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“É uma obra inteiramente ficcional”. Este é o ponto prévio sublinhado por Patrícia Müller em entrevista ao 24notícias antes de deambular sobre os propósitos e as inspirações que subjazem ao guião da minissérie “O Arquiteto“, em exibição na TVI e na Prime.
Rui Melo, ator principal e arquiteto Tomás Serpa nos ecrãs, secunda a afirmação da argumentista. “É uma obra de ficção, escrita pela Patrícia Müller, uma mulher. Sobre mulheres”, escreveu no Instagram. Ali realçou o alvo a abater. “A mim interessa-me a discussão por oposição ao silêncio. Interessa-me o dedo na ferida. E a denúncia. Sempre”, vincou.
A série “O Arquiteto“ “inspirou-se em factos públicos de um caso que teve muito impacto na sociedade portuguesa nos anos 90”, reforça Patrícia Müller , alinhada com a nota tornada pública pela TVI. “Não falei com ninguém da família. Inventei 90% das coisas. A mulher, (de nome Isabel, casada com Tomé Serpa), é uma personagem completamente ficcionada. Os filhos, (João e Leonor), são ficcionados. Tudo é ficcionado ali à volta, algumas coisas remetem para a realidade. 90%, não”, assegura Patrícia Müller.
Está traçada uma linha de conversa. E fica feito o aviso ao leitor. Qualquer semelhança entre o conteúdo mostrado pela estação televisiva de Queluz e a realidade é, (quase tudo), ficção, embora, as semelhanças sejam inevitáveis. E (quase) reais.
O espectador associará o enredo à figura do famigerado arquiteto Tomás Taveira e ao segredo mais mal guardado nos anos 90: um escândalo sexual com epicentro numa das Torres das Amoreiras, centro comercial saído do traço pós-modernista do também autor do colorido Bairro de Chelas e dos estádios de Alvalade, Leiria e Aveiro, obras que serviram para o Euro2004.
A televisão refresca essa memória de continuados episódios que abalaram a sociedade portuguesa e ultrapassaram fronteiras. Evoca o escândalo protagonizado pelo arquiteto (Tomás Taveira) que gravou vídeos de relações sexuais, pelo menos assim se comentava, com atrizes, famosas do jet set português, empregadas lojas da moda e alunas da Universidade de Arquitetura de Lisboa, onde lecionava, filmadas sem qualquer conhecimento prévio ou consentimento.
Na altura, os conteúdos não virilizavam na internet mas de mão em mão e o conteúdo íntimo da famosa cassete foi reproduzido em vídeo e partilhado em centenas de gravações VHS (e Beta).
O alcance não se limitou Lisboa. Percorreu o país de norte a sul e circulou, por exemplo, no meio judicial algarvio, local onde a justiça não foi cega e vários profissionais da magistratura visionaram a matéria, embora não se saiba o propósito e o desfecho dessas diligências. E chegou a Espanha, levando uma revista espanhola “Interviú” a fazer uma tiragem de 20 mil exemplares (aprendidos pela Polícia Judiciária).
“Senhor arquiteto, isto não está bem, o que é que se passa aqui”
A série estreou-se no passado dia 22 e o fim está marcado para sábado, 27. Seis episódios ao todo já fora do prime-time televisivo (22h30).
Patrícia Müller afasta críticas sobre eventual louvor dos atos cometidos. “As pessoas levantaram-se muito indignadas, referindo ser uma glorificação de um personagem real, dos anos 90, que todos nós conhecemos. Como é óbvio, jamais. Jamais”, assegura.
A série retrata “uma sociedade completamente diferente dos dias de hoje”, refere. “Há todo um contexto dos anos 90. Que nós respeitamos”, assinala. “Foi importante pôr isto nos anos 90”, contextualiza.
“O que tem interesse nesta história, é pegar num tempo onde as coisas eram vividas de uma certa maneira e refletir sobre o que mudou e o que não mudou, o que poderia ter sido e não poderia ter sido”, explica.
Müller cita diálogos e os recados da secretária (Elsa Medeiros) quando, na série, encontra uma das cassetes e interpela o protagonista: “Senhor arquiteto, isto não está bem, o que é que se passa aqui?”, questiona.
É um “não está bem” em jeito de aviso ao arquiteto, com quem trabalha, para os perigos que incorria e para o desrespeito total para com as mulheres com quem se envolvia sexualmente, atos documentados e filmados.
