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Segundo a Bloomberg Businessweek, os microchips terias sido inseridos em fábricas subcontratas na China e permitiam permitiam um acesso furtivo a qualquer rede em que estivesse incluído, podendo neutralizar palavras-passe, roubar chaves de encriptação para comunicações seguras, bloquear atualizações de segurança e abrir novos acessos à internet – na prática, controlar o sistema alvo. FBI e CIA não comentaram a notícia, Amazon disse que era falsa, Apple informou que nada tinha encontrado e a China negou qualquer ligação.
Este episódio é contado no livro “Construtores de Mundos” como uma das ilustrações possíveis da guerra tecnológica entre os Estados Unidos e a China pelo controlo da supremacia mundial, mas não é o único.
O mais mediático, também relatado, terá sido protagonizado pela Huawei, empresa chinesa que apostou forte no desenvolvimento de software destinado às redes 5G e que contava obter uma posição privilegiada para estabelecer os padrões que seriam depois adotados em todo o mundo.
A Huawei no centro da guerra tecnológica entre EUA e China
“A 5G constituiu um passo fundamental neste processo porque a conectividade de alta velocidade é necessária para transferir grandes massas de dados de dispositivos industriais para análise de dados e a Huawei tinha o maior número de patentes essenciais para os padrões globais da 5G. A 5G, sigla para a 5ª geração das redes móveis, era o padrão de base que prometia revolucionar as tecnologias da rede móvel ao permitir a conexão de milhares de milhões de dispositivos e transferências de dados a ritmos muito mais rápidos e fiáveis. Está a tornar-se rapidamente a infraestrutura geral sobre a qual conduzimos as nossas vidas quotidianas, não apenas como utilizadores de tecnologia, mas como cidadãos e participantes na sociedade”, é-nos relatado no livro de Bruno Maçães.
Estamos a falar de tecnologia usada e cidades, estradas, redes de transportes e veículos, telemedicina e um sem número de aplicações de empresas com as quais os cidadãos interagem todos os dias. Em consequência do 5G, “as coisas de todos os dias ao nosso redor ficarão ligadas e programáveis”.
Bruno Maçães cita também o editor do New York Times, Bill Wasik, que há dez anos afirmou que, há 10 anos, afirmou que este sistema “transformará o mundo dos objetos quotidianos num ambiente desenhável, num pátio de recreio para os programadores e engenheiros”. Ou seja, o 5G mudou a forma como pensamos sobre a divisão entre o virtual e o físico e, neste momento, falamos já de redes 6G e 7G.
Vale a pena partilhar este excerto de “Construtores de Mundos” para antever o que se seguir:
“A Nokia e a Bosch, por exemplo, veem a transição da 5G para a 6G. como a eliminação da necessidade de os objetos estarem ligados para poderem ser rastreados, o que permitirá que os sinais de 6G funcionem de modo semelhante a um radar, fornecendo aos utilizadores uma consciência das suas imediações para além dos seus sentidos tradicionais. À medida que o número de dispositivos ligados e a quantidade de dados explodem, uma maior partilha de produção da economia global total irá depender de redes de dados globais.
Uma quantidade cada vez maior do mundo físico será controlada por uma rede de comunicação sobreposta a cada processo económico e social. A vulnerabilidade das empresas, indústrias, cidades e mesmo países inteiros a ciberataques disruptivos ou apagões na rede crescerá ao mesmo tempo. Com o advento da 5G, praticamente tudo o que tiver num chip estará ligado a uma rede sem fios. A infraestrutura 5G interconectará fábricas, centrais elétricas, aeroportos, hospitais e serviços governamentais.”
Por tudo isto, não é de espantar a reação que, primeiro os Estados Unidos e depois a Europa, tiveram face ao ascendente tecnológico da Huawei nos anos que precederam a pandemia. A Huawei não só estava muito avançada do ponto de vista tecnológico como conseguia preços substancialmente mais baixos face a competidores europeus como a Nokia e Ericsson “O surgimento da Huawei como líder global da 5G foi recebido não apenas como um desafio económico, mas como uma ameaça de segurança nacional. Ao utilizar a sua mais bem-sucedida empresa a nível mundial, o Estado Chinês não só estaria a saltar para a fronteira da internet, mas também a usar a sua tecnologia. a inovação tecnológica, colocar-se em posição de construir os mundos virtuais do futuro e, em resultado disso, de controlar efetivamente a forma como funcionam ou poderão funcionar”, relata Bruno Maçães.
