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3 cenários apocalípticos da Lisboa pós-Web Summit

Este artigo tem mais de 9 anos

A opinião de

A WebSummit está aí e as perguntas vão surgindo. Será Lisboa a próxima capital do empreendedorismo? Posso assumir-me como empreendedor se no Facebook tiver “CEO na empresa A minha própria vida”? Subscrevo o Netflix há um ano e ainda só vi Narcos, considera-se um investimento em capital de risco?

Verdadeiramente, não trago respostas para nenhuma destas questões. Apresento-vos antes três cenários dantescos que podem muito bem tornar-se realidade com a influência do evento tecnológico na cidade. 

O surgimento do tasqueiro entrepreneur

Não, não estou a falar de tascas modernas que apareceram a partir de 2010 geridas por betos que nunca puseram os pés em Moscavide. Refiro-me a tasqueiros a sério, malta que gere um snack-bar que comercializa apenas minis, amendoins, bicas, bifanas tão tenras como um menir e, sobretudo, falta de sofisticação. Queiram ou não, a Web Summit poderá muito bem influenciá-los adotar uma postura de entrepreneur.

Em primeiro lugar, o tasqueiro deixará de ser conhecido por ‘sr. Carlos da tasca’, evoluindo para “CEO & Founder na empresa Café Kátekero”, como descrito pelo LinkedIn. De seguida, contratará um social media manager: a hashtag #FiadoSóa30deFevereiro não tem como não chegar a trend do Twitter e há que obrigar aquele cliente habitual a tornar-se foodblogger para dar boas reviews do bagaço na Zomato.

Para além disso, cedo conhecerá as virtudes do marketing online: em vez de escrever “Há caracóis” num pedaço de toalha de papel dobrado em losango, pagará artigos no Buzzfeed sobre as ‘25 situações em que a tua vida precisa de moelas’. A tasca dele não é em Chelas, será ‘Marvila-based’. O barril de cerveja não estará fora do prazo, será ‘vintage’. Moscas pousadas nos folhados? Não, ‘pet friendly environment’!

Dentro de três anos estará em Palo Alto a dar conferências sobre como enganar os clientes com o troco. Ninguém o pode parar. 

O aparecimento do business angel mitra

Já foste assaltado por um mitra? Então já ouviste a conversa do “maninho, se precisares de alguma coisa, o aqui o primo ajuda-te”, enquanto te é subtraído o iPhone do bolso. O business angel é como o mitra, promete-te lealdade e apoio naquilo que for preciso, mas no fim, vai-se a ver, e ainda te acabou por levar dinheiro. Aliás, é inquestionável que o mitra tem o que é necessário para ser um bilionário ao estilo de Silicon Valley: ouve hip-hop, anda de transportes públicos e, acima de tudo, veste-se mesmo muito mal.

Quem sabe se não andarão por aí de cap os nossos Mark Cubans? Prevejo que se afirmem num âmbito pós-Web Summit, dispostos a investir os seus headphones da Beats num serviço freemium de ganza. Estão a perceber? Um Spotify do chamom. Ou, quem sabe, apostar tudo numa Uber de carros tuning! Vá, não percam tempo e preparem os vossos pitchs. Juro que não ficava espantado se a próxima edição do Shark Tank fosse gravada no banco de trás do autocarro 767.

Contudo, não depositem demasiadas expectativas na sua capacidade de investimento: o mitra não raro é pai antes de acabar o secundário. Há pouco hype à volta das fraldas mas elas estão overpriced também. Enfim, se para os business angels as start-ups são os seus bebés, para o mitra os seus bebés são mesmo os seus bebés. 

A emergência do hacker do Jardim da Estrela

Imbuída pelo espírito da influência californiana na vida lisboeta, a terceira idade pode muito bem vir a surfar esta onda da informatização. Mas em vez de perderem tempo naquelas universidades sénior que dão workshops de como desenhar os netos no Paint, os idosos inscrever-se-ão em complexos cursos de programação.

Na senda da Web Summit, a probabilidade é a de que apareçam hackers nos bancos do Jardim da Estrela. O avô pós-Web Summit não irá à pesca, fará phishing. Não gritará com o senhor da papelaria, mandará abaixo o site da Santa Casa. Não encomendará caixotes de Viagra, contentar-se-á com a exploração do software. Estará munido de toda a capacidade de programação para aceder às contas a que os filhos lhe vedaram acesso, para adulterar o sistema de senhas das urgências do S. José e para, mais do que tudo, fazer renúncia na Sueca online.

E, porque não, alguns tornar-se-ão hacktivists, autênticos Edward Snowdens de andarilho! Não se surpreendam se surgirem, entre os nossos velhos do Restelo, alguns Anonymous. Não porque não queiram revelar a sua identidade, mas porque provavelmente não se lembram do seu próprio nome. Tenham medo, muito medo.

Manuel Cardoso é um humorista de 22 anos. Posiciona-se contra as pessoas que tentam ser divertidas nas notas biográficas que têm de escrever quando assinam artigos de opinião. É guionista e stand-up comedian, integra o coletivo Bumerangue e é co-autor do programa Very Typical. Tem um espetáculo a solo, intitulado ‘1994’. Vê mal ao longe.

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