• Atualidade
  • Economia
  • Desporto
  • Vida
  • Tecnologia
  • Local
  • Opinião
Mais

Como um anúncio pôs as Havaianas no centro da “guerra cultural” brasileira

Durante décadas, as Havaianas foram um raro ponto de consenso no Brasil, um produto usado por todos, sem distinções sociais ou políticas. Mas bastou uma campanha publicitária para quebrar essa unanimidade e transformar o “chinelo” mais famoso do país num símbolo de polarização.

Acompanhe toda a atualidade informativa em 24noticias.sapo.pt

Criadas no Brasil nos anos 60, as Havaianas nasceram como um produto simples e acessível, inspirado nas sandálias tradicionais japonesas zori, feitas de palha de arroz. Nasceram em 1962, com a missão de serem práticas, duradouras e acessíveis. Durante décadas, foram talvez o calçado mais democrático do Brasil, usado indistintamente por trabalhadores, artistas e socialites, tanto na praia como no quotidiano urbano.

A grande viragem aconteceu nos anos 90, quando a marca deixou de ser apenas funcional e passou a investir em moda, comunicação e distribuição estratégica. As campanhas com figuras mediáticas como Daniella Cicarelli e Fernanda Lima deram um novo estatuto ao produto, enquanto novos modelos, cores e formatos alargaram o público-alvo.

A partir dos anos 2000, as Havaianas ultrapassaram definitivamente o rótulo de beachwear, e entraram no universo da moda global através de colaborações com marcas como Missoni, Valentino, Dolce & Gabbana e Swarovski.

Estavam nos pés de celebridades como Jennifer Aniston, Angelina Jolie ou Hailey Bieber, apareceram em editoriais da Vogue, desfilaram em passadeiras vermelhas (incluindo Cannes) e ganharam flagship stores em Paris, Nova Iorque e Tóquio. Um produto que custava poucos reais no Brasil passou a valer centenas de dólares no mercado internacional, sem abdicar da sua identidade “very Brazilian”.

Porque é que voltaram a estar no centro da conversa?

O capital simbólico foi recentemente posto à prova com uma campanha de fim de ano protagonizada pela atriz Fernanda Torres, que desencadeou uma onda de críticas e apelos ao boicote por parte de partidos à direita no Brasil. Provavelmente, há uns dias saltaram com o “pé direito” como manda a tradição, e o problema começa precisamente aí.

“Não comece 2026 com o pé direito”. No anúncio, Fernanda Torres afirma não desejar que as pessoas entrem em 2026 “com o pé direito”, preferindo desejar que comecem o ano “com os dois pés”, numa mensagem de incentivo à ação plena. A frase, interpretada por muitos como um apelo motivacional genérico, foi lida por políticos, influencers e militantes conservadores como uma mensagem política de esquerda.

Deputados bolsonaristas como Nikolas Ferreira, Eduardo Bolsonaro e Rodrigo Valadares acusaram a marca de misturar publicidade com ideologia e incentivaram a substituição das Havaianas por produtos concorrentes. Nas redes sociais, multiplicaram-se críticas ao alegado viés político da empresa, enquanto influencers alinhadas à direita reforçavam o boicote.

Segundo a imprensa brasileira, a polémica teve impacto imediato no mercado financeiro, com perdas significativas em bolsa. A Alpargatas, dona da Havaianas terá perdido 23 milhões euros em bolsa após anúncio que provocou boicote da direita. Até à data, nem a marca nem a atriz comentaram oficialmente a situação.

Embora a empresa tenha procurado, nos bastidores, distanciar-se de leituras políticas ou ideológicas, o episódio reacendeu o debate sobre o papel das marcas globais em temas sensíveis e sobre o risco reputacional num contexto de consumo cada vez mais consciente e polarizado. Para uma marca construída em torno de valores como leveza, diversidade e inclusão, a polémica ilustra como a perceção pública pode mudar rapidamente e como o silêncio ou a ambiguidade podem ser interpretados como uma forma de posicionamento.

Copenhaga descobriu o que o Brasil sempre fez

Enquanto enfrenta contestação ideológica no Brasil, as Havaianas continuam a consolidar-se em mercados internacionais, com destaque para os países nórdicos e, em particular, para a Dinamarca.

Durante a Copenhagen Fashion Week, as sandálias surgiram combinadas com alfaiataria oversized, vestidos fluidos e sobreposições minimalistas, sendo rapidamente rotuladas como parte do chamado Copenhagen Way. O conceito descreve a estética escandinava que transforma conforto em fashion statement, misturando peças simples com cortes sofisticados e tons neutros.

No fundo, trata-se de uma releitura daquilo que o Brasil faz há décadas: elevar o casual sem esforço, com naturalidade e confiança. A diferença é que, em Copenhaga, isto surge como tendência; no Brasil, sempre foi rotina. O sucesso das Havaianas nos países nórdicos mostra como a marca conseguiu traduzir um ADN cultural próprio para diferentes geografias e como, mesmo em meio de polémicas políticas no país de origem, o produto continua a caminhar firme no mercado global.

___

A sua newsletter de sempre, agora ainda mais útil

Com o lançamento da nova marca de informação 24notícias, estamos a mudar a plataforma de newsletters, aproveitando para reforçar a informação que os leitores mais valorizam: a que lhes é útil, ajuda a tomar decisões e a entender o mundo.

Assine a nova newsletter do 24notícias aqui.

Veja também

Em Destaque

Últimas