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Hey Donald, isto hoje foi sobre ti

Este artigo tem mais de 9 anos

Os Óscares arrancaram em modo dançável com Justin Timberlake como DJ. Quem pensou que isso era indicador de um “modo ligeiro” para toda a cerimónia, percebeu em poucos minutos que não seria exatamente assim. O anfitrião começou ligeiro mas nunca trôpego e a partir da ovação a Meryl Streep o verdadeiro mote da noite estava dado.…

Ninguém o disse, mas já quase todos o disseram: Donald Trump e a sua política enquanto presidente dos Estados Unidos da América é o grande mote por trás da cerimónia dos Óscares que decorre esta madrugada [hora de Portugal] em Los Angeles. E quem tinha dúvidas sobre que anfitrião Jimmy Kimmel iria ser, já tem, a esta altura, algumas respostas. Kimmel não é MacFarlane, nem Gervais, e não é Billy Crystal, o mítico apresentador da cerimónia em quem confessou inspirar-se. Mas Kimmel chegou ao palco do Dolby Theater com uma mensagem para contar e está a passá-la de forma eficaz, às vezes subtil, às vezes contundente. Mas está a passá-la.

Por trás de cada farpa está a realidade da América de hoje: dividida, indignada, mas sem perder o sentido do espectáculo. E Trump é ele próprio um produto dessa América do espectáculo (ou não fosse ele o anfitrião de um reality show antes de ser presidente).

Também a passadeira vermelha ficou marcada por outra cor, a do azul. A escolha do acessório (e alguns comentários) preconizava já o tom político que a cerimónia viria a ter. O Laço Azul, acessório escolhido por muitas figuras da indústria, tem um forte simbolismo e é em si uma mensagem contra a administração de Donald Trump. A campanha foi lançada pela associação de defesa dos direitos civis, ACLU (American Civil Liberties Union) que trabalha há 100 anos na proteção das liberdades e dos direitos individuais garantidos pela Constituição dos EUA. Encorajados pela associação, Hollywood mostrou o seu apoio e levou o laço ao peito.

Kimmel, pelo seu lado, distribuiu jogo nas várias arenas. Isabelle Huppert, a francesa nomeada para melhor actriz pelo papel em “Ela” (como a deixaram entrar, brincou). Não, Hollywood não discrimina as pessoas pelo lugar de onde vêm, afirmou de seguida. Mas sim pelo peso e pela idade – e refugiu-se num Andrew Garfield.

Ainda nem um terço tinha passado da grande noite.

Mas já tinham existido dedicatórias a imigrantes (“Suicide Squad”, Óscar para melhor caracterização).

Já se tinha falado de fake news – Kimmel falou de fake news. “Qualquer pessoa da CNN, New York Times ou qualquer publicação com a palavra ‘times’ deve sair do edifício”. Comenta Benjamin Lee, o jornalista do The Guardian, que está a acompanhar a cerimónia: “vais ficar muito bêbedo esta noite se jogares ao jogo de um copo por cada piada sobre o Trump”.

E também se deu as boas-vindas a “um presidente que acredita em duas coisas muito raras nos dias que correm: corações e ciências”. Kimmel falava de Cheryl Boone, claro, a presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (que por sua vez usou os seus curtos minutos para dizer que a arte não tem fronteiras, nem obedece a uma só fé).

E, sim, Meryl Streep, essa actriz que Donald Trump decretou como “sobrevalorizada”, foi aplaudida de pé.

Não está mal para aqueles que esperavam pouco de Kimmel.

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