Na família de Luís Horta Correia, as salinas já vêm do tempo do seu avô, mas na família da mulher a tradição recua mais uma geração. A indústria salineira cruzou as suas famílias muito antes de imaginarem que se iam casar: o seu avô era proprietário de uma salina cujo produtor era o bisavô da mulher.
“Castro Marim é sal, sempre foi. Quase toda a gente que vive na vila tem, ou trabalha, ou conhece alguém que trabalhe numa salina. Está tudo relacionado com o sal. As crianças nasceram e cresceram a andar e a brincar nos sapais”, conta o produtor da Água Mãe, empresa fundada em 2008.
Além de os romanos já ali se terem dedicado a esta atividade, o foral da vila, datado de 1253, já estabelecia que a principal atividade era o sal e a produção – que se concentra na reserva natural do Sapal de Castro Marim e Vila Real de Santo António – floresceu até às décadas de 1970 e 1980.
“Quando as pescas e a indústria conserveira, que eram os maiores clientes, e também as carnes, começaram a decair, a falir e a fechar, a indústria do sal foi abaixo”, relata, sublinhando que entre 1980 e 2000 praticamente não houve produção de sal tradicional, não só em Castro Marim, como no resto do país.
Porém, no início deste século a produção foi reativada – mas quase exclusivamente no Algarve, que concentra 90% da produção de sal nacional -, muito em parte devido ao facto de se ter conseguido manter o ‘know how’ desta técnica ancestral, acredita Luís Horta Correia.
“Mais do que o mercado ‘gourmet’, o nosso mercado é o biológico. Quando esses mercados começaram a ativar, o sal voltou a ser negócio, mas isso só foi possível porque não se perdeu conhecimento e sabiam-se todas as regras e técnicas antigas”, notou.
No Algarve, a produção de sal concentra-se, na sua maioria, em Castro Marim, Olhão e Tavira, embora nestas duas últimas cidades a produção tenha um cariz mais individual, enquanto em castro Marim os produtores estão agregados numa cooperativa, frisou.
Nas suas salinas, a média de idades dos trabalhadores ronda os 30 a 40 anos, mas à medida que as produções vão reabrindo em Castro Marim vai-se começando a sentir dificuldade em encontrar pessoas para trabalhar.
O trabalho nas salinas é duro: coincide com a época quente e o calor nos ‘talhos’ – pequenas ‘piscinas’ geometricamente escavadas na argila de onde a flor de sal e o sal são colhidos – é quase insuportável, pois é uma zona baixa, onde praticamente não corre vento.
Fisicamente é uma atividade muito exigente, pois o sal e a flor de sal são recolhidos à mão, sem a intervenção de máquinas, o que faz com que praticamente só haja homens na safra.
Com um físico imponente, Mitica Lupu, de 37 anos, trabalha na produção de sal desde que chegou a Portugal, aos 14, e é mestre de águas, ou seja, é o encarregado da produção, cabendo-lhe a responsabilidade de ‘governar’ e garantir a boa gestão das águas.
“Tem algumas dificuldades [o trabalho], além das horas ao sol, mas eu gosto, por isso não acho assim muita dificuldade. Acho um trabalho normal”, diz o romeno, que cumpre agora a sua temporada nesta salina.
A gestão das salinas é um trabalho complexo e dinâmico, pois resulta da conjugação do trabalho do salineiro com a ação das marés, do sol e dos ventos, o que faz com que todos os dias “seja uma descoberta”, revela.
“Cada temporada é diferente da outra, as salinas nunca trabalham por igual. Nunca há um plano de produção, é conforme. A natureza também manda muito”, refere Mitica, confessando ter orgulho no trabalho que faz.
Luís Correia, de 34 anos, nascido em Castro Marim, também começou ainda adolescente a trabalhar nas salinas e vai dizendo que com a idade já lhe vai custando mais, mas a “força de vontade” tudo resolve.
“Ao pessoal com mais idade custa mais. A mim já me vai custando mais”, desabafa, confirmando que é cada vez mais difícil encontrar pessoas para trabalhar no setor.
“Aqui há uns anos esteve quase tudo parado, agora está a arrancar outra vez, mas para encontrar pessoal para aqui… os moços novos fogem logo disto, é muito duro, não ligam muito a isto”, lamenta.
*Por Marta Duarte (texto) e Luís Forra (fotos), da agência Lusa.









