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A vida política espanhola está asfixiante. Gerida ao dia

A opinião de

Este agosto de férias está a ser para os políticos espanhóis uma pausa para acumularem energia para o combate entre governo e oposições que em setembro vai recomeçar ainda mais feroz. É altamente improvável que Pedro Sánchez, chefe do único governo todo à esquerda em toda a União Europeia, consiga acordo para aprovar as contas…

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No atual quadro político as soluções parecem esgotadas, Sánchez costuma recorrer ao Manual de Resistência que escreveu, o horizonte está a cada dia. O líder socialista está há muito a amainar e superar crises em dominó. Desta vez, o combate anuncia-se mais áspero e incerto.

Se o sistema político espanhol fosse como o português, o chefe de Estado estaria a preparar-se para dissolver as Cortes (o parlamento) e convocar eleições antecipadas, para tentar saída do pântano político. Mas o Rei de Espanha não tem o poder que o presidente da República tem em Portugal de tomar a iniciativa política de dissolução do parlamento. As eleições antecipadas em Espanha acontecem, ou por iniciativa do governo ou na sequência de aprovação no parlamento de moção de censura ao governo. Mas, na moção de censura em Espanha há um requisito: deve incluir a indicação um chefe de governo alternativo. Foi assim que em junho de 2018 Sánchez sucedeu a Rajoy, com o governo PP a cair para entrar um governo das esquerdas encabeçado pelo PSOE, em coligação com o SUMAR e o suporte parlamentar de partidos nacionalistas e das esquerdas.

Os oito partidos que viabilizam o governo das esquerdas são, para além do PSOE e do SUMAR, os independentistas catalães ERC e Junts, os bascos PNV e EH Bildu, os galegos do BNG e, em modo oscilante, o CC das Canárias. Somam 178 ou 179 deputados (depende de CC), enquanto as direitas (PP+VOX) têm 170.

Entre estes partidos, o centrista basco PNV tem bases para diálogo com o PP. Mas o pacto com os socialistas para o governo autonómico basco barra a mudança de campo. Mesmo assim, o PNV sobe cada vez mais o preço do vital apoio ao governo central das esquerdas.

Os catalães do Junts têm posicionamento ideológico de centro-direita, até mais próximo do PP que do PSOE. Mas o Junts é um partido independentista, o que veta o entendimento com o espanholismo do PP. Acresce que o líder do Junts, Carles Puigdemont, está há sete anos refugiado na Bélgica, foragido à justiça espanhola que o acusa de violação das leis no referendo independentista de 2017, o que torna politicamente insustentável qualquer acordo do PP com Junts.

É assim que a maioria que sustenta o governo Sánchez vai permanecendo, embora com cada vez mais desconfortos. Já houve tentações de rompimento mas os partidos nacionalistas sabem que com um governo do PP muito das exigências autonomistas será recusado.

A atual legislatura termina em 2027. Sánchez manobra como pode para chegar lá. Feijóo, líder do PP, tenta tudo para que algum dos partidos da maioria (tenta aproximações ao PNV e até, indiretamente, ao Junts) se retire e faça cair o governo. Mas, mesmo em caso de queda do governo, com a atual composição parlamentar, é quase impossível que Feijóo, líder do PP, consiga os 176 votos parlamentares que lhe dariam a investidura.

É assim que paira o impasse político sobre Espanha. Sánchez está sempre a procurar ganhar tempo. Feijóo, a desejar eleições.

Nestes últimos meses cresceu no PP a convicção de que o partido está decisivamente embalado para ganhar as eleições, por mérito próprio e demérito do PSOE. A revelação de casos de corrupção e outras indecências envolvendo altos cargos do PSOE, gente muito próxima de Sánchez, deixou os socialistas muito debilitados, associados à degradação das instituições em Espanha – o procurador geral, Álvaro Ortiz, nomeado pelo governo das esquerdas, vai ter de responder no Supremo Tribunal à acusação de ter assado para media amigos informações comprometedoras sobre o companheiro de Isabel Ayuso, hiperativa líder do governo regional de Madrid e personagem com grande ambição na ala mais populista do PP.

É notória a hostilidade do aparelho judiciário ao sistema do governo socialista, que desautorizou os juízes sobre o conflito da Catalunha, incluindo com a aprovação de uma controversa lei de amnistia. A igreja católica também não esconde desagrado com o governo das esquerdas.

O PP entrava em euforia, sentindo que tudo corria a favor das aspirações deste partido que agrega direita e centro-direita, conservadores e liberais, quando entrou em cena uma componente recorrente na política espanhola: a corrupção. Montoro, o homem forte das Finanças nos últimos governos do PP, o de Aznar e o de Rajoy, apanhado em chorudos tráficos de influências e a facilitar a empresas privadas que paguem menos ao fisco, a troco de dinheiro mandado para o escritório de advogados que ele fundou.

No momento em que o PSOE estava gravemente tocado, irrompeu o caso Montoro a fazer lembrar o também mau passado de corrupção entre gente do topo do PP. Assim ficou mais equilibrada a balança que regista o mal que corrói os dois principais partidos em Espanha.

Este empate em más práticas entre PSOE e PP agravou ainda mais a zanga política entre a cidadania espanhola. É uma má notícia para a democracia, é uma boa notícia para os populistas. 

A degradação do debate político em Espanha atinge níveis de alarme. A polarização está extrema, com o adversário colocado em inimigo, desqualificado e demonizado num cenário de intolerância de qualquer voz crítica.

A vida política espanhola está asfixiante, sem horizontes, gerida ao dia.

 

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