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Traição, chantagem e relações de favor: o caso que opõe Jeff Bezos, o homem mais rico do mundo, à revista de escândalos “National Inquirer”

Este artigo tem mais de 7 anos

Talvez nem toda a gente saiba quem é Jeff Bezos, mas não há quem não conheça a Amazon, que entrega livros, sofás e cavitadores ultrasónicos à porta de qualquer morada do planeta, em 185 países. Sendo a Amazon um sucesso com mais de 600 mil funcionários e cinco mil milhões de entregas domiciliárias em 2017,…

Até agora, ou melhor até há cerca de uma semana, Bezos tinha uma presença discreta nos palcos das vaidades. Casado desde 1993 com a escritora MacKenzie Tuttle, levava uma vida bastante recatada, aparecendo sobretudo em eventos e entrevistas relacionados com o seu negócio.

À parte do sucesso da Amazon, que ninguém esperava e que foi deficitária durante anos, a actividade mais pública de Bezos foi a compra, em 2013, do “Washington Post”, um dos dois jornais mais icónicos dos Estados Unidos (o outro é o “New York Times”). O “Post”, como é familiarmente chamado, tem uma tradição de platina no jornalismo, tendo como ponto alto a cobertura do “Escândalo de Watergate”, que levou à demissão do Presidente Nixon.

Mas o “Post” estava, como a maioria dos órgãos de comunicação social escrita, em sérias dificuldades financeiras, a tentar o difícil equilíbrio de reduzir a redacção sem alterar a qualidade da investigação. A compra de Bezos foi um alívio, porque alguém que vale 20 mil milhões de dólares pode manter um grande jornal (quase) indefinidamente.

A sua primeira preocupação, ao reunir com a redacção, foi afirmar que a independência do noticiário estava assegurada. Segundo vários jornalistas que têm trabalhado no “Post”, Bezos de facto não interfere no editorial, que considera como a sua contribuição para uma sociedade mais democrática. Segundo o “New York Times”, Bezos, depois de comprar o “Post” por 250 milhões de dólares, contratou mais 200 jornalistas (actualmente são 900) e o jornal está com um milhão e meio de assinaturas digitais. Tem recebido prémios pelas suas investigações e é lucrativo há três anos.

Mas a compra do “Post”, que tem uma postura liberal, colocou Bezos na mira de Trump, que o vê como responsável pela crítica constante do jornal – que até mantém um “fact check” diário das mentiras do Presidente (8.158 falsidades nos primeiros dois anos). Para Trump não é concebível que os “ataques” do “Post” não sejam por ordem expressa de Bezos, e tem contra-atacado em inúmeros tuítes contra o jornal e contra a Amazon que, segundo ele, “explora os Correios com custos de transporte bonificados” (Falso. Na realidade, a Amazon tem ajudado substancialmente o deficitário serviço postal.)

No dia 9 de janeiro Bezos e Mackenzie anunciaram que se divorciavam, sem invocar razões e usando a habitual fórmula de que continuam bons amigos. Na comunicação social e viral os únicos comentários foram para o facto de que Mackenzie vai receber metade da fortuna do marido.

Tudo normal e institucional. Até que, a 7 de fevereiro, Bezos, que não costuma escrever em lado nenhum, fez uma publicação bombástica na plataforma Medium, acusando a revista de escândalos “National Enquirer” de o chantagear.

Convém esclarecer a diferença entre as revistas ditas “cor de rosa”, ou do “social” e as revistas de escândalos. As primeiras têm como política editorial não desagradar a ninguém. Qualquer notícia que saia, mesmo de um caso “picante” é com autorização ou consentimento tácito do visado. Não há insinuações, apenas situações, mostradas sem juízos de valor. As revistas de escândalos são exactamente o contrário: publicam exaustivamente notícias inconvenientes para os visados, contra a vontade ou com o desconhecimento dos próprios, para dos leitores de revistas expostas ao lado das caixas dos supermercados. De Tom Cruise ser um extraterrestre às actividades sexuais de Lady Gaga, vale tudo. A maioria dos “denunciados” nem sequer se preocupa em desmentir.

National Enquirer, o jornal que comprou a história de duas estrelas pornográficas para não as publicar

Mas a “National Enquirer” tem um lugar especial no inferno dos difamadores. Também usa o seu poder noticioso (342,071 exemplares em 2016) para objectivos políticos sub-reptícios. Presentemente admitiu cooperar com o Ministério Público, a troco de uma redução de pena, na investigação sobre pagamentos a duas estrelas pornográficas que teriam tido casos com o Presidente Trump.

O director da revista, David Pecker (o Mr. Pecker do artigo publicado por Jeff Bezos), na gíria americana é considerado um “sleazeball” (uma pessoa desprezível), é amigo pessoal de Trump e sabe-se que desde sempre o tem favorecido e protegido no seu “noticiário”. No caso concreto das duas senhoras, Pecker comprou as histórias delas para não as publicar – um processo que se chama “catch and kill”. Quem lhe passou o dinheiro para a mão foi Michael Cohen, o operacional do Presidente que já confessou a operação. O que os tribunais têm agora de decidir é se o dinheiro veio dos fundos da campanha eleitoral de Trump, o que é crime. Também toda a gente quer saber se Trump mandou fazer a transacção ou se foi uma iniciativa de Cohen, o que é pouco provável. Não seria criminoso, mas mais escandaloso para a imagem de Trump.

