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A moda do coliving (ou cosurviving)

Este artigo tem mais de 6 anos

A opinião de

Dei por mim a ler um artigo da NiT, conhecida magazine de trivialidades com grandes êxitos editoriais como “Top 10 das Praias Secretas Portuguesas Que Vão Deixar De Ser Secretas Imediatamente Porque Nós Vamos Republicar Este Artigo Até 25 Milhões de Pessoas o Terem Lido” ou “Os Melhores Restaurantes da Cidade A Que Por Acaso…

No caso, o artigo era sobre a moda, pujante e crescente, do coliving, ou seja, da partilha de casa. E eu confesso-vos que quase me emocionei com o artigo, pela maneira como é mostrado o copo meio cheio das coisas, de como a actualidade é retratada romanticamente, dando-nos desta forma uma perspectiva muito mais bonita da vida, mesmo que já tenhamos 30 anos e o nosso salário só dê para pouco mais que alugar um beliche numa camarata em Odivelas e pagar o passe para ir todos os dias até ao cowork na Baixa, onde está sediada a incrível startup onde trabalhamos.

Se quisermos ser uns rabugentos pessimistas, poderíamos dizer que o capitalismo selvagem, cuja falta de escrúpulos (ou regulação, vá) alimenta o crescimento desenfreado da especulação imobiliária, aliado aos salários praticados, força as pessoas a viverem com amigos ou desconhecidos até à idade em que deviam estar a mandar sair de casa os próprios filhos. Mas o artigo mostra-nos o contrário. É moda, é uma opção feliz e voluntária.

Ao que parece, cada vez mais pessoas querem chegar ali à volta dos 30 anos e continuar em coliving, provavelmente coshowering com o Jorge, na banheira que está sempre entupida com novelos viscosos de cabelo da Soraia e da Alice, e quem sabe coshitting também com o Pedro e o Gonçalo. Por ser moda, claro, nunca para poupar água.

É engraçado como é uma moda que inclui, que é democrática, visto que os cada vez mais aderentes a si, tanto são publicitários, como artistas, engenheiros, médicos, enfermeiros, professores, advogados, designers, toda uma panóplia de ocupações, e até youtubers. Bem, estes últimos são os mais orgulhosos disso, talvez até um pouco culpados pela moda.

Mas imaginem chegar a casa, depois de um intenso dia de 8 horas (no mínimo dos mínimos) de trabalho no hospital, na agência ou no escritório, e como pesa o cansaço entranhado no corpo e na mente. Tira-se a senha para a casa-de-banho – o Jorge demora sempre meia hora (5 minutos a fazer cocó, 10 no Instagram e 15 a chorar enquanto pensa no salário que recebe, mesmo já trabalhando naquela empresa há 5 anos). Na cozinha, não dá para ir já fazer o jantar, nem sequer fazendo cocooking (ou cozinhing, se preferirem), porque está a Soraia a ocupar os bicos todos do fogão, a fazer um jantar para uns amigos que estão esparramados no único sofá da sala e a baralhar o algoritmo da Netflix. O Pedro e o Gonçalo estão no corredor a discutir exaltados sobre se a foto do Pizzi a beijar na boca o Bruno Fernandes é verdadeira, ou montagem do Insónias. Resta ir descansar um pouco para o quarto, que por acaso é ao lado do da Alice, que é pansexual e que está com a música aos berros para disfarçar os sons do cosexing que está a fazer com mais quatro pessoas.

Tudo isto, não é falta de privacidade, é só co(over)sharing. Portanto, o sonho de qualquer jovem adulto. Uma moda a que cada vez mais gente quer aderir por prazer, e não porque se pagasse uma renda sozinho sobrava dinheiro para meia sopa por dia e 100MB de net para o mês todo.

Gosto que a NiT consiga este branqueamento do capital, pegando num dos piores produtos do capitalismo actual, tornando-o em algo sexy e travestido. Só acho que era ligeiramente mais honesto, ao invés de coliving, chamar-lhe cosurviving.

P.S: Aguardamos os próximos artigos da NiT sobre, por exemplo, pessoas em condição de sem-abrigo, “A moda dos outdoor lovers”, ou até sobre a crise dos refugiados “Poderão ser estes os próximos medalhados olímpicos de natação?”.

Sugestões mais ou menos culturais que, no caso de não valerem a pena, vos permitem vir insultar-me e cobrar-me uma jola:

– De Olhos Fixos no Sol: Estou maravilhado com este livro do Irvin D. Yalom.

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