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Uma das tradições mais castiças do Natal português: as superstições

Portugal, tal como os restantes países europeus, é pródigo em superstições, ainda mais no contexto do Natal. Talvez por isso, o Natal Português não divirja muito dos restantes natais europeus. Ainda assim, vamos destacar algumas particularidades.

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O Natal Português é, essencialmente, de influência franciscana – é por isso inspirada por S. Francisco de Assis que no Natal de 1223 fez a primeira recriação do Presépio na cidade de Greccio, e por isso centrada na festa cristã da natividade onde se destacam três valores fundamentais: solidariedade (ou comunhão), família e infância. Encontramos já em Gil Vicente – pai do teatro português, a cena do nascimento de cristo na “Sibila Cassandra” no ano de 1511, na “Mofina Mendes” de 1534, no “Auto da Visitação” (1502), entre outras obras deste autor português.

Investigadores como Inácio Pestana assinalam o início do Natal logo pelo advento ou pela “oitava da Imaculada”. No Gerês, este autor destaca as “calhandras” ou adoração dos pastores durante nove madrugadas, acompanhadas da população munida de instrumentos musicais tradicionais.  Na ilha da Madeira inicia-se com o novenário das “missas do Parto” ou “Novenas do Ó” – devoção Mariana onde se celebram os nove meses de gravidez da Virgem Maria.  Esta tradição foi introduzida pelos padres franciscanos no início do povoamento da ilha ainda no século XV. Outra tradição que destaca é a dos autos pastoris do Minho ao Algarve feitos de loas e cânticos onde não raras vezes se dançava: “Eram longos muitos deles, tão longos quanto o número de participantes que saltavam ao palco armado junto ao altar da igreja (na Beira Baixa, na Madeira, etc.) ou no salão da sociedade recreativa (no armazém, “cardenho” ou palheiro, na Figueira da Foz, onde tomaram extraordinária fama estes autos), ou ainda na casa de qualquer um, sempre com intenção jubilosa de saudar e glorificar o Deus Menino ou a Sagrada Família. Em Serpa, (…), era tradicionalmente representado desde o Natal aos Reis o chamado ‘Auto Sacramental do Presépio’”. Outra tradição que permanece de norte a sul é a da “Missa do Galo” pela sua natureza litúrgica. Eram comuns a armação do Presépio nas igrejas ou em casa antes ou a seguir a esta missa. Cantar loas e beijar o pé ao menino Jesus fazia e continua a fazer parte dos costumes de muitas comunidades portuguesas. Nalguns locais havia ainda a “Missa de Alva”, a missa dos pastores, também chamada por oposição à “Missa do Galo” de “Missa da Galinha”.

Na noite de 24 de Dezembro de Trás-os-Montes ao Alto Alentejo executa-se a queima do “Madeiro de Natal”, no adro das igrejas ou no centro das aldeias, costume muito antigo relacionado com as celebrações do solstício de Inverno. Habitualmente, são os homens solteiros que entram na floresta à procura dos melhores troncos. O sino da igreja anuncia a chegada do “Madeiro de Natal” que é aceso após a “Missa do Galo”, mantendo-se muitas vezes até ao “Dia de Reis” – 6 de janeiro. À volta da grandiosa fogueira partilham-se vinhos, jeropiga, doces típicos, castanha assada e enchidos ao som de cânticos em honra do nascimento do Menino Jesus. Entre o Natal e os Reis destaca-se a célebre “Festa de Santo Estevão” ou “Festa dos Caretos” que remonta aos celtas, onde jovens mascarados de trajes coloridos e com chocalhos à cinta provocam raparigas e animais ao som de instrumentos musicais como as gaitas-de-foles. 

Na Saída da Missa do Galo
créditos: créditos: 1883, Colecção SCA | Natal Zeitgeist, Porto.

