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O Grupo VITA continua a sua atividade. Entre maio e dezembro de 2023, “priorizou a definição de procedimentos de atuação, a criação dos primeiros recursos — como o site institucional (e os protocolos para a escuta de vítimas e sobreviventes —, a articulação com diversas estruturas eclesiásticas e entidades da sociedade civil, e a constituição de uma Bolsa de Profissionais especializados e supervisionados, destinada ao apoio psicológico e/ou psiquiátrico das vítimas e sobreviventes que o solicitassem”.
Em 2024, “o Grupo VITA manteve como prioridade o processo de escuta, encaminhamento e acompanhamento das vítimas e sobreviventes, reforçando simultaneamente as ações de capacitação das estruturas da Igreja, com a publicação de mais recursos preventivos”.
Ao mesmo tempo, surgiram roteiros de formação junto das dioceses e foi lançada uma “linha de investigação em parceria com instituições académicas (ISCTE e UTAD), com o objetivo de aprofundar o conhecimento sobre a violência sexual no contexto eclesial e desenvolver programas de prevenção universal da violência sexual, dirigidos a crianças dos 7 aos 9 anos e dos 10 aos 12 anos”.
Já em 2025, “o Grupo VITA consolidou e aprofundou os diversos eixos de intervenção, ampliando o alcance das suas iniciativas e reforçando o impacto social”.
Nesse sentido, “foram desenvolvidos novos recursos preventivos, adaptados às necessidades emergentes, e alargada a colaboração com um número crescente de entidades (nacionais e internacionais). Destaca-se a recente adesão do Grupo VITA a uma Comunidade de Impacto Coletivo, “Junt@s para Cuidar”2 , que reune mais de 40 representantes de diversas organizações, portuguesas e espanholas, unidas com a missão de impulsionar uma mudança social duradoura, exercendo influência a nível social e político”.
O quarto Relatório de Atividades, hoje apresentado, abrange o período compreendido entre janeiro e dezembro de 2025. Saiba aqui quais as principais conclusões do documento e os passos futuros do Grupo VITA.
Quantos contactos?
- Desde o início das suas funções, o Grupo VITA recebeu 850 chamadas telefónicas e foi contactado por 154 vítimas e sobreviventes;
- Também houve contacto por um agressor do sexo masculino;
- Foram ainda registados 43 pedidos de ajuda relativos a situações de violência que não se enquadram na missão do Grupo VITA, que foram encaminhados para as entidades competentes;
- Em outubro de 2025 foi lançado o Projeto Sobre.VIVER, uma iniciativa que procura dar voz às vítimas e sobreviventes. Este é um espaço seguro e empático para a escuta e conta atualmente com a participação de 24 pessoas.
Qual a caracterização das vítimas?
- Foram escutadas 86 vítimas pelo Grupo VITA, maioritariamente de modo presencial;
- Apresentam, em média, 55 anos de idade, sendo maioritariamente do sexo masculino e solteiros. Na altura dos abusos tinham entre os 10 e os 11 anos de idade;
- A maior parte reside na Área Metropolitana de Lisboa ou na região Norte do País;
- Trata-se, em geral, de uma população escolarizada, metade encontra-se profissionalmente ativa e cerca de 20% está reformada.
Qual a caracterização dos agressores?
- A quase totalidade das vítimas identifica o agressor como sendo do sexo masculino e associado a contextos da Igreja.
Quando e onde ocorreram os abusos?
- As situações reportadas ocorreram entre 1955 e 2023, com maior incidência nas décadas de 1960, 1970 e 1980;
- A duração das situações abusivas variou entre 1 e 10 anos para cerca de 45% das vítimas;
- Metade destes casos concentrou-se no intervalo de 1 a 2 anos;
- Os abusos ocorreram sobretudo em espaços religiosos – como o confessionário e a sacristia –, mas também em residências paroquiais, em casa particulares e em contexto de Seminário.
Como eram as situações de abuso?
- Há registo de toques e carícias em zonas erógenas e a manipulação de órgãos genitais;
- As estratégias dos agressores incluíam abuso de autoridade, aproveitamento da relação de confiança e familiaridade, bem como engano, confusão e surpresa.
Quantas vítimas pediram compensação financeira?
- Foram recebidos, até à data, 95 pedidos de compensação financeira;
- 11 destes pedidos foram arquivados (alguns por envolverem outras formas de violência, de natureza não sexual; outros por se referirem a violência sexual praticada por leigos sem qualquer ligação à Igreja; outros porque os denunciantes deixaram de responder ou não apareceram nos agendamentos);
- 63 pedidos foram solicitados por pessoas do sexo masculino e 32 do sexo feminino;
- Já foram entrevistadas 75 pessoas e os 9 pedidos mais recentes estão em fase de agendamento;
- A grande maioria das pessoas já tinha contactado o Grupo VITA. Contudo, 46 pessoas recorreram ao grupo pela primeira vez, motivadas pela solicitação de compensação financeira;
- Até ao momento, 91% dos pareceres foram já enviados à comissão responsável pela fixação das compensações.
E o futuro?
Para o Grupo VITA, Portugal tem “trilhado um percurso positivo rumo a uma Igreja mais segura, consciente e comprometida com a proteção de crianças, adultos vulneráveis e sobreviventes”.
Nesse sentido, “observa‑se uma crescente abertura das estruturas eclesiais ao diálogo, à formação e à adoção de boas práticas, acompanhada pelo apoio consistente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), que tem assegurado autonomia, confiança e colaboração plena”.
“Este progresso demonstra que existe vontade institucional para transformar a cultura organizacional e fortalecer mecanismos de prevenção e resposta. Contudo, apesar dos avanços, persistem desafios estruturais que exigem atenção continuada: a assimetria de poder nas relações pastorais, a perceção sacralizada da figura sacerdotal, a descredibilização das vítimas e sobreviventes, a ausência de estruturas uniformizadas, a falta de prestação de contas e a demora nas respostas”, pode ler-se nas conclusões do relatório hoje apresentado.
Segundo o Grupo VITA, “estes fatores revelam que a mudança cultural ainda está em curso e que a consolidação de ambientes verdadeiramente seguros requer um esforço coordenado, persistente e multidisciplinar. Para enfrentar estas dificuldades, torna‑se essencial reforçar a escuta e a valorização das vítimas e sobreviventes, reduzir desequilíbrios de poder, uniformizar procedimentos e estruturas, garantir accountability e transparência, melhorar a articulação institucional e assegurar maior celeridade nas respostas”.
Para que os objetivos sejam alcançados, o grupo defende que é necessário “um trabalho em rede sólido, contínuo e estruturado, que envolva Comissões Diocesanas, o Grupo VITA, a Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal (CIRP), especialistas externos, comunidades locais e entidades civis. Só uma rede articulada permite partilhar conhecimento, alinhar práticas, evitar duplicação de esforços e garantir que todas as dioceses dispõem de respostas consistentes e de qualidade”.
No futuro, as propostas “passam pela continuidade do apoio especializado, pela expansão da formação e capacitação, pela implementação de centros de escuta e códigos de conduta, pelo alargamento de programas de prevenção a outras faixas etárias, pelo desenvolvimento de estratégias de justiça restaurativa e reparação, bem como pela promoção de investigação‑ação e de uma comunicação ativa e transparente”.
“Mais do que um conjunto de medidas, trata‑se de construir uma cultura de proteção que só se torna possível quando todos os atores trabalham de forma articulada, colaborativa e orientada para o bem comum”, remata o Grupo VITA.
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