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Voar num barco. Viver para contar a experiência

Este artigo tem mais de 8 anos

O Extreme Sailing Series é muito mais que um simples circuito mundial de regatas. À vista de todos, com um estádio montado em terra, alguns eleitos vivem bem por dentro, na água, as manobras dos “voadores” catamarãs GC32. São várias experiências numa que por si só é única. O SAPO24 viveu-a para contar, a bordo…

O Extreme Sailing Series é um circuito mundial de regatas em oito cidades espalhadas pelo Médio Oriente, Ásia, Europa e América.

Envolvendo seis equipas fixas – e uma convidada por cada etapa por onde passa o circuito -, a preocupação com quem segue as regatas é tanta que as mesmas se desenrolam bem à vista de todos.

Em terra, a organização edifica “estádios” para que a proximidade entre os velejadores dos velozes catamarãs GC32 e o público seja uma realidade. Quase dá para tocar na tripulação e as suas vozes são bem audíveis. Mas vai mais fundo. Quer igualmente que quem vê sinta como é estar em prova, a bordo dos barcos que voam literalmente sobre a água.

Pegando no “ver para crer”, o SAPO24 subiu a bordo. E, in loco, foi ver como é que estes catamarãs desafiam as leis da física e a própria verticalidade e flexibilidade das embarcações, assim como todo o trabalho de uma equipa.

créditos: Paulo Rascão | MadreMedia

Aconteceu no Funchal, na 3ª etapa do circuito mundial, competição que está a partir de hoje, até dia 23, em Barcelona, Espanha, uma estreia da cidade catalã no circuito, e que se prolongará nos próximos quatro anos.

1º passo. Bem-vindos a bordo

Com a devida e prévia inscrição feita, os “velejadores” convidados são informados que haverá por cada dia de prova, e em cada uma das regatas diárias previstas, sete afortunados (um por equipa) a quem será dada esta oportunidade de uma vida.

Dirigimo-nos ao ponto de encontro e daí para a sala de vestuário que está no tal “estádio” montado. Roupa, carteira e telemóvel ficam guardados num cacifo próprio. Há quem leve máquina fotográfica ou uma Go Pro. Todos são obrigados a vestir a apropriada indumentária. Escolha de tamanhos feita, fato completo, calças e peitilho, casaco, luvas, capacete e colete. Tudo tem que estar bem justo e não vale encolher a barriga. O objetivo é impedir entrada de água e não desfilar o corpo.

créditos: Paulo Rascão | MadreMedia

Vestidos dos pés à cabeça com cor encarnada bem viva para nos distinguirmos das tripulações, caminhamos para a sala ao lado. Assinamos um papel, um termo de responsabilidade, no qual até deixamos um número de telemóvel para “contactar em caso de …”. Para alguns o sorriso na cara diminui.

Recebemos um briefing sobre o comportamento a ter no barco que nos calhou em sorte. E observamos um vídeo, não mais que um minuto, que nos transporta para as imagens nos aviões quando levantamos voo.

Seguimos para a marina. Sete eleitos, vestidos a rigor, de capacete colocado, aquela caminhada mais parece que partimos numa das missões da Apollo. Esperamos por um barco de apoio.

2ª Passo. É hora do “Despacito”…

É dada ordem para saltarmos para o semirrígido. A partir deste momento somos uma verdadeira donzela a saltar de barco em barco. O primeiro avança até perto do campo de regatas onde estão sete, cada qual com a bandeira de cada uma das equipas em prova.

Aproximam-se, um a um. Mais uma mão estendida do lado de lá, mais um “pasito” e estamos dentro do barco que nos leva, finalmente, até à equipa de que faremos parte, no caso, com a New Zeland Sailing Team (equipa da Nova Zelândia).

créditos: Paulo Rascão | MadreMedia

Tudo se desenrola entre regatas, num vaivém constante de embarcações a levar e trazer os afortunados que vivem, por dentro, a experiência de uma prova.

