e as políticas “comunizantes” do peronismo, um movimento populista que ainda tem força 50 anos depois da deposição de Peron.

Com toda esta conversa de anarquia, Milei tem governado o menos anarquicamente possível. Eliminou dez ministérios (de 18 para oito) e cortou as verbas dos serviços públicos, mandou parar todas as empreitadas de infraestrutura, parou as transferências para os governos das províncias, e recusou aumentos das pensões (contra a vontade do Parlamento) e dos salários. Se, por um lado, tem “secado” os custos do aparelho de Estado, por outro lado também tem imposto uma dieta monetária à população. Ao fim de um ano, os resultados são visíveis: redução de 30% nas despesas públicas e a inflação mensal passou de 13% para 3%.

Na esfera internacional, Milei também tem sido pouco ortodoxo. Encontrou-se com Trump, um ídolo, e com Xi Jinping, um ódio antigo – mas conseguiu estabelecer boas relações comerciais com Pequim. Até com Lula, que antigamente considerava um “comunista corrupto”, está disposto a fazer negócio.

O facto é que, ao fim de um ano de governação surreal, Milei parece bem encaminhado para tirar a Argentina da falência das últimas décadas. O câmbio com o dólar estabilizou e a dívida externa colossal (28 mil milhões de dólares) parou de crescer.

O próximo ano será decisivo para ver se todas as contradições e excentricidades de Milei funcionam. Talvez o capitalismo anarquista passe a ser uma teoria económica válida!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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