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Nenhum violador pode ser agente da polícia

A opinião de

Sem incorrer no erro de generalizar, não podemos deixar de refletir sobre os polícias que violam pessoas em situação de vulnerabilidade. Estes casos semeiam na memória coletiva uma dúvida corrosiva para as vítimas que denunciam: e se o agente que me ouvir for como aquele?

O título deste texto parece óbvio, quase redundante, mas casos como «PSP sodomiza sem-abrigo com bastão. Colegas filmam a cena e riem-se» mostram que, na realidade, as vítimas podem temer as autoridades, e com razão. Quando um agente da PSP viola uma pessoa em situação de extrema vulnerabilidade, e quando colegas assistem, filmam e riem, estamos perante a incompatibilidade destes integrarem a instituição responsável por proteger a comunidade, tal como o Tribunal da Relação de Lisboa imputa os agentes de se «distanciaram, em muito, do que são os seus deveres e atribuição».

Impacto na vítimas

Este caso tem várias nuances e ângulos que merecem reflexão. Da minha parte, detenho-me no impacto sobre as vítimas de violência sexual. Uma pessoa que tenha sofrido violência sexual — seja quem for, mas sobretudo alguém socialmente fragilizado — precisa de garantias de que, ao procurar ajuda, não será exposta a novos perigos. Denunciar é um ato de coragem e um risco real; por isso mesmo, deve ser recebido com segurança e respeito. Mas como pode uma vítima sentir-se protegida quando sabe que há agentes capazes de cometer exatamente o crime que deveriam combater? Que alguns não só violam, como acham graça e filmam a humilhação alheia?

Este cenário não afasta apenas quem já sofreu violência sexual; afasta também, potencialmente, futuras vítimas. Sem incorrer no erro de generalizar — não é disso que se trata — é impossível ignorar o impacto devastador destes casos. Cada notícia de abuso sexual cometido por agentes policiais grava na memória coletiva uma dúvida corrosiva: e se o agente que me ouvir for como aquele que violou? Se as vítimas não estão seguras em casa e nos espaços públicos, não podemos permitir que também deixem de se sentir seguras junto das autoridades.

Que futuro?

O problema ultrapassa, naturalmente, a confiança na polícia: atinge o próprio direito das vítimas a serem ouvidas, respeitadas e protegidas. Para que alguém se sinta minimamente seguro ao relatar uma violação, tem de saber que encontrará profissionais íntegros, preparados e emocionalmente capazes de acolher o sofrimento humano — não indivíduos que desumanizam e torturam.

Este caso é também uma oportunidade de aprendizagem e um apelo urgente à mudança. Precisamos de entidades que reforcem o seu compromisso para que não haja lugar para quem viola, humilha e abusa do poder instituído. Precisamos de um corpo policial que recorra a agentes especializados, com formação rigorosa em direitos humanos, violência sexual e intervenção com pessoas em situação de vulnerabilidade. E precisamos de mecanismos independentes, transparentes e eficazes para investigar, afastar e punir quem desonra a função pública e ameaça a segurança da população.

Só assim as vítimas poderão pensar: posso pedir ajuda; estou protegida; estas pessoas não são como os abusadores; existem para me defender.

Ângelo Fernandes é o fundador da Quebrar o Silêncio — a primeira associação portuguesa de apoio especializado para homens e rapazes vítimas de violência sexual — e autor de “De Que Falamos Quando Falamos de Violência Sexual Contra Crianças?”, um livro sobre prevenção do abuso sexual de crianças, e do romance “Neblina”.

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