Encostados agora ao catamarã, damos um pequeno salto, ajudados pelo braço de um velejador. A primeira sensação que temos é que ao pisar o trampolim, vulgo “redes”, do catamarã parece que estamos a dançar o “Despacito”. O chão foge dos pés e mexemos as ancas para ganhar equilíbrio. A segunda, e já sabíamos à partida, é que vamos estar (e muitos agradecem) a um canto. Num dos cascos. Sentados e sossegados. Sem mexer e só o fazemos se e só se derem essa ordem. Sentimo-nos na pele de “o gordo vai à baliza”.

Com o rabo colado às redes agarramo-nos a um grampo. Está explicada a razão das luvas. Somos como o peixe que é transportado. Respiramos fundo à medida que é anunciado o tempo que falta para a largada.

Os cinco elementos da tripulação falam entre si. Em inglês com sotaque da terra dos Kiwis. Aproveitam para trincar uma banana e beber água. Repor energias e calorias. O som prolongado da buzina é o início de uma experiência para a vida.

créditos: Paulo Rascão | MadreMedia

3º passo. Levantar voo como uma gaivota e mergulhar com um golfinho

Começou a regata. O barulho do vento é suplantado pelo que sopra das velas e dos cabos. Do estica e encolhe constante. Do balão e vela grande. Há ordens por todo o lado. Por vezes, a proximidade com outras embarcações é tanta que nem nos apercebemos quem está a falar. Em especial quando rodamos as boias e fazemos viragens de bordo.

A tripulação, cada qual têm um papel bem definido. Assim como nós. Sossegadinhos.

Passam por cima das nossas pernas. Sentam-se ao nosso lado. À esquerda, à nossa esquerda. À direita. Ou a bombordo ou estibordo, para os entendidos. Ouvimos as vozes e a respiração. Mais ou menos ofegante conforme o esforço feito. A caras estão, por vezes, à distancia de um cumprimento. Aparecem de repente sem pedir licença.

créditos: Paulo Rascão | MadreMedia

Limitamo-nos a observar. E contemplar. Entram as questões táticas. Pouco percebemos do que é transmitido entre os velejadores numa conversa constante em que nós, SAPO24 e outros, não somos tidos em conta. Somos o “homem invisível”.

Manobram as velas. Deitam-se no trampolim que serve de tapete para observar o movimento dos outros barcos. Cada passo em falso é uma perda de tempo decisivo em especial há que evitar que uma qualquer outra equipa entre no cone do vento.

créditos: Paulo Rascão | MadreMedia

E por falar em vento, é por ele que gritamos para tirar literalmente o barco fora de água. Aconteceu. Fez-se jus ao nome de catamarãs velejadores ou barcos que voam. Sim. Levantámos voo. Por breves instantes, sim, mas os segundos suficientes para nos abstrairmos de tudo e de nada.

Fez-se silêncio. Para os debutantes é hora de suster a respiração. Do ar, passamos em mergulho para a água. Não sabemos que estamos a voar a 5 nós ou 10 nós. Não importa. Subimos e descemos como um carrossel de infância. Como pequenos mergulhos de golfinho. Para fora de água e para dentro.

Aproximamo-nos da meta. Terminou. Folgamos a força de braços.

Tudo volta ao início. Vieram-nos buscar. Estão do lado oposto. Atravessamos “a rede”, com a cabeça a dar a música “Despacito”, com mais ou menos abanão, uma mão estendida no semirrígido da NZ Sailing Team, despedimo-nos com um “good luck” [boa sorte], recebemos um “bye” [adeus].

créditos: Paulo Rascão | MadreMedia

Mais um salto para o barco que recebe os “velejadores convidados” e os levará a todos até à marina.

Os velejadores são profissionais, acima de tudo. E nós, fomos, por instantes, os “emplastros” que são sempre bem-vindos. A bem do espetáculo e do circuito ESS.

Damos lugar a outros. Resta os últimos segundos de fama com a caminhada até ao local onde tudo começou. Despe roupa, veste roupa, tudo será colocado, posteriormente, no sítio e tamanho certo.

Fim da experiência. E para o ano há mais, na etapa do Funchal do Extreme Sailing Series.

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