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“Uma tragédia lamentável”. É assim que Francisco Oliveira, do SITRA – Sindicato dos Trabalhadores dos Transportes, descreve o que aconteceu com o Elevador da Glória, na tarde de quarta-feira. “Belisca de forma considerável tudo aquilo que é a imagem de uma empresa, além de ter ceifado várias vidas”, começa por dizer ao 24notícias.
Quanto ao que aconteceu, considera que “só o relatório final é que irá dar alguma luz ao fundo do túnel”. Mesmo assim, o dirigente sindical tem algumas teorias. “Há algumas suspeitas sobre a situação. Considero que houve aqui uma falha grave em termos de mecânica, que não se percebe em concreto — e infelizmente estamos agora a ver, pelo que são as notícias mais recentes, que nem o relatório que foi feito no próprio dia detetou”.
Segundo Francisco Oliveira, a Carris “sempre teve algum cuidado com a manutenção, porque estamos a falar de coisas muito sérias, quer seja a nível dos ascensores, dos elétricos normais ou dos autocarros”.
Como trabalha na empresa há mais de 30 anos, o dirigente sindical recorda que, por vezes, alguns funcionários “acabam por não gostar muito desta ou daquela manutenção”, mas ao nível dos ascensores nunca receberam “reclamações disto ou daquilo” por parte dos trabalhadores.
“Não nos chegou nada ao ponto de dizer que a manutenção não é feita, que é inventada, que são feitos registos mas não são feitas manutenções”, acentua.
Mesmo assim, o que aconteceu causa espanto. “Se há um relatório de manhã em que fazem uma avaliação e detetam que está tudo normal, eu não sei se foi bem feito ou se foi mal feito. Sei que é o relatório que está lá — e agora vamos ver se vai existir um relatório policial que vai concluir de forma diferente. Mas é um facto que pelo menos denota uma coisa: existia manutenção e havia cuidado com a manutenção. Se a sua eficácia era real, não sabemos”.
Considerando os depoimentos de quem estava no local, Francisco Oliveira diz que não há dúvidas de que algo falhou relativamente ao cabo que sustenta o elevador.
“A forma de funcionamento daqueles ascensores é, digamos, quase em roldana: um em andamento puxa o outro, da mesma forma que quando um se coloca em andamento consegue travar o outro. Ou seja, o que desce, se tiver de travar por alguma razão, tem mecanismos de travagem e o que sobe a mesma coisa. Mas isto só funciona quando o cabo está normal, quando está a funcionar”, explica.
“Há mecanismos de emergência quando o cabo está a funcionar. Mas não há um mecanismo, que nós tenhamos conhecimento, para quando tudo falhar, inclusivamente o cabo, que foi o que terá acontecido”, acrescenta.
Por isso, é preciso ficar de olho no futuro. “Esperemos que o relatório venha a concluir por um caminho que venha a criar, eventualmente, um mecanismo pós uma situação destas”.
Sobre as possíveis conclusões — os resultados preliminares podem ser conhecidos ainda hoje —, Francisco Oliveira esclarece que nunca se vai falar em “excesso de velocidade”.
“O próprio sistema não permitia. Ou está em andamento ou está parado. E é travado”, realça.
Além disso, a questão da lotação também não será tema. “Nunca foi ultrapassada, ao contrário do que se pudesse pensar, porque o limite são 42 lugares — e entre os óbitos e os feridos nem sequer foi atingido esse número, até porque alguns eram transeuntes que estavam na rua, nem sequer estavam dentro do elevador”.
Não se olha da mesma maneira para os elevadores
Para Francisco Oliveira, o que aconteceu “prejudica não só a Carris, como até a imagem do país. Somos um país atualmente muito virado para o turismo. Há todo um ex-líbris na nossa capital relativo à circulação dos elétricos, dos ascensores, dos elevadores. Por exemplo, o Elétrico 28 é mundialmente conhecido e famoso”.
“Eu sou funcionário da casa, e se me perguntar se eu amanhã entro facilmente num ascensor… certamente não vou entrar com a mesma vontade que entrava no passado. Há sempre receios, há sempre preocupações naturais. Portanto, as pessoas de fora irão olhar com natural desconfiança para tudo aquilo que é o funcionamento dos transportes”, afirma.
Neste sentido, considera que “só é compreensível a decisão da empresa em mandar suspender no imediato o funcionamento de todos os ascensores da cidade com essa preocupação, porque é importante dar um sinal às pessoas que há preocupação e há fiscalização”.
Assim, “independentemente daquilo que efetivamente venha a ser identificado, as pessoas têm de sentir confiança. Às vezes, como diz o ditado, à mulher de César não basta sê-lo, é preciso parecê-lo. Não adianta uma empresa pregar que é séria, que é responsável, tem de dar sinais disso”.
Uma tragédia nos transportes como Lisboa nunca viu
O país tem assistido a vários acidentes mortais ao longo dos anos, mas ao nível de transportes Lisboa tem poucos casos a registar — e nenhum desta dimensão.
“Não é um acidente qualquer. Acho que nem os incêndios de Pedrógão tiveram o impacto que isto está a ter. É a cidade, o tipo de transporte, a empresa, as vítimas de várias nacionalidades que mostram aqui a face do turismo. É toda uma conjugação”, realça Francisco Oliveira.
Em Lisboa, ao nível da Carris, o dirigente sindical recorda um caso que provocou algum impacto visual, embora sem vítimas mortais. Em 2018, “um elétrico tombou de forma lateral, a descer a Lapa. Aí confirmou-se que o motorista não adotou as medidas que devia ter adotado, entrou em excesso de velocidade”. Neste acidente, 28 pessoas ficaram feridas.
Anteriormente, em 2015, um autocarro da Carris chocou com um automóvel ligeiro no cruzamento da Avenida de Berna com a Avenida da República. “Houve um óbito direto, um colega nosso que estava a conduzir o autocarro durante o serviço da madrugada. Os autocarros mais antigos não têm cinto. Ele foi projetado e caiu dentro do túnel”.
Apesar de tudo, nenhum dos casos “chega a ter esta dimensão” do Elevador da Glória. “Com este impacto nunca aconteceu. E nem há memória para trás. Foi muito forte. É um marco muito triste”, remata.
