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Bater com a porta à escravatura do glamour

Este artigo tem mais de 8 anos

A opinião de

Quem trabalha na área da moda, na televisão, nas revistas femininas, e mesmo na rádio, é habitualmente olhado com um misto de admiração e inveja. Há um glamour associado a estas áreas que, infelizmente, não tem exacta correspondência com o real. Não conheço bem outros sectores profissionais mas sei que consultores, advogados, farmacêuticos ou arquitectos…

Sei quem é a Pureza Fleming mas não a conheço pessoalmente. Editora de moda em várias publicações e com um percurso consolidado nesta área publicou no Facebook um texto cru e muito real sobre o mercado de trabalho em Portugal.

São cada vez mais os profissionais com um percurso relevante a abandonar um sistema impossível de descrever. Começamos por pensar que são os jovens e inexperientes a não encontrar espaço para penetrarem no mercado de trabalho. A seguir percebemos que, para além disso, são explorados: trabalham muito e ganham pouco. Gradualmente vamos verificando que não se trata de uma panaceia geral nos media, indústrias criativas ou trabalhos intelectuais em regime autónomo. O problema alastrou-se a inúmeras áreas profissionais.

Quando ouvimos dizer que fulano bateu com a porta, pensamos ser um caso isolado. Passou-se, afirmamos em surdina… Entretanto sai outro. Depois outro e a seguir mais um, seguidos de tantos outros que só ouvimos dizer e estabelecemos um padrão: o das pessoas que se fartaram de ser exploradas e mal tratadas. A quem já não interessa o jogo de aparências do “o meu trabalho é mais glamouroso do que o teu” porque é tudo uma fachada para esconder pequenas misérias de quem anda a contar trocos até ao final do mês.

Trabalhei como consultora e fui bem paga. Mas também fiz muita consultoria de graça e nem o reconhecimento me valeu. Esta ideia de que podemos trabalhar sem custos para a empresa porque estamos a promover, a expor o trabalho ou a fazer networking tem de acabar. Se para um jovem que não tem provas dadas e que precisa de um projecto para mostrar o seu valor isto pode — atenção, poderá — fazer sentido, o mesmo não se aplica a quem é contactado por ser a pessoa certa seja lá para o que for.

Da mesma forma, não pode, nenhum profissional, ser remunerado abaixo das suas qualificações e experiência, sob pena de a porta se abrir para uma fila interminável de novos candidatos. Isto é a escravatura do século XXI que traz consigo um considerável número de questões psicológicas que derivam em problemas físicos e para as quais muitos encontram saída fora de portas, usando a criatividade para criar com as mãos ou mergulhando de corpo e alma numa espiritualidade que lhes salva a vida e, esperam, as finanças.

Como em tudo, não podemos ir todos por esse caminho e não faz muito sentido voltar para casa dos pais depois dos 30 anos…

Paula Cordeiro é Professora Universitária de rádio e meios digitais, e autora do Urbanista, um magazine digital dedicado a dois temas: preconceito social e amor-próprio.  É também o primeiro embaixador em língua Portuguesa do Body Image Movement, um movimento de valorização da mulher e da relação com o seu corpo.

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