Então, no meio destes assuntos legais por que está a passar o “Enquirer”, Bezos publica candidamente um relato pormenorizado do que o jornal fez e ameaçou fazer. Uma parte já era pública; na edição posterior ao anúncio do divórcio amigável sem aparente razão, o tabloide publicou uma troca de mensagens de texto comprometedoras entre Bezos e Lauren Sanchez, uma “personalidade da tv”. O bilionário tinha uma amante!, noticiaram. Imediatamente a seguir, Trump, que tem uma tendência irresistível para piorar as coisas, tuitou: “Bozo foi atirado ao chão por um concorrente cujas informações, segundo me parece, são muito mais precisas do que as do jornal lobista dele, o Amazon Washington Post.” (Bozo, que quer dizer palhaço, e é como o Presidente chama Bezos.)

Claro que o tweet reforçou a certeza de que há uma relação política entre Pecker e Trump, precisamente numa altura em que isso não interessa nem a um nem a outro. Isto no dia seguinte a Trump ter dito que não sabia que o “Enquirer” estava a investigar a vida privada de Bezos.

No Medium, o dono da Amazon descreve passo a passo o que se passou: depois da publicação das mensagens, um director da A.M.I. (a empresa proprietária do Enquirer) enviou-lhe um email a sugerir que, se Bezos não declarasse publicamente que o jornal não tinha intenções políticas, publicaria fotografias comprometedoras, inclusive algumas que mostravam as partes íntimas dele e poses eróticas dela.

O argumento do “Enquirer” é que tudo o que se passe com o homem mais rico do mundo é notícia. O argumento de Bezos é que a sua vida privada só a ele interessa. O “Enquirer” justifica-se dizendo que os accionistas da Amazon precisam de saber que o seu maior proprietário troca os pés pelas mãos. Bezos responde que, tendo iniciado o negócio na sua garagem, em 23 anos chegou a um lucro trimestral de dois mil milhões de dólares, portanto os accionistas decerto que não estão preocupados.

Mas porque estaria o “Enquirer” tão preocupado que Bezos dissesse que a publicação das suas intimidades não tinha intenções políticas? Por um lado, porque, face a todo o contexto aqui descrito, é essa a percepção que a maior parte dos americanos tem do “National Enquirer”. E não é só para agradar a Trump. É também para agradar aos sauditas. Mohammed bin Salman é um dos heróis do “Enquirer”, que passa constantemente informação sobre o príncipe, muita dela que se presume oriunda do próprio para promoção da sua imagem pública; o “Post”, que era onde trabalhava o jornalista Jamal Khashoggi assassinado na Turquia, no que a própria ONU já assumiu ter sido um plano perpetrado pelas autoridades sauditas, não poupa críticas ao que se passa no reino. Sabe-se que Pecker tem contactos com os sauditas e está a negociar um investimento para o jornal.

Bezos mandou investigar onde o tablóide obteve o material e chegou rapidamente a Michael Sanchez, irmão de Lauren, que por acaso pertence aos círculos de Trump. Segundo soube o jornal digital “Daily Beast”, Sanchez terá dito que sabia que o “Enquirer” andava à procura de material que “agradasse” a Trump.

À acusação de chantagem, o advogado da A.M.I., empresa do “National Enquirer”, responde que mandou os emails a Bezos não para o ameaçar, mas para negociar “de boa fé”. Negociar o quê? E onde se pode falar de boa fé num mail que faz uma proposta aberta de troca de favores?

“Se uma pessoa como eu não pode defender-se numa situação destas, quem é que pode?” 

Perante a chantagem, Bezos tomou a atitude inédita de contar ele próprio toda a história, incluindo os emails recebidos do “Enquirer”. E disse que ele próprio publicará as fotografias comprometedoras. Arremata com a questão: “Se uma pessoa como eu não pode defender-se numa situação destas, quem é que pode?” Ninguém, de facto, mas a sua atitude já pôs a circular histórias de outras personalidades que teriam igualmente sido chantageadas – e cederam, por não ter meios para se defender.

Segundo Stuart Green, professor de Direito na Universidade de Rutgers, será difícil para Bezos provar judicialmente que foi chantageado, uma vez que a lei define chantagem como algo destinado a obter uma vantagem pecuniária. O benefício que o “Enquirer” teria, não ser considerado como uma arma política do Presidente e dos sauditas, não é mensurável objectivamente. Não será um processo simples.

Contudo, também há a considerar o prejuízo que o “Enquirer” pode ter se deixar de ser considerado efectivamente um órgão de comunicação social.

Bezos não tem sido visto com bons olhos nos últimos anos; correm notícias de que paga mal aos seus empregados, lhes exige trabalho excessivo e metas absurdas de eficiência. Mas, neste caso, a opinião pública está do seu lado: um bilionário que defende um órgão de comunicação social legítimo e prestigiado e expõe as operações obscuras dum tablóide sem escrúpulos.

Não se sabe o que acontecerá; se Bezos sempre publica as suas próprias fotos, ou se mete o tablóide em tribunal. Mas, seja como for, tudo se pode resumir ao tweet de Kristin Kanthak, professora de ciências políticas da Universidade de Pittsburg: “Percebemos que estamos num período lamentável da vida do país quando um milionário que se propõe a publicar fotos das suas partes íntimas é o HERÓI da história.”

 

 

 

 

 

 

 

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