As figurinhas do Presépio perduram na casa portuguesa e nos espaços comerciais e continuam a ser um dos colecionáveis principais dos portugueses, sejam feitas de barro, cerâmica, vidro, madeira, PVC ou de outros materiais mais prosaicos. Decorados com verdes como o azevinho, o loureiro ou a gilbarbeira, não falta nunca o menino deitado na manjedoura dentro de uma simulada gruta de Belém. O Presépio é património artístico e cultural do nosso país, pela singularidade que atingiu, sobretudo a partir dos contributos do escultor Machado de Castro, aos quais seguiram-se os famosos Presépios de Barcelos, Gaia ou Estremoz. Contudo, a utilização de verdes no Natal em Portugal não se circunscreve ao Presépio e à armação de uma Árvore de Natal – introduzida pela primeira vez no espaço público, na cidade do Porto, no Palácio de Cristal em 1865. Carlos Alberto Ferreira de Almeida dá o exemplo do “pão votivo” de Miranda: “ramos com pão votivo em terras de Miranda, a decoração, intensamente vegetal com ramos de pinheiro, laranjeira e limoeiro, com pernadas de medronheiro e doutras árvores, usada nas igrejas da nossa Beira, as “searinhas do Menino Jesus” do sul do país e da madeira, e ainda o costume de se queimarem e descascarem pinhas em outras partes”.

É comum na noite escura, à volta da lareira, em convívio intergeracional, contarem-se lendas numa obsessão pelo oculto, especialmente lendas onde figuram homens selvagens como o lobisomem, protagonista predilecto do Norte de Portugal, da Beira e dos Açores. A Obra Etnográfica conduzida por Adolfo Coelho, explica esta personagem, tal como era entendida, por exemplo, nos arredores de Lamego e apoiando-se no excerto de um artigo do “Almanaque de Lembranças para 1870”: «A existência de um lobisomem está dependente de várias circunstâncias. Assim morrendo alguém que se julga ter sido vítima de uma bruxaria, transforma-se depois em lobisomem com a propriedade de tomar por algum tempo a figura de um lobo, de um jumento, de um bode, ou de um cabrito montês, outras vezes o lobisomem gera-se quando algum jumento se espoja no chão ou aparece bruxa, e esta diz certas palavras incompreensíveis. Gera-se também espontaneamente quando, havendo numa família um certo número de filhas, aparece um filho. Dando-se este caso esse filho é forçosamente lobisomem.» Crença que destoa de uma outra à época mais consensual de que “só é lobisomem o último de sete filhos varões e em rigor de filhos que nasceram de seguida, sem irmã de permeio.” Antecipa-se por isso, um grau de atenção extraordinário dos participantes a estas rodas de histórias que iam, certamente, aumentando conforme iam sendo dadas mais informações sobre as horas, os locais e o aspecto que estes homens lobo poderiam eventualmente aparentar: «Os lobisomens apresentam-se às horas do crepúsculo em alguma mata ou lugar sombrio, e de noite atravessam as povoações fugindo e fazendo grande barulho nas ruas, barulho que é ouvido especialmente pelas pessoas sobre quem querem influir. Os malefícios piores são os dos lobisomens que têm a forma de homem com pés de cabrito ou cavalo; quando se vê algum destes se se proferir três vezes Avé-Maria, Avé-Maria, dá um grande estoiro e arrebenta.» Outras lendas, sobre outros seres, eram também contadas, descreviam outros medos também encarnados em espíritos maléficos. Uma dessas figuras é a do “Deus-te-livre” que Adolfo Coelho descreve, servindo-se de uma cantiga popular de Coimbra:

“Se fores à Pucariça

Não passes por Cantanhede,

Que está lá um Deus-te-livre

Metido numa parede.”

A intensidade emocional desta noite venerável, vai aumentando à medida de que misticismo e maravilhoso se misturam, com o bem a triunfar, justamente, sobre o mal, especialmente quando a arma de combate parece ser a grande fé.

No lume as pinhas vão sendo queimadas para se extraírem os pinhões que eram distribuídos quando iniciava o jogo do “Rapa” – piarra (pequeno pião) de quatro faces onde em cada uma consta uma de quatro letras: T (tira)D (deixa)P (põe)R (rapa) e que inicia depois da pergunta: “par ou pernão”?

Na falta de pinhões jogam-se amêndoas ou guloseimas. Mas uma coisa é certa, a pinha de onde extraíram-se os pinhões deve ser guardada para que quando trovejar pôr-se ao lume – é que o fumo produzido não deixa entrar raio, pelo menos segundo as superstições de Famalicão e Leça do Balio.

Como podemos constatar, por esta pequena amostra do imaginário nacional em torno do ciclo do Natal, toda uma panóplia de rituais comunitários e domésticos, marcados pelas superstições populares que derivam, fundamentalmente, de costumes populares, católicos e rurais, continuam a exercer uma força que, apesar de tudo, tem tanto de indiscritível, como de maravilhoso, na história dos nossos sentidos e das nossas emoções durante esta quadra festiva. 

Feliz Natal.

 

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