O enredo desta temporada dos Cleveland Cavaliers podia não estar a ser tão dramático nem tão sangrento como o de “Hamlet”, mas o final preparava-se para ser tão trágico como o da peça de William Shakespeare. Porque poucas vezes (ou nunca) tínhamos assistido a uma queda tão rápida de um candidato ao título. É quase inédito ver um candidato desmoronar-se da forma que os Cavs fizeram e, em tão poucos meses, passar de incontestado vencedor da conferência a equipa que se vê perante a possibilidade de falhar os playoffs.
A formação de Cleveland perdeu 14 dos 21 jogos realizados desde o Natal e está no terceiro lugar da conferência Este, com um sofrível recorde de 31 vitórias e 22 derrotas. Está apenas a uma derrota de distância do quinto classificado, os Milwaukee Bucks, e apenas a quatro jogos de diferença do nono classificado, os Detroit Pistons. Portanto, o impensável cenário de falharem os playoffs não estava fora de questão (não iria, quase de certeza, acontecer, mas só o facto disso ser uma possibilidade diz muito do estado a que tinha chegado esta equipa).
É verdade que, nos últimos anos, os Cavs já nos habituaram a fazer a temporada regular em velocidade de cruzeiro e só acelerar nos playoffs. Por isso, à primeira vista, as preocupações podiam parecer exageradas. Só que este ano os problemas da equipa eram mais profundos. E menos reparáveis.
Estavam com a pior defesa da liga (e não era só por falta de empenho, era mesmo um problema de peças), Isaiah Thomas, o principal reforço deste Verão, estava longe do seu melhor e com prestações medíocres dos dois lados do campo (mas principalmente na defesa), Kevin Love está lesionado e de fora até ao final de março, os jogadores vinham a trocar acusações em público e em privado e o balneário estava dividido.
Segundo os relatos que têm vindo a público em diversos meios de comunicação (mas também segundo declarações públicas de alguns membros do plantel), os jogadores não confiavam uns nos outros, alguns não gostavam de outros colegas de equipa (sabemos que isso não é indispensável para uma equipa ter sucesso e há muitos exemplos de equipas campeãs em que jogadores não se suportavam, mas nunca é bom) e havia uma guerra no balneário entre os jogadores mais antigos e os que se tinham juntado à equipa neste defeso.
Como se isto não bastasse, LeBron James parecia mais desligado e desmotivado que nunca e, segundo o site The Athletic, James e os dirigentes da equipa estavam cada vez mais distantes e a relação entre os mesmos estava mais antagónica do que alguma vez esteve.
Antes das trocas de ontem, a ESPN colocava os Cavs com 3% de hipóteses de atingir as Finais. Três por cento. Não de ganhar o título, mas apenas de ir às Finais.
Como é que os Cavaliers chegaram até aí?
Há vários culpados, a começar pelo dono da equipa, Dan Gilbert, que em junho não ofereceu uma renovação de contrato ao general manager David Griffin. A decisão foi surpreendente e na pior altura possível. Porque o trabalho de Griffin falava por si (foi o arquiteto da equipa que venceu o título em 2016) e este era reconhecido como um dos melhores general managers da liga, e porque aconteceu dias antes do draft e da free agency.
Outro dos responsáveis pelo buraco em que os Cavs se meteram é Koby Altman, o sucessor de Griffin. Justiça lhe seja feita, foi colocado numa posição muito difícil e mal teve tempo para se preparar. E como se assumir o cargo dias antes da draft e da free agency não fosse suficiente, ainda teve logo a “crise Kyrie Irving” para resolver. Mas, atenuantes à parte, a verdade é que foi ele que montou esse plantel falhado.
Trocar Irving foi o princípio desta derrocada. Decisão inevitável ou não, o facto é que foi um grande downgrade na posição. Contratar veteranos em fase descendente e que não encaixam na equipa foi o passo seguinte. Mais um passo na direcção do abismo. Criou um “engarrafamento” em algumas posições e gerou reforços redundantes no plantel. Resultado de tudo isso? Uma equipa mais velha, menos atlética e com peças que encaixavam pior.
Mas o problema não fica apenas pela composição do plantel. A motivação e empenho dos jogadores (e de LeBron James) era muito questionável. Isso é trabalho do treinador e a capacidade (ou falta dela) de Tyronn Lue para gerir tudo isso também era um problema.
Por último, LeBron James também tem a sua quota-parte de responsabilidade no buraco cavado. Nunca se comprometer por mais de um ano tornou impossível planear a longo prazo e a relação com o front-office sempre foi mais de refém do que de parceria. Mantê-los nessa permanente ameaça da sua saída e de terem de o manter contente, montar plantéis só para o imediato e fazer all in todos os anos não facilita o trabalho a ninguém.
Então e o que fizeram para sair desse imbróglio?
Uma verdadeira revolução no dia limite para trocas. Os maus resultados e o mau ambiente no balneário (e, claro, a possibilidade de LeBron James sair) levaram a uma limpeza no plantel.
Em quatro negócios separados, os Cavs mandaram embora Isaiah Thomas, Channing Frye, Iman Shumpert, Jae Crowder, Derrick Rose e Dwyane Wade e adquiriram George Hill, Jordan Clarkson, Larry Nance Jr. e Rodney Hood. E conseguiram todos estes negócios sem dar em troca a preciosa escolha no draft dos Nets.
Foi, antes de mais, uma mudança de cultura e uma tentativa de resolver os problemas de química. Koby Altman admitiu-o na conferência de imprensa de anúncio dos novos jogadores. Segundo este, fizeram as trocas porque “queriam fontes em vez de ralos”.
Foi também uma melhoria de peças dentro de campo. George Hill é um excelente defensor e um base que joga bem sem bola. Este ano, está a lançar mais de 40% em situações de “catch and shoot” (lançamento após passe ou “receber e lançar”). Portanto, perfeito para jogar ao lado de LeBron James. Jordan Clarkson é um marcador de pontos que pode jogar nas duas posições do backcourt e pode sair do banco e produzir instantaneamente (este ano, nos Lakers, tem sido um dos melhores sextos-homens da liga). Larry Nance Jr, que é filho de um histórico dos Cavaliers, é um “big” atlético e bom defensor. E Rodney Hood é mais um excelente atirador e um defensor longo e atlético, que tanto pode jogar com os titulares, como com os suplentes.
E, claro, foi também uma tentativa de motivar LeBron James. Para esta temporada e, quem sabe, para as seguintes. Segundo a ESPN, LeBron ficou excitado com as mudanças e Altman confessou que esperava que estas levantassem o espírito da estrela da equipa. “Acho que vamos ter um LeBron rejuvenescido e isso é chave”, disse.
Portanto, adicionaram peças que encaixam melhor e todas elas mais jovens do que as que saíram. Rejuvenesceram a equipa, ficaram mais atléticos e com melhor defesa. Ficaram melhores no presente e mais preparados para o futuro (com ou sem LeBron).
Não sabemos quão bons serão estes novos Cavs este ano, e fazer alterações tão profundas na equipa a meio da temporada é sempre arriscado. Mas mais arriscado ainda seria não fazer nada. Porque as coisas não estavam nada famosas lá pela Land. Se, em junho, o quarto ato do duelo Cavaliers-Warriors parecia inevitável, há dois dias a dúvida era se a equipa de LeBron James chegaria sequer à final da sua conferência.
Ser ou não ser candidato, eis a questão. Há um par de dias, a resposta era: “nem por sombras”. Hoje é: “contem com eles”.
