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Tensão, incerteza e esperança. São estas as palavras que unem os testemunhos de venezuelanos de diversos estratos sociais, recolhidos pelo 24notícias após a captura do presidente, Nicolás Maduro, pelos Estados Unidos.
“Trump e os Estados Unidos já fizeram o mais difícil. Agora, cabe à Venezuela fazer o resto; eles não podem mudar o governo por
nós”, diz Clara, nome falso de uma professora do ensino público. “Esperemos que se consiga fazer uma transição rápida e pacífica”.
Esta tarde, Donald Trump já veio dizer que os Estados Unidos irão administrar a Venezuela por tempo indeterminado para assegurar uma transição de poder estável e duradoura.
Clara não tem dúvidas: “Isto é necessário, caso contrário haverá uma segunda vaga. Devem convocar eleições democráticas, com
candidatos à Presidência e ao Congresso. Depois, perante um Congresso democraticamente eleito, haverá a tomada de posse do novo presidente, que prestará juramento perante todos os representantes eleitos. Os poderes devem ser preenchidos por novas pessoas. Haverá democracia e os Estados Unidos sairão do poder”.
Muitos já celebram em suas casas, primeiro “resguardados e ainda a medo”, depois das declarações do presidente dos Estados
Unidos mais confiantes e à vontade. Há esperança de que “este seja o fim da ditadura que levou o país à miséria”, pelo menos é
isso em que creditam Esther e o marido, avós e já reformados.
Há também quem queira que os Estados Unidos vão mais longe e, além do presidente e da sua mulher, Cilia Flores, “levem os
restantes, que são tão maus ou piores que Nicolás Maduro”, desabafa Éme, que prefere não usar o seu nome verdadeiro com receio de represálias.
“Os hospitais não funcionam, não há médicos e um doente que precise de ser operado tem de levar álcool, gaze e até fio de sutura. Há quem morra pelo caminho”, garante Cristina, que vive numa zona privilegiada de Caracas, a capital, onde é dona de alguns pequenos negócios. “As ruas estão cheias de sem-abrigo, não há água potável, os transportes públicos não funcionam, a
electricidade falha”.
O rol de miséria é alargado, ao contrário dos salários. “Um professor ganha dez dólares mensais, cerca de 360 bolívares; um
frango custa seis dólares, um quilo de arroz ou farinha 1,5 dólares, meia dúzia de ovos ou um quilo de batatas quatro dólares. O povo vive com fome”, acusa Clara. Nove milhões deixaram a Venezuela.
Por isso está feliz, mesmo com um Trump autoritário no caminho: “O que tivemos durante 26 anos destruiu a nossa dignidade, os nossos valores e a nossa economia”. “E a seguir será Cuba, que está prestes a ser sufocada”, acredita.
Ninguém aguenta e todos querem mudar. “Agora só precisamos do regresso de María Corina Machado. Trump actuou com a
desculpa do narcotráfico, não pode fazer muito mais além de apoiar na reconstrução da Venezuela e na captura do Cartel dos Soles”, a rede de tráfico de drogas ligada a altos oficiais das Forças Armadas da Venezuela — um dos grupos criminosos mais poderosos do país, com ligações directas a estruturas estatais.
A Venezuela aguarda “o mínimo sinal” de María Corina e Edmundo González para avançar com as mudanças que “cabe aos
venezuelanos fazer” — os dois são apontados como possíveis líderes de uma transição, que terá o apoio de cerca de 70% dos venezuelanos, e acordo com projecções internacionais.
María Corina Machado já reagiu nas redes sociais: “Chegou a hora da liberdade” para a Venezuela, disse. A líder da oposição e Prémio Nobel da Paz diz que chegou o momento da soberania popular reinar e pede a libertação dos presos políticos e o regresso dos exilados.
Ainda assim, para já reinam a “incerteza”, o “medo” e a “tensão”. O principal receio é de que um “vazio de poder”, após o ataque
militar estrangeiro, traga ainda mais caos e risco para civis, agora dependentes de forças internas e internacionais, enquanto Maduro e a mulher enfrentam acusações do Ministério Público Federal de Manhattan de conspiração por narcoterrorismo, conspiração por importar cocaína e posse de metralhadoras e engenhos explosivos, entre outras.
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