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Em muitos países, os presentes de Natal aparecem dentro de uma meia pendurada na lareira, numa janela ou aos pés da cama das crianças. Em Portugal, a expressão “pôr o sapatinho na chaminé” ouve-se todos os dezembros pelas casas de Norte a Sul . Mas, de onde vem esta tradição?
São Nicolau e a origem da meia de Natal
A explicação mais conhecida remonta a São Nicolau, bispo que viveu no século IV, na cidade de Mira, na Ásia Menor — atual Demre, no sul da Turquia. Nicolau era conhecido pela sua generosidade e pelo hábito de ajudar os mais pobres de forma discreta, sem procurar reconhecimento.
A lenda mais célebre conta a história de um homem pobre com três filhas que não conseguia pagar o dote necessário para que se casassem. Para evitar que as jovens tivessem um futuro de miséria, São Nicolau decidiu ajudá-las em segredo: durante a noite, atirou pela chaminé sacos de ouro que acabaram por cair dentro das meias que estavam penduradas junto à lareira a secar. Graças a esse gesto, as filhas puderam casar e a história da dádiva anónima espalhou-se.
É desta narrativa que nasce a tradição de pendurar meias ou deixar sapatos à espera de presentes e também o costume de encontrar moedas (ou, hoje, chocolates) no fundo da meia.
Da moeda de ouro à tangerina
Durante muitos séculos, moedas verdadeiras eram um luxo raro. Em grande parte da Europa, frutas como tangerinas ou clementinas tornaram-se um substituto simbólico das moedas de ouro. Até há cerca de 50 ou 60 anos, estes frutos eram considerados especiais e pouco comuns no inverno, o que reforçava o seu valor como presente.
Hoje, a tradição mantém-se sobretudo sob a forma de chocolates embrulhados em papel dourado, que continuam a ocupar o fundo da meia de Natal.
Sapatos à porta e presentes nas botas
A meia não é o único “recipiente” natalício. Em vários países europeus, como os Países Baixos, Bélgica e algumas regiões da Alemanha, as crianças deixam sapatos ou botas junto à porta ou à janela na noite de 5 para 6 de dezembro, véspera do Dia de São Nicolau. Acredita-se que “Sinterklaas” — a versão local do santo — deixa doces e pequenos presentes, enquanto as crianças retribuem com cenouras ou feno para o cavalo que o acompanha.
Este costume terá influenciado outras tradições europeias, incluindo a portuguesa.
Crispim e Crispiniano: outra história de generosidade
Há também uma narrativa menos conhecida, mas igualmente simbólica, associada à origem do sapatinho. Diz-se que, no século III, dois irmãos cristãos — Crispim e Crispiniano — fugiam da perseguição romana quando pediram abrigo numa cabana pobre, onde vivia uma mulher com o filho descalço.
Durante a noite, os irmãos fizeram à mão um par de sapatos para a criança e deixaram-nos junto à lareira. Na manhã seguinte, a família encontrou os sapatos cheios de comida e roupa. A história reforça a ideia central do Natal: mesmo quem tem pouco pode sempre dar alguma coisa.
Do mito à tradição moderna
Ao longo do século XIX, a meia de Natal consolidou-se como tradição popular, especialmente no mundo anglo-saxónico. Em 1823, o poema A Visit from St. Nicholas (“The Night Before Christmas”) imortalizou a imagem das meias penduradas na chaminé “com cuidado”. Mais tarde, surgiram meias decorativas, feitas de feltro vermelho, pensadas especificamente para os presentes.
O que começou como um gesto de caridade anónima transformou-se, assim, num ritual familiar que atravessou séculos, fronteiras e culturas.
Hoje, seja numa meia pendurada, num sapato junto à lareira ou debaixo da árvore, a tradição mantém o mesmo espírito: o de dar, de partilhar e de lembrar que o Natal é, acima de tudo, um tempo de generosidade.
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