“A secretária com aquele cuidado com o senhor arquiteto … ela sabe quem ele é e ele sabe quem ela é”, afirma a ex-jornalista responsável pelo guião.
“É um bocadinho a voz de 2025. É o #MeToo tímido à portuguesa, um bocadinho tímido. Ela não o leva à polícia, não diz nada, não diz que vai processá-lo”, afirma a guionista.
Na série, o #MeToo é desencadeado pela secretária Elsa Medeiros que descobriu a trama numa fita VHS. Todavia, essa descoberta não se espelha nos acontecimentos reais passados.
“Não faço ideia de como é que isto começou. Isto de ter sido a secretária a encontrar a cassete…inventei!. Não foi ela. É completamente inventado”, confessa Patrícia Müller e reforça o teor ficcional da obra realizada por João Maia.
“Quis criar uma figura tão complexa quanto possível”
Estamos a meio da ficção e as semelhanças com a realidade que teve lugar na Lisboa dos anos 90, quando as imagens que envolviam Tomás Taveira foram trazidas a público pela já extinta revista “Semana Ilustrada”, um acontecimento que marcou uma sociedade que vivia então os anos de ouro da entrada na União Europeia/CEE sob a governação de Aníbal Cavaco Silva.
O léxico e a verbalização metralhada até à náusea ouvida (ou lida, na legendagem) na série recordam, a quem viveu o escândalo na altura, ou viu à posteriori no quarto global da internet, a figura do arquiteto de raízes operárias.
Patrícia Müller aborda as razões da construção da personagem principal, Tomé Serpa. “Quis criar uma figura tão complexa quanto possível”, descreve. “Não queria criar um serial killer, com laivos de psicopatia”, admite.
“Provavelmente, tem esses laivos de sociopatia. Mas não queria criar um homem cuja característica principal fosse uma coisa tão agressiva, tão evidente em que mata pessoas e não sei o quê. Queria criar um homem que, por um lado, é pai, é casado e tem filhos e tem um lado pessoal normal”, acentua.
Mas há outro lado, outros lados, mostrados em fascículos. “Tínhamos visto o manipulador, o mentiroso, o sedutor, mas ainda não tínhamos visto aquele lado agressivo, o lado rufia”, caracteriza, ao referir-se a uma cena e à reação de Tomé Serpa quando vê a filha a ser vítima de bullying.
“Ainda vai haver muito mais coisas, outras versões”, promete. “Só que agora é sempre a cair. Começámos por mostrar uma aparente normalidade, um status quo. A seguir, vamos desfazê-lo, começar a tirar o brilho à coisa, porque a coisa está podre”, adianta.
“Ele é pai, não bate nos filhos e não viola a filha”, assume. “Mas isto é uma montra de horrores muito mais perversa e sofisticada”, detalha.
“Tentei fazer, talvez tenha conseguido, logo me dirá, criar uma autoconsciência nas pessoas. Porque elas sabem quem são e elas sabem o que podem fazer. Não há aquela gritaria de hoje”, refere.
“Há aquela coisa que fica concentrada em famílias, em pequenos núcleos. Depois isto vai espalhar-se pelo país inteiro, como é óbvio”, antecipa. “Agora, o que quis fazer foi criar um mundo de tal maneira pequeno para as pessoas também refletirem um bocadinho sobre o que é o mundo hoje”, compara.
“Imagine ver-se a si numa rede social, o nível de stress de comparação”
Na escrita da série, Patrícia Müller partiu de várias referências que não apenas a do caso Tomás Taveira.
“Vou-lhe contar duas histórias que me inspiraram imenso. Há três anos, na escola do meu filho, uma rapariga de 14 anos decidiu mandar nudes ao namorado. Ele espalhou pelos amigos todos. E a miúda ficou destruída. Destruída”, repete.
Segunda história. “Marcou muito os meus 14 anos, não aconteceu comigo, aconteceu na minha escola. Uma rapariga teve um envolvimento com um rapaz. Não meteu cassetes, fizeram as suas coisas e o rapaz contou tudo à escola inteira”, recorda.“Isto passou-se num meio pequeno e chegou a várias escolas de Lisboa. A rapariga ficou destruída. Completamente destruída. Só pensava, meu Deus. Meu Deus. O que é que se passa aqui, e se tivesse acontecido comigo. Se fosse eu”, interroga-se.
