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Dois mil e vinte e tudo na mesma

Este artigo tem mais de 6 anos

A opinião de

É perfeitamente legítimo, é até da imanência humana, que cada passagem de ano seja uma altura de reflexão, tanto interior como exterior. Quem diz passagem de ano, diz aniversários ou outros quaisquer eventos de vida que sejam marcos temporais na nossa existência.

Porquê? Porque isto é tudo muito giro, mas é o lembrete de que estamos um ano mais próximos da morte. Ou optimisticamente, mais um ano em que tivemos o privilégio de usufruir da existência.

Olhamos para trás e fazemos o balanço do que finda. O que fizemos, o que deixámos por fazer, o que aconteceu de bom, que sorte tivemos, o que aconteceu de mau, que desespero que não tenhamos podido fazer nada para o evitar. Não é por não o escrevermos no Instagram que não aconteceu, surpreendentemente.

Olhamos para a frente e desejamos o balanço do que brota. O que gostávamos de fazer, o que sabemos no fundo que não vamos conseguir fazer, mas queremos acreditar que sim; a esperança no que pode acontecer de bom, mesmo que dependamos da sorte e da angústia do que pode ser mau, sem que tenhamos a mínima chance de o impedirmos. Fatidicamente, é a vida a acontecer.

Olhando para fora do espectro individual de cada um, é precisar puxar um pouco mais pelo optimismo para que se augure um bom ano. Assim por alto, pensando num instante, percebemos que a extrema-direita vai continuar a crescer por todo o lado, incluindo Portugal, e o seu discurso normalizado com o aval de meios de comunicação social como a TVI e a CMTV. Até porque médicos e professores continuam a ser agredidos, e em vez de se assimilar a gravidade disto como um problema estrutural, deixa-se que o populismo se aproveite através do medo e da segregação racial. E se a guerra económica entre EUA e China pode chegar a um ponto de gravidade que gerará nova crise na Europa, a guerra entre os EUA e o Irão parece uma realidade próxima com milhares de mortos em perspectiva.

Tudo isto, com base em quatro dias deste ano. Portanto, dois mil e vinte e tudo na mesma, até seria bom sinal. Não pioraríamos. Mas também é capaz que isto seja dois mil e vinte e tudo a descambar. Por isso, procurem abrigo, mas feliz ano novo.

Sugestões mais ou menos culturais que, no caso de não valerem a pena, vos permitem vir insultar-me e cobrar-me uma jola:

Don’t F**K With Cats: Netflix. Incrível. Se eu fiz parte, vocês também têm de fazer.

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