Entre 2017 e 2019, no primeiro mandato Trump, assistiu-se a uma mudança estratégica que hoje conhecemos como desacoplagem e que significa uma deslocação do foco dos Estados do crescimento económico para o controle económico. Na prática, significa que é preferível gastar mais dinheiro e ter controlo do que comprar mais barato e não ter. É também nesta altura que o nome de Peter Navarro, então diretor de Comércio e Indústria da Administração americana, emerge como rosto da nova estratégia, defendendo que por redes e abastecimento chinesas poderia comprometer a segurança nacional. O mesmo Peter Navarro que assessora agora Trump na chamada guerra das tarifas.
Regressemos a mais uma passagem de “Construtores de Mundos” para uma visita e uma analogia a partir da História de Portugal.
“Há muita coisa no debate contemporâneo sobre a desacopelagem que faz lembrar os velhos combates pelas fortalezas e pontos de estrangulamento essenciais nas vias comerciais globais. O mercador português Tomé Pires disse no século XVI que quem controlar Malaca tem as mãos à volta da garganta de Veneza. A captura de Malaca por Portugal, em 1511, foi um passo importante no impulso para deslocar o comércio das especiarias do Mar Vermelho e do Golfo Pérsico para a rota em torno do Cabo da Boa Esperança até Lisboa. Goa, na Índia, e Ormuz, à entrada do Golfo Pérsico, eram outros pontos de estrangulamento no grande desígnio da coroa portuguesa de controlar as saídas para o Oceano Índico. Como Afonso de Albuquerque, governador da Índia portuguesa na altura, disse, ‘tenho por muito certo que se tirarmos este comércio de Malaca das mãos muçulmanas, Cairo e Meca ficam inteiramente arruinadas e que a Veneza não chegarão especiarias a não ser aquelas que os seus mercadores, indo a Portugal, comprarem’.”
“A geopolítica não consiste na luta por controlar o território, mas por construí-lo”.
Num mundo tecnológico, concluí Bruno Maçães, “a geopolítica não consiste na luta por controlar o território, mas por construí-lo”. E a construção exige um poder informático nunca antes visto que, por sua vez, exige um fluxo interrupto de energia. O que produz o outro grande impacto desta mudança de geopolítica que é a criação de um novo paradigma energético – que, por sua vez, é também um exercício de poder.
Alguns números permitem vislumbrar a ponta do icebergue. Por exemplo, a Goldman Sachs prevê que a China precisará de 500 gigawatts de armazenamento de energia em 2030, um número de 70 vezes maior do que de 2021.
Outros dados: se o Google passar toda a sua atividade de busca para IA, acabará por usar 20 terawatts por ano, o equivalente ao consumo elétrico da Irlanda. Comparando a procura média de eletricidade de uma busca típica no Google, que são 0,3 watts de eletricidade com a do ChatGPT da OpenAI, 2,9 watts por pedido, e considerando 9 mil milhões de buscas diárias, isso exigiria quase 10 terawatts de eletricidade adicional no ano. Cada pedido ao ChatGPT é equivalente a ligar uma lâmpada de 60 watts durante 3 minutos. Isto é quase 10 vezes a média de uma busca no Google.
Tudo isto terá também impacto na procura de várias matérias-primas, como o cobre, o níquel, o cobalto e o crómio. Mais dados que constam no livro de Bruno Maçães: mais de 70% da platina é minerada na África do Sul. 70% do cobalto na República Democrática do Congo. Mais de 60% da grafite natural na China. Quase 50% do níquel na Indonésia. Quase 50% do lítio na Austrália. Na refinação, a China é responsável por cerca de 60% da produção química de lítio, importando crescentes volumes de concentrado da Austrália.
“Nos séculos vindores, em vez de perguntarmos devíamos mudar-nos para um novo país, para começarmos uma vida nova, poderemos perguntar devíamos mudar as nossas vidas para um mundo virtual”, escreve Bruno Maçães. O conceito pode parecer distante, mas, na realidade, já o experimentamos em várias medidas, seja quando aos cirurgiões plásticos é pedido que igualem as definições dos filtros das fotografias do Instagram ou na preocupação com os fundos de espaços que habitamos de forma a serem adequados à sua réplica digital. É um mundo estranho, mas já vivemos nele.
O que nos leva a terminar com mais uma passagem de “Construtores de Mundos”: “Outrora, os homens entregaram o seu pensamento a máquinas na esperança que elas o libertassem, explica a Reverenda Madre no clássico de ficção científica Dune. Mas isso só fez com que outros homens com máquinas os escravizassem”.