“É assustador. É completamente assustador”, continua. “Isto leva ao suicídio”, alerta ao partilhar mensagens recebidas de pessoas cujas histórias se assemelham à ficção extraída da sua letra. “Recebi uma mensagem de um pai a contar-me que a filha se tinha suicidado por causa de um vídeo sobre ela”.
A conversa resvala para um tema pleno de atualidade. A escritora pega no livro “Geração ansiosa”, de Jonathan Haidt. “Faz umas estatísticas incríveis sobre a saúde mental dos jovens e fez-me imensa impressão”, exprime.
O livro faz a separação dos sexos. “A saúde mental dos rapazes está muito associada aos jogos, ficam horas a jogar. Mas a saúde mental das raparigas está muito associada às redes sociais. Aos Instagrams, aos WhatsApps. Comparam-se com outras raparigas”, adverte.
“Depois há outra coisa. Um vídeo seu, em figuras tristes no sentido de não ser bonito de se ver, íntimo, imagine ver-se a si numa rede social, o nível de stress de comparação, imagine …”, desafia ao pensamento.
“Agora, diga-me como é que isto não pode ser muito mais inspirador e muito mais importante do que o Tomás Taveira em si”, questiona.
“Não me interessa o Tomás Taveira. Foi apenas um peão no meio de uma cultura que temos que combater, explorar e reviver. Porque é um fantasma coletivo”.
Nada move Patrícia Müller contra o arquiteto Tomás Taveira, hoje com 87 anos. Esse é um ponto que deixa claro. Tudo foi escrito para falar sobre o consentimento, ou antes, da falta dele, e do abuso da publicação de atos íntimos.
“É uma história de mulheres que vão atrás de um homem no sentido de repor justiça”
“As partilhas (de vídeos) são uma epidemia, uma epidemia”, vinca. “Eduquem as crianças, eduquem as miúdas, os rapazes. Se calhar, era bom voltarmos um bocadinho a círculos mais pequenos”, sugere.
“As pessoas continuam a achar que tem graça e não impedem, nem educam as crianças para isto”, lamenta.
Pega de caras na mimetização das frases dos anos 90 que ainda hoje sobrevivem ao desgaste do tempo. “As piadas, os memes, Jesus. O que é isto? E vai ao Unas e o Unas diz-lhe ah e tal e aquelas brincadeiras. E penso, está tudo maluco”, descarrega.
Volta atrás na bobine. “Vi os filmes agora. Estão disponíveis no YouPorn. Esta coisa de ah e tal, não sei o quê … quem quiser ver, vai ver. Os filmes, estão lá. Não me venham chatear a mim”, pede, educadamente.
Pega na caraterização do personagem central da minissérie, um famoso arquiteto de vida dupla e obscura. “Há um lado absolutamente ridículo nele. Tudo é muito ridículo, a maneira de falar é ridícula, como trata as mulheres, na maneira como, coitadinhas, estão ali expostas, ah e ui (imita os gemidos), tudo isso tem que ser ridículo”, atesta.
“Se olharmos de perto, os atos físicos podem ser especialmente ridículos e risíveis. Por isso, é que nos rimos das quedas, das parvoíce físicas. É o humor físico. E o sexo pode também ir um bocadinho para aí. Para o ridículo”, alude.
Insiste na ridicularização da personagem representada pelo ator Rui Melo. “Este homem (Tomé Serpa) é profundamente ridículo. Vai ver isto no fim da série”, promete.
“A vingança, chamemos-lhe assim, o payoff e o payback, as duas coisas, acabam por estar unidas no final. E também estiveram unidas numa espécie de karma. Ou de justiça divina. Porquê? Porque o ridículo suplantou o jurídico, neste caso”, manifesta.
“A vida do personagem vai mudar profundamente. Vai ser ridicularizado”, antecipa. “No meio daquela vaidade toda, e por isso também a necessidade de explicar o contexto profissional dele, é um vaidoso, acha-se um intelectual, o maior, um super arquiteto”, conta.
“O problema não foi ter sido apanhado com as cassetes. A isso, até achava graça. E vai ver isso na série. O problema foi ter sido gozado. E é assim que o português resolveu este caso. O português enquanto sociedade”, esclarece.
Se o jurídico não deu resposta até à data, hoje, Patrícia Müller está disposta oferecer uma contrapartida. “Pode escrever, se houver mulheres que se identificam com esta ficção, espero poder dar-lhes algum consolo e algum conforto”, confidencia.
