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“É melhor ser alegre do que ser triste”

Este artigo tem mais de 10 anos

É impossível não gostar de Nicolau Breyner. Porque é solar, admiravelmente bem disposto, e tem aquele olhar de menino mimado e malandreco que entorna as mulheres e não chateia os homens. Logo tinha de morrer agora, neste período em que têm morrido tantos apoios morais do colectividade. Mas teve sorte, foi uma morte rápida, apopléctica,…

Teve inimigos? Terá tido, como toda a gente, mas talvez menos do que toda a gente. Era difícil não gostar da sua rabugice, não apreciar os muitos amores incendiários e rápidos – casou e descasou cinco vezes, fora as ameaças – não desdramatizar as origens latifundiárias e a opção política (muito passageira) pelo CDS.

É que para cada senão, Nicolau tinha um ‘sessim’. Gostava de touradas (ui!), ramboiadas, bebedeiras e outras impertinências politicamente incorrectas, mas também era generoso, pai extremoso e incentivador benemérito dos jovens chegados à profissão com mais ambição do que talento.

Teve um papel incontornável no teatro, no cinema (mais de 40 filmes) e na televisão, como actor, produtor, encenador, director e empresário. Azar aos negócios, sorte na vida. Mesmo as mais negras maledicências passavam por ele como se fosse revestido de Teflon, porque os cozinhados nunca chegavam a pegar; levantava fervura, punha em banho Maria e, quando parecia que o caldo estava entornado, já ele estava noutros cozinhados.

Inegavelmente – e o público veio a descobri-lo tarde, mas não tarde de mais – era um excelente actor, versátil e convincente, que se prestava à comédia desabrida como ao dramalhão, tanto fazia de bondoso reitor das pupilas (grande papel!) como de patife sem escrúpulos.

Filho de proprietários falidos de Beja, veio cedo para Lisboa e cedo ganhou versatilidade nas amizades, que pela vida fora foram dos meninos da fidalguia aos excluídos das periferias, entre touradas e luta livre, noitadas no Caruncho (exclusivo, na época) e no Cantinho dos Artistas (inclusivo, na mesma época), intelectuais – amigo de Natália Correia, David Mourão-Ferreira, etc – e comediantes de vaudeville.

O pai, que foi Presidente do Grémio da Lavoura (e os do ancien regime sabem o peso que isto tem) também ensinava filosofia e aceitou bem que o filho único entrasse no Conservatório. Lá lhe disseram que seria actor dramático e estreou (no Trindade) com os monstros sagrados da época, Eunice Muñoz, Carmen Dolores, Canto e Castro. Mas cedo lhe fugiu o talento para a comédia, com a deusa Laura Alves e os olímpicos (de Olimpo) Vasco Santana e António Silva.

Dez anos de teatro, praticamente desconhecido, a fama veio com a televisão, onde pode exercer à vontade a sua extraordinária versatilidade. Brevemente ostracizado no PREC, depressa a sua bonomia e leveza ideológica lavaram o preconceito, e ei-lo na ribalta, com o imensamente popular “Sr. Feliz e Sr. Contente”.

Fez-se produtor e empresário de tv e durante anos só aparecia na televisão. Em coisas tão diferentes como “Gente fina É Outra Coisa” e “Vila Faia” (ambas de 1982). Ainda teve tempo para contrair e sarar de um cancro e, no ano passado, iniciar uma academia de actores. Em 2010 Sarah Adamoupolos escreveu-lhe uma excelente biografia “É melhor ser alegre do que ser triste”. A frase diz muito da personalidade exuberante de Nico e da sua postura na vida. Perdemos um grande actor, e também perdemos um amigalhaço. Felizmente, está tudo gravado para a posteridade que ele merece.

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