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Ode ao Rio

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O medo e a cólera são um binómio conhecido de emoções: o medo muitas vezes transforma-se em cólera. Medo de quê em Rui Rio? Essencialmente, da sua capacidade de causar roturas, provinda de uma certa solidão decisória.

Ode ao Rio foi um canto de louvor ao Rio de Janeiro escrito por Vitorino Nemésio, corria o ano de 1965, tendo como leitmotiv a retratação da bela cidade do Rio de Janeiro nos idos anos 60. Repare-se que Ode é uma composição poética estruturalista e solene. O que é que isto tem a ver com Rui Rio? Tudo. Rui Rio é, essencialmente, um político estruturalista e solene. Preliminarmente, dir-se-ia ainda, que esta é a razão principal, pela qual, declaramos o nosso apoio inequívoco a Rui Rio na disputa das próximas eleições legislativas de 30 de janeiro. No entanto, Ode ao Rio, nesta versão que vos trago, não é uma expressão escrita louvaminhas do político em questão.

Senão vejamos, muitos enjeitaram, durante muito tempo, a possibilidade de Rui Rio ser Primeiro-Ministro de Portugal. Uns, eivados de uma certa postura altaneira, brandiam a espada de Tanatos sobre a sua credibilidade pública; outros, mais sonsos, aduziam o argumento de que o personagem comprava guerras espúrias, fosse com a cultura, fosse com o futebol – tornando-o, como cantava o saudoso Carlos do Carmo na Bela Sonata de Outono, num “cão sem dono”. Uns e outros, não disfarçavam a aleivosia com que mimoseavam os espetadores das “fontes oficiais de informação” com tais alocuções jornalísticas.

Fizeram-se considerações sobre a sua geografia; sobre uma pretensa jactância, nunca explicando os seus fundamentos; sobre a falta de cosmopolitismo, em suma, sugerindo tacanhez política por parte do visado. Tanto mais que, embalados pelas sucessivas guerras internas do PSD, que na era de Rio é a sigla de Paciente Supera a Deslealdade, intensificaram o ataque cerrado e vaticinaram-lhe a morte política nas últimas eleições internas, pensando que “era desta” que o Homem caía. Não caiu! Interessa, pois, para lá desta plêiade tão obscura quanto ruidosa, perscrutar quais as razões que motiva[r]am o fragor contra Rui Rio.

Em primeiro lugar, o medo e a cólera são um binómio conhecido de emoções: o medo muitas vezes transforma-se em cólera. Medo de quê em Rui Rio? Essencialmente, da sua capacidade de causar roturas, provinda de uma certa solidão decisória. Para quem propõe a manutenção de um ambiente político imobilista, pouco ambicioso e que gorou expectativas legítimas dos portugueses, o desejo de fazer roturas é suscetível de gerar uma compreensível emoção violenta na nomenklatura. O imobilismo, em rigor, é-lhes auspicioso. A mesma nomenklatura que não tem o número de telefone pessoal de Rui Rio e isso causa-lhes erisipela.

A reforma da Justiça; a reforma da Segurança Social; a otimização do Serviço Nacional de Saúde; a dinamização da Função Pública e do Setor Empresarial do Estado e por aí adiante. São demasiadas reformas, os socialistas não aguentam tanta transformação material. Rui Rio é o canário na mina, “o Regime está doente” (DN, 12 de abril de 2021) proclamou o candidato a Primeiro-Ministro e o politburo mediático esbracejou, mais uma vez, sobre o Homem.

Em segundo lugar, hoje em dia, não se admite a invocação da Ética na política – soa a sedição -, Ética essa emprestada ao respeito pelo erário público. Tal facto, torna-nos, o mais das vezes, complacentes com um manancial de ex-políticos que se desapossaram de quaisquer princípios no exercício das suas funções. Estes últimos, abominam a Ética política e sobretudo quem procura afirmar-se na política pela sua dimensão moral. Não perdoam. Acham pacóvio, no âmago mais profundo da sua intolerância.

Por último, nada disto interessa, pois que o caminho tortuoso de Rui Rio deverá motivar um discurso aspiracional do mesmo sobre o País e sobretudo dirigindo-o para a juventude portuguesa. Fale-se mais de mobilidade social, de desenvolvimento económico, de prosperidade, de condições para os mais jovens constituírem a sua família, de soberania e independência nacionais, de felicidade, de harmonia, de saúde física e mental, de bem-estar e de anos tranquilos para os mais velhos.

Enquanto continuam a tentar defenestrar a empatia política da sociedade portuguesa para com Rui Rio, e lhe atribuem o mau jeito para ler a pauta, servimo-nos das rendosas palavras de Jaime Nogueira Pinto na homenagem ao comunista Ruben de Carvalho (Expresso, 11 de junho de 2019) com alacridade, “Espero que o Maestro da minha Filarmónica lhe tenha já distribuído a partitura”, permitindo-nos acrescentar, e que este a ponha em prática já no dia 31 de janeiro, qual Shostakovich a reger a décima sinfonia.

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