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Já vimos um filme parecido com este

Este artigo tem mais de 9 anos

A opinião de

A cada dia que passa a Europa torna-se um local mais instável. Em caso de tempestade, a debilidade da nossa economia, das nossas finanças e dos nossos bancos fará de Portugal uma das primeiras vítimas. Tudo isto recomendaria um reforço da cautela, das margens de segurança e de “dinheiro nos cofres” para eventualidades. Mas vamos…

Sabem aquela sensação de “déjà vu”? Tudo isto não vos faz lembrar nada? Já vimos um filme com um desenvolvimento de enredo muito semelhante a este.

Os alertas cada vez mais frequentes e mais ruidosos vindos de fora. São analistas de bancos internacionais, agências de rating, instituições internacionais como a Comissão Europeia ou o FMI e alguns responsáveis europeus. Uns alertam para os riscos de aumento da dívida pública, tornando-a ainda mais insustentável. Outros falam da necessidade de tomar medidas para que o défice orçamental deste ano se cumpra. Todos apontam o optimismo do cenário macroeconómico em que tudo isto está assente.

Bastou que um deles tenha sido Wolfgang Schauble, o ministro das Finanças alemão que adoramos odiar, para que a atenção se fixasse no mensageiro e nas suas maquiavélicas intenções e não na mensagem. E esta devia fazer-nos parar para pensar e verificar contas.

Já vimos um filme parecido com este, onde o optimismo e a confiança do governo destoava cada vez mais do que estava à volta. Diz-se que a contas estão certas, que não são necessárias mais medidas, que está tudo a correr conforme previsto.

Também já vimos no passado que o primeiro-ministro fica cada vez mais isolado nesse papel. O próprio ministro das Finanças fez o alerta, em entrevista ao Público, para a necessidade de corrigir previsões macroeconómicas para este ano. Mas António Costa apressou-se a dizer que “os dados estão lançados e dão contas certas”. Não se sabe quem fez estas contas, se haverá um ministro-sombra das Finanças no próprio Governo que saiba o que mais ninguém parece saber. O que parece evidente é que a uma degradação do cenário económico costuma corresponder uma necessidade de revisão das contas públicas.

Outro dado que não é novo é o recurso a imprevistos externos para justificar derrapagens internas. Como se dentro de casa estivessemos a fazer tudo com segurança, consistência e executando um plano com poucos riscos. Nesta matéria, o Brexit ameaça ser o novo “o mundo mudou”. Servirá para justificar tudo e mais alguma coisa.

Já vimos um filme parecido com este, onde a cada mês os dados da execução orçamental são festejados e apresentados como prova inequívoca e definitiva de que tudo está no trilho certo. Gostava muito que fosse verdade mas as variações intra-anuais de despesas e receitas não permitem comparações directas. As análises mais detalhadas que foram feitas sugerem mais cautela sobre o andamento das contas públicas. Do outro filme sabemos que as boas execuções orçamentais mensais resultaram invariavelmente em desastres no fim de ano. O mesmo se passava com as emissões de dívida pública, que eram “vitórias” regulares. Como se viu.

O filme que vimos no passado não acabou bem, como sabemos. Agora, estamos ainda a tempo de rever o guião, produzindo um daqueles surpreendentes “volte face”. Porque nada é pior do que entrar para ver uma comédia-romântica bem disposta em que tudo só pode acabar bem e sair da sala depois de um desfecho de tragédia.

A cada dia que passa a Europa torna-se um local mais instável. O Brexit é um caminho desconhecido, com impactos económicos e financeiros imprevisíveis. Em caso de tempestade, a debilidade da nossa economia, das nossas finanças e dos nossos bancos fará de Portugal uma das primeiras vítimas. Tudo isto recomendaria um reforço da cautela, das margens de segurança e de “dinheiro nos cofres” para eventualidades. Mas vamos seguindo o caminho contrário, esperando que seja o mundo a adaptar-se às nossas contas e não o contrário.

Já vimos um filme parecido com este. Esperemos que o desfecho seja radicalmente diferente.

Outras leituras

  • Mas há coisas que correm bem, como o turismo. Vamos ver se conseguimos não estragar esta parte?
  • Se as forças armadas não conseguem recrutar candidatos num país onde a taxa de desemprego jovem é de 30%, atingindo mais de 100 mil pessoas que até aos 25 anos querem um emprego e não o têm, então a resposta só pode ser uma: as forças armadas estão a fazer alguma coisa de errado.

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