“Verá que isto é uma história de mulheres que vão atrás de um homem no sentido de repor justiça. Isso, basicamente, se pensarmos, seria uma situação ideal, não vou falar em termos morais. Mas de justiça, sim. Portanto, espero que essas mulheres olhem para aquilo e pensem: Epá, na ficção encontrei algum consolo”, espera.
“Este guião foi muito trabalhado com homens”
As primeiras linhas de “O Arquiteto” viram a luz do dia há três anos, mas se tivesse começado hoje, Patrícia Müller não mudaria uma vírgula.
“Sou mulher, não deixa de ser a ironia suprema. Trabalhei com mais uma mulher e dois homens. Tive o cuidado de ouvir. E fiz uma mentoria com um homem”, divulga.
“Este guião foi muito trabalhado com homens. Não foi uma coisa ultra feminista. De todo. E também queria perceber e sair um bocadinho de mim”, revela.
“Fico muito emocionada com este tipo de situações. Magoa-me ver este tipo de descontrolo nas pessoas, a falta de noção do limite do corpo, da intimidade”, assume.“E esta ideia de intimidade está completamente rota”, lamenta. “Rompeu”, exclama. “A intimidade é isso mesmo. É íntimo”, soletra, sem cessar de apontar o dedo a práticas abusivas.
“Se tu e o teu namorado combinarem enviar fotografias um ao outro, até acho completamente possível, mas o teu namorado tem de saber que não é para mostrar a ninguém, é para ficar entre vocês. Se é uma prática que gostam, tem de ficar naquilo que é restrito, como é óbvio”, averba.
“Esta coisa de achar de que está tudo bem, passar por cima da vontade das pessoas. Ah, claro que vou, então não vou, mandar isto para os meus amigos sem ela saber”, range a voz.
“É uma falta de empatia e de cuidado com o próximo. Não entendo”, eleva o tom. “Como é que não se olha para o lado e se pensa: espera aí, gosto desta miúda ou pelo menos fui para a cama com ela, e agora vou mostrar”, pergunta.
“À partida, não há uma segunda série. Fecha-se em si próprio”
As redes sociais entram na entrevista ao 24notícias. Era uma inevitabilidade.
“As crianças não são educadas, são crianças e às vezes não sabem, têm aquele córtex ainda por desenvolver. Mas os pais sabem, e portanto, nós aqui em casa já falámos disto”, conta.
Abre a porta da sua casa e assume-se como “draconiana” entre no círculo familiar.
Dá como exemplo a filha de 10 anos. “Não tem telemóvel, já está avisada para nunca se fotografar e não tem acesso às redes sociais”, resume o exercício do controlo parental. “Só quando vão para a casa dos avós é que se encharcam em Youtubes e porcarias. Mas aí, é como se fosse, um McDonald’s da tecnologia”, descreve.
“Não há redes sociais tão cedo. Nem pensar. Isto é um cancro”, brada. “Só pessoas adultas e com o mínimo de noção é que podem ter, para saberem, obviamente, o que põem e não põem”, expõe o pensamento.
Patrícia Müller informa ter conta em redes sociais e desembrulha uma curiosidade pessoal. “Aconteceu um fenómeno estranhíssimo com esta série, nunca me tinha acontecido. Desde que estreou, a quantidade de seguidores que ganhei, é uma coisa absurda”, comenta, espantada.
“Não sei muito o que é que estão à espera de encontrar no meu Instagram. Não tem ninguém, sou só eu a pôr fotografias, às vezes de biquíni, só para me sentir nova e poderosa (risos), mas fora isso, não tenho muito mais. Tenho trabalho, como é óbvio, ponho, às vezes, umas paisagens, mas não ponho os meus filhos, não faço um relato da minha vida, da minha intimidade. Não existe isso”, alerta.
Patrícia Müller continua a falar da sua personalidade para explicar o porquê da série. “Sou super-ciosa. E tenho um problema, um pânico que se calhar outras pessoas não têm e é mais uma razão pela qual decidi fazer isto (ser argumentista da série). O pânico da exposição, do riso alheio, de ser falada por esta exposição feia, negativa, provocada por mim, de pôr-me ali exposta quase ao ridículo e à sátira”.
A minissérie termina este sábado, 27 de setembro. Esta é uma certeza e, para já, o FIM encerra o capítulo. “À partida, não há uma segunda série. Fecha-se em si próprio”, conclui a conversa, sem esquecer de mencionar a última legenda no fim de cada episódio: O grito de alerta lançado pela APAV – Associação Portuguesa de Apoio à Vítima.
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