Onde é que estavas no 25 de Abril? Se fizéssemos a famosa pergunta imortalizada por Herman José aos San Antonio Spurs, a resposta seria: “nos últimos 20 anos, a jogar nos playoffs da NBA”.
Mas este ano, pela primeira vez desde 1997, a temporada da equipa texana terminou antes desse dia. E, pela primeira vez desde 1997, o futuro nunca pareceu tão incerto.
Nos últimos 20 anos, uma temporada normal para os Spurs tem sido mais ou menos assim: ganhar 50 ou mais jogos, ficar nos primeiros lugares da conferência (e da liga), apurar-se para os playoffs, entrar nestes como candidato ao título e, num ano em que tudo corre bem, acabar o mesmo a levantar o troféu Larry O’Brien. Foi o que fizeram por cinco vezes desde 1999. Nas épocas em que não conseguiram vencer o título, andaram lá sempre a lutar por isso.
Vão com 21 épocas consecutivas a irem aos playoffs e 27 idas à fase a eliminar nas últimas 28 épocas (a única excepção foi 1996-97, a famigerada época em que David Robinson se lesionou, ganharam a primeira escolha no draft de 97 e selecionaram Tim Duncan). É difícil lembrarmo-nos de um tempo em que os Spurs não eram bons.
O que torna esta temporada numa grande anormalidade. Este ano, terminaram em sétimo lugar do Oeste, com um recorde de 47-35 (apenas o 12.º melhor recorde da liga), e entraram nos playoffs numa posição inédita nas últimas duas décadas: sem serem candidatos. Foi uma época em que os Spurs não foram protagonistas e não contaram para as contas do título. Uma época em que foram apenas mais uma equipa da liga. Uma época muito estranha, portanto.
Para além do sucesso desportivo ao longo desta vintena de anos, os Spurs habituaram-nos também a ser bons fora de campo. Ao longo desse período, têm sido uma equipa-modelo na construção e gestão do plantel (e na gestão de toda a estrutura, na verdade). Desde descobrir pérolas em posições baixas do draft até recuperar carreiras de jogadores, desde convencerem super-estrelas a colocar a equipa acima deles próprios até transformar desconhecidos em jogadores produtivos, os texanos habituaram-nos a ser a equipa mais competente, estável e livre de controvérsias da NBA. A equipa que todas queriam ser.
O que só faz desta uma temporada ainda mais surpreendente e anormal. Este ano estiveram envolvidos no tipo de polémica que estamos habituados a ver em organizações disfuncionais como os New York Knicks ou os Sacramento Kings (desculpem, fãs dessas equipas, mas vocês sabem que é verdade). Ver Tony Parker e Manu Ginobili a mandar esses recados pela imprensa foi tão surreal como ver Donald Trump fazer uma declaração ponderada e cautelosa sobre a Coreia do Norte (ou sobre qualquer coisa). E ver a maior estrela dos Spurs (a estrela mais anti-estrela da liga, que parecia feito à medida para esta equipa) em colisão com a organização parece tão estranho como ouvir Charles Barkley ou Shaquille O’Neal a fazer uma análise profunda sobre basquetebol. A novela da lesão de Kawhi Leonard é uma história que só perde em bizarria para a história de Markelle Fultz e mostrou uma divisão que nunca tínhamos visto nos Spurs.
Acabam esta temporada sem brilho, como qualquer outra equipa que fica pela primeira ronda. E chegam à offseason que se aproxima com muitos pontos de interrogação e muitas questões para resolver.
Antes de mais, e acima de todas, a questão de Kawhi. O extremo vai entrar no seu último ano de contrato e, este Verão, é elegível para um contrato super-máximo de 219 milhões de dólares por 5 anos. Ninguém espera que os Spurs não lhe ofereçam essa renovação, mas as duas partes têm alguma reconciliação para fazer antes. Perceber se Kawhi quer ficar, se está com a equipa a 100% e fazer essa re-aproximação é a primeira coisa que Gregg Popovich e o general manager RC Buford têm para fazer neste defeso.
Há um ano era dada como certa a renovação e antevia-se uma longa carreira de Leonard como Spur. Agora, tudo parece possível.
Mas as incertezas em torno dos Spurs estendem-se para lá da sua misteriosa e inescrutável estrela. Manu Ginobili pode ter feito o último jogo pela equipa e Tony Parker acaba contrato esta época. Danny Green e Rudy Gay podem ser agentes livres (se não ativarem o ano de opção e quiserem testar o mercado). E a organização tem de decidir se oferece extensões de contrato a Kyle Anderson, Bryn Forbes e Davis Bertans.
As únicas certezas no plantel são LaMarcus Aldridge (que tem mais três anos de contrato), Pau Gasol (que tem mais dois), Dejounte Murray e Patty Mills.
O plantel do próximo ano pode, portanto, ser completamente diferente. Mas, antes de todas as outras decisões, tudo começa com Kawhi. É ele a primeira pedra.
Se pensarmos nas duas últimas décadas da NBA como uma cidade, os Spurs são um castelo. Sólido, sóbrio e a dominar, de forma discreta e constante, a paisagem. Outros edifícios mais vistosos foram aparecendo pela cidade ao longo desses tempos. Casinos, torres, arranha-céus e outros edifícios vistosos que foram construídos, tiveram a sua vida e foram demolidos. Mas o castelo dos Spurs esteve sempre lá. Podia não ser a construção mais vistosa, mas está sempre lá em cima a dominar a paisagem.
Resta saber se esta temporada foi uma brecha facilmente reparável ou uma fenda que ameaça derrubar o castelo. Porque, pela primeira vez em mais de 20 anos, os Spurs encontram-se perante um futuro incerto. Um futuro que depende de como corre este verão decisivo. O verão de Kawhi começa agora.
