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“Manda mensagem quando chegares a casa” é uma frase que é comummente repetida entre grupos de raparigas. Uma mensagem de cuidado e de preocupação, mas que por trás encerra violência. Este é ponto de partida e o título deste livro editado pela Iguana. A autora, a artista plástica RGB, lembra que é uma frase “daquelas que já dizemos sem pensar, não é? Dizemos sempre porque sabemos que há um perigo latente, iminente, uma espécie de uma sombra que nos segue sempre. portanto temos que ser nós a cuidar umas das outras. Nunca uma amiga se despede de outra sem ter a certeza que essa pessoa chegará a casa, seja quando entra num táxi sozinha à noite, quando vai de carro sozinha para casa, ou quando está a pé nas ruas da cidade ou num outro qualquer sítio. Mas nós já fazemos isso sem pensar, mas claro que isso tem uma razão por trás que é bem importante. Se pensarmos nisso, sabemos o porquê de o fazer.”
A razão do porquê de se fazer isto foi o que impeliu RGB a fazer este livro, uma instalação em forma de livro cujas páginas servem para ser identificáveis por qualquer mulher que o veja. “Eu já não sei exatamente qual foi a situação que deu a ideia para o livro, mas lembro-me que comecei por uma série de desenhos, acho que foi uma coisa tão simples como ir a comer uma banana na rua. A tal coisa de comer um calipo, uma banana, etc.” É para estas banalidades do dia-a-dia que os rapazes fazem sem pensar e a que as raparigas têm que ter sempre atenção, que o livro foi feito.

“Comecei por esses pequenos desenhos, depois fui-me lembrando de coisas que ouvia quando era pequenina, como “não te sentes com as pernas abertas”, “não te sentes assim”, aquela questão de manter a compostura, mas parece-me que só metade da população mundial tem direito a não manter. E foi isso, comecei por essa série de simples desenhos, uma coleção de simples desenhos, situações do dia-a-dia, mas que não são tão simples como parecem”.
As ilustrações deram origem a momentos de partilhas com as amigas que deram origem a mais ilustrações. As amigas diziam que se reconheciam naquelas histórias, e partilhavam mais outras e à medida que o livro foi avançando foi “introduzindo algumas histórias mais traumáticas, mais violentas. Aí sim, uma intensa roda de partilha que se formava sempre que falava sobre o livro. Havia sempre mais uma história grotesca a acrescentar, com mulheres em outros países, de outras nacionalidades. E cada uma delas partilhava uma nova história que se assemelhava àquilo que nós tínhamos também vivido.”
“Violento” e “grotesco” parecem ser os adjetivos para classificar uma história que RGB escreve no livro e que, à semelhança das outras “é mesmo uma história real”.
“Estudei numa escola pública, em Lisboa. Subia para a escola do Metro com uma amiga e todos os dias, às oito da manhã, lá estavam à nossa espera os homens a masturbar-se. Eles sabiam que as crianças passavam ali todos os dias àquela hora. Sabiam que entrávamos àquela hora, então, todos os dias tínhamos que dar uma volta muito maior e demorávamos mais tempo, correndo risco chegarmos atrasadas, ou fazíamos aquela rua, mas já sabíamos que tínhamos que ir sempre a correr, não fosse algum deles a deitar-nos a mão ou a fazer qualquer coisa.”
Depois de partilhar a história, atira um “naturalmente aprendemos a viver com aquilo”. Para de seguida refletir no que disse, “uma estupidez, não é? Como é que se normaliza isto? Mas nós ríamos e fugíamos e nunca me passou pela cabeça que, de facto, poderia ter acontecido alguma coisa pior.”
Este raciocínio da artista é semelhante ao que acontece quando folheamos o livro, passamos as imagens de um trago só, mas depois há necessidade de voltar atrás, analisá-las e refletir sobre elas. RGB explica que esse é o objetivo, “a mensagem era essa. Nós vamos normalizar aquilo que não deve ser normalizado. Eu acho que hoje em dia já se olha para as coisas de maneira diferente. Eu tenho amigas que me dizem que mostram o livro às filhas e aos filhos. Também é preciso ir tocar os rapazes nesse sentido. É mesmo muito importante.”

Sem querer ser moralista reforça a ideia de que há coisas que estão tão enraizadas na sociedade que é mesmo necessário forçar esta conversa. “Há coisas que há 20 ou 30 anos não tínhamos, não éramos tão rápidas a observar, ver e perceber. A mensagem é um bocadinho essa. Isto continua a acontecer. Então, vamos lá receber esta mensagem, processá-la e perceber o que é que temos de fazer para isto não voltar a acontecer. Para não perpetuar este tipo de situações. Que eu acho que ainda acontecem, infelizmente, daquilo que ouço. Ainda acontecem tal e qual hoje em dia”
No fundo, o livro é um reflexo dessa vontade de agir, e de revisitar o que é ser mulher. “É um livro sobre violência, sobre violência de género e é um livro sobre as pequenas e enormes violências às quais estamos sujeitas todos os dias. Muitas delas normalizadas pela sociedade e por nós próprias. Temos também que aprender a reconhecer essas violências e a desenraizá-las de nós. Temos que nos defender.”
Nas últimas páginas do livro abre-se uma acendalha de esperança, que segundo a artista refletem “que o feminismo que interessa não pode ser dissociado de outras lutas. A luta antitransfobia, a luta antirracista, a luta anticolonialista, e era isso que queria passar.”
E volta à ideia que alimenta o livro todo, a noção de comunidade e de sororidade, “o feminismo não faz sentido se não incluir todas as mulheres, se não incluir toda a gente e se não lutar também por uma educação dos filhos, dos rapazes, das crianças que nascem rapazes. Tudo isso não pode ser dissociado da nossa luta e se não houver esse sentido de comunidade, de solidariedade, não conseguimos.”
Embora o livro não aborde o assunto, a questão dos rapazes é essencial para RGB. “Isso daria todo um outro livro”, “tem que haver proativamente uma educação dos rapazes no sentido de os sensibilizar para que não sejam veículos desta violência, muitas vezes até sem se aperceberem. Não quero aqui desculpar de forma alguma as ações, mas são educados para tal. Como nós somos educadas para normalizar tudo desde que nascemos.”
Lembra as frases que se vão ouvindo a crescer, como “tu és forte, tu és inteligente” para os rapazes e “tu és bonita” para as raparigas. “Para nós conta desde sempre a maneira como nos comportamos, o nosso físico, a nossa poesia, a nossa compostura e para eles interessa a sua força, a sua inteligência, a sua destreza. Enquanto nós fomos condicionados desta forma a partir do momento em que nascemos, também isso fica profundamente enraizado neles, é muito difícil.” E, mais uma vez, sem nunca o dizer, passa a ideia de que o livro não tenta ser moralista “até para mim, que sou uma pessoa muito consciente, com muita terapia em dia, com os olhos bem abertos para estas questões, é difícil desconstruir esses momentos, eu nem sempre me apercebo daquilo que está a acontecer.”
De futuro acredita que só em comunidade se vai conseguir uma mudança. “Acho que também isso é percetível olhando para o mundo. Hoje em dia há essa nota, não há pessoas sem comunidade, sem empatia e sem nos agregarmos umas às outras e ajudarmos-nos mutuamente. E era mais ou menos essa a mensagem que eu queria passar.”, reforça.
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