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O país, considerado por alguns historiadores a mais antiga democracia da América Latina – depende da definição de “democracia” – sempre teve duas classes bem demarcadas, os ricos e os pobres, conforme retratado magnificamente em “Cem anos de solidão”, de Gábriel Garcia Márquez.
Os ricos é que governam, evidentemente, mas a partir da década de 1960 duas forças de outro calibre entraram na equação: os traficantes de cocaína – o famoso cartel de Medelin, chefiado por Pablo Escobar – e as guerrilhas marxistas, as FARC.
O tráfico financiava quem estivesse no poder e também as FARC, de inspiração cubana e mais tarde também ligadas a Chávez, na Venezuela.
Os revoltosos tinham a guerrilha implantada no mato e influenciavam decisões políticas até a nível mundial, pois a Colômbia era o maior produtor. Nas cidades mandava o cartel, que não se interessava por política propriamente dita mas queria garantir a sua sobrevivência em qualquer regime.
Em 1918, o presidente Juan Manuel Santos, conseguiu um acordo com as FARC, basicamente reconhecendo-as como um partido de facto, com direito a presença no Parlamento, a troco de os deixar operar nos campos de cocaína. Na altura, Santos foi considerado uma espécie de santo por ter parado um movimento que tinha começado em 1964, na linha do marxismo-leninismo clássico, e ganhou o Prémio Nobel em 2016.
O que aconteceu de facto foi que o acordo só existiu no papel. Embora muitos guerrilheiros se tivessem entregado e a ONU tenha mandado uma delegação à Colômbia para receber o seu armamento, a situação de poder tripartido – Estado/guerrilhas/tráfico – continuou, só que em moldes mais pacíficos.
O Presidente Gustavo Petro, eleito em 20222, tinha sido membro das FARC, o que já diz muito sobre o acordo entre a classe dominante e os dissidentes. Como seria de prever, a morte de Escobar, não acabou com o tráfico, apenas foi dividido entre vários sucessores, sempre no mesmo arranjo – afinal de contas, a cocaína é de longe a maior fonte de receitas da Colômbia e a Colômbia é a maior produtora do mundo. Fora esse produto natural, exporta também óleo e gás, mas esses estão nas mãos dos norte-americanos.
Ora, estão previstas eleições presidências para Maio de 2026. O candidato do Centro Democrático, era o Senador Miguel Uribe Turbay. Num comício, a 7 de Junho deste ano, foi baleado por um jovem de 14 anos – a idade típica para um colombiano pobre começar a sua vida de guerrilheiro, ou traficante, ou as duas situações ao mesmo tempo. Preso e interrogado, nenhuma informação útil se obteve. A mãe já morreu, o pai emigrou e vivia com uma tia. Há dias, a 11 de Agosto, Turbay faleceu no hospital.
Em 11 de Maio, nove soldados e dois oficiais do Exército regular foram assassinados numa emboscada dos “Comandos da Fronteira”, um dos muitos grupos que saiu das FARC e continua a controlar o tráfico da cocaína em nome da “Revolução Bolivariana”, a tal ideologia que Chavez (da Venezuela) defendia e que é um populismo que pretende ser comunista, mas resulta numa oligarquia no poder a distribuir comida pelos pobres.
Os grupos pós-FARC estão espalhados pelos países vizinhos, especialmente Equador e Venezuela. Neste último país não existem nem oficiosamente, porque estão nas Forças Armadas e tudo é possível dentro do rótulo do Bolivarianismo.
Um estudo feito pelo Departamento de Drogas e Crime das Nações Unidas calcula que a “produção potencial de cocaína” na Colômbia aumentou 53% de 2022 para 2023. Também verificou que o número de hectares plantados no raio de 12km dum centro populacional cresceu de 37.000 em 2013 para 189.000 em 2022 e 209.000 em 2023.
Quanto mais perto das aldeias, mais elas se tornam dependentes dos recursos gerados pelas actividades ilegais. Ao mesmo tempo a capacidade dos grupos ilegais de aceder a bens e serviços são incentivos para expandir essas actividades nessas áreas.
Portanto, este assassinato, que foi por assim dizer a única razão pela qual a Colômbia chegou aos noticiários internacionais, é apenas um passo na criação de um narco-estado.
A proibição da produção e consumo de álcool nos Estados Unidos, entre 1920 e 1933, resultou num crescimento exponencial dos grupos de gangsters e não tornou as pessoas abstémias; antes pelo contrário, era chique beber às escondidas, às vezes em casas clandestinas luxuosas, e formaram-se grupos mafiosos em todas as grandes cidades.
Quase cem anos depois, parece que a lição não foi aprendida – ou talvez haja quem percebeu que a descriminalização do que é proibido seja a melhor ferramenta para acabar com os lucros de quem transaciona o “produto”.
Talvez um dia…

