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Na sua única entrevista antes da próxima conferência do clima das Nações Unidas, a Cop30, que decorrerá em Belém, no Brasil, Guterres afirmou ser “inevitável” que a temperatura global ultrapasse a meta fixada pelo Acordo de Paris, alertando para “consequências devastadoras” e para o risco de ultrapassar pontos de não retorno nos ecossistemas da Amazónia, do Ártico e dos oceanos.
“Temos de reconhecer o nosso fracasso”, declarou o secretário-geral. “Falhámos em evitar um aumento acima dos 1,5 °C nos próximos anos. E esse excesso terá consequências devastadoras.” Guterres destacou que fenómenos como a transformação da Amazónia em savana, o degelo na Gronelândia e na Antártida Ocidental ou o colapso dos recifes de coral são agora perigos reais.
O antigo primeiro-ministro português sublinhou que o principal objetivo em Belém deve ser “mudar de rumo” e garantir que o período de excesso de aquecimento seja “o mais curto e o menos intenso possível”, de forma a evitar os tais pontos de rutura ambiental. “Não queremos ver a Amazónia transformada em savana”, afirmou.
A última década foi a mais quente desde que há registos, impulsionada pela queima de combustíveis fósseis — petróleo, carvão e gás —, e, apesar dos avisos crescentes da comunidade científica, os compromissos dos governos continuam insuficientes.
Menos de um terço dos países do mundo — 62 em 197 — entregaram os seus planos nacionais de acção climática. Os Estados Unidos, sob a administração de Donald Trump, abandonaram o processo; a União Europeia prometeu avançar, mas ainda não cumpriu; e a China, maior emissor global, tem sido acusada de falta de ambição.
Segundo Guterres, as contribuições atuais permitiriam uma redução de apenas 10 % das emissões globais, quando seria necessário um corte de 60 % para manter o aquecimento dentro dos 1,5 °C. “O excesso é agora inevitável”, reconheceu.
Apesar disso, o secretário-geral defende que o objetivo não deve ser abandonado. Admite que o aquecimento possa ultrapassar temporariamente a meta, mas acredita ser possível regressar a níveis seguros até ao final do século, desde que se verifique uma mudança decisiva de políticas a partir da Cop30.
Guterres apelou ainda a uma reformulação das conferências do clima, pedindo que a sociedade civil, e em particular as comunidades indígenas, tenham mais voz do que os representantes das grandes corporações. “Sabemos o que os lobbies pretendem: aumentar os seus lucros, com o preço a ser pago pela humanidade”, criticou.
Sublinhou também que a transição para energias renováveis é uma questão de interesse económico, já que “a era dos combustíveis fósseis está a chegar ao fim”. “A revolução das renováveis está em marcha e a transição vai acelerar”, afirmou, acrescentando que parte significativa das reservas conhecidas de petróleo e gás nunca poderá ser utilizada.
Entre os temas da Cop30, o Brasil apresentará o programa Tropical Forests Forever Facility, que visa angariar 125 mil milhões de dólares para a proteção das florestas tropicais. Um quinto desses fundos será destinado diretamente às comunidades indígenas, que conservam as zonas de maior biodiversidade e com maior capacidade de absorção de carbono.
António Guterres destacou precisamente o papel crucial dos povos indígenas como “os melhores guardiões da natureza”. Defendeu que os líderes mundiais devem aprender com esses povos a estabelecer uma relação equilibrada com o meio ambiente: “É necessária uma pedagogia constante junto dos dirigentes políticos, e não há ninguém melhor do que as comunidades indígenas para a ensinar.”
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