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“Ainda se toca Paredes e muito mais”. O legado da guitarra, 100 anos depois

Cem anos após o seu nascimento, o nome de Carlos Paredes continua a ecoar nas mãos de jovens guitarristas, que em pouco tempo perceberam que juntos podiam prolongar uma tradição e reinventá-la. O 24notícias foi a Coimbra, onde tudo começou, conhecer a herança de Paredes, e descobrir, nos serões improvisados, um terreno fértil para a…

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Carlos Paredes nasceu em Coimbra em 1925, filho de Artur Paredes, o grande mestre da guitarra. Foi nesta cidade e no ambiente académico que o jovem guitarrista iniciou o seu percurso de artista, num convívio de tradições onde a poesia e a canção se entrelaçavam com a vida estudantil. Coimbra era, para Paredes, mais do que berço: era a raiz de uma sonoridade que moldaria toda a sua obra.

A sua música, ao mesmo tempo íntima e viajada, nascia dessa ligação profunda às origens. A guitarra era a sua arma de disrupção e liberdade e a intensidade com que projeta o som são marcas da obra de Paredes, que só seriam possíveis pela forma intensa como, influenciado pelo pai, se apaixonou pelo instrumento.

O 24notícias conversou com Luísa Amaro, guitarrista e companheira de Carlos Paredes, que lembrou como o músico “tocava como quem falava, como quem contava histórias”, tornando-se um símbolo maior da cultura portuguesa do século XX. Coimbra foi o espaço onde encontrou a linguagem que mais tarde partilharia com o mundo, e que hoje serve de inspiração a jovens guitarristas comprometidos com a projeção da Canção de Coimbra.

A cumplicidade como arma de criação 

Num ensaio à volta de uma mesa, juntaram-se quatro rapazes, a tocar um repertório novo. Em conversa, confirmaram que a geração de guitarristas que agora se afirma espelha a premissa de Paredes: há uma vontade coletiva de compor, partilhar e desafiar o grupo, por respeito ao som da guitarra. “O Carlos Paredes dizia sempre, ‘meus amigos não toquem aquilo que eu faço, criem o vosso próprio reportório, e estes jovens têm seguido isso muito bem’”, comenta Luísa Amaro.

É o caso de Guilherme Ala, guitarrista e estudante de doutoramento, que toca pelo país, com grupos distintos. O jovem acredita que criar é uma arma, e “a melhor homenagem que se pode dar ao Zeca Afonso, ao Luiz Goes, ao Carlos Paredes, ao Artur Paredes, e inclusive à Luísa Amaro, não permitindo que o seu trabalho se torne um quadro no museu”. Antes de tudo, diz, “isso passa por ser capaz de não tocar só os seus temas, mas criar os nossos”.

“Há uma coisa única em Coimbra”, diz Eduardo Neves, ex-estudante de Coimbra e músico, ao 24notícias. “Não é só a universidade, é o ambiente que a rodeia: as repúblicas, as serenatas, a vida cultural intensa. Tocamos juntos em momentos recreativos, e dessas experiências nascem músicas que nunca teriam acontecido de outra forma”.

“A guitarra além do virtuosismo de Coimbra”

No fundo, o que estes jovens se propõem a fazer é reiventar a Canção de Coimbra, com uma sonoridade completamente diferente. Fazem-no por gosto, e essa é a regra. O mais bonito é já não saberem se estão a compor ou apenas a prolongar uma conversa musical entre amigos.

Francisco Zagalo, professor no Instituto Superior de Engenharia de Coimbra, é o primeiro guitarrista desta geração a publicar um CD de originais, que estreou no ano passado. O seu trabalho mostra que não se trata apenas de repetir um repertório histórico, mas de lhe acrescentar novas peças: “No início era só para os escolhidos, nós nem pensávamos que era possível criar música. Mas depois do primeiro passo, tudo é possível”.

Tal como outros estudantes que passaram pela Secção de Fado da Associação Académica de Coimbra, Francisco tem a escola de Artur Paredes, estudada e eternizada na linhagem de músicos de Coimbra por mestres como Jorge Gomes, António Brojo, António Portugal e Francisco Martins. Mas a técnica não é um entrave à celebração da Canção. Apesar de “não ser um virtuoso”, como refere, o brilho nos olhos, quando fala sobre os projetos que está a desenvolver, denunciam a dedicação e entrega do professor ao instrumento.

Questionada sobre a geração de guitarristas mais novos, Luísa Amaro recorda como, quando era jovem, a exigência e genialidade de Artur Paredes se tornavam desafios estimulantes para os jovens guitarristas que, à época, se afirmavam como admiradores do fado. Mas foi Carlos Paredes quem lhes ensinou a sentir verdadeiramente cada palavra, e descobrir “a guitarra além do virtuosismo de Coimbra”, abrindo um caminho de inúmeras possibilidades.

“Carlos Paredes abre uma quantidade de caminhos, onde de certa forma explica que se podia ir além da tradição, tão bem criada pelo pai”, explica, elogiando a modernidade e a linguagem criativa com que Paredes reinventou o instrumento, e, “num percurso solitário”, se individualizou como músico no panorama nacional.

“É isso que queremos”, conclui Francisco Zagalo. “Honrar quem veio antes, mas abrir espaço para cada um fazer o seu próprio percurso, a sua própria música, e assim cimentar muito mais facilmente um legado como guitarrista”.

Não há limites à criatividade

Simão Mota, também músico e estudante de Direito na Universidade de Coimbra, tornou-se uma referência a nível nacional, pelo trabalho de recolha, estudo e interpretação do repertório de Coimbra. Em entrevista ao 24notícias, corrobora a ideia de que é necessário aproveitar o privilégio de viver na cidade neste momento para criar novas narrativas na Canção de Coimbra: “Temos a sorte de conseguir conviver e combinar o trabalho das gerações chamadas ‘lendas vivas’, como Otávio Sérgio, Jorge Tuna, Humberto Matias, Rui Pato, com o nosso trajeto individual”.

Para Luísa Amaro, Simão “é um exemplo de libertação e conhecimento”,  que hoje se afirma com o seu próprio nome, e não como “tocador de Carlos ou Artur Paredes”.

Entre os diferentes projetos que participa, o músico já fez várias atuações no estrangeiro e em representação de Portugal, nomeadamente com o grupo Quarteto de Coimbra, iniciando agora uma nova fase de composição de originais.

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Foi também o que fez Ana Sadio, médica e guitarrista, “a primeira mulher a ter aulas de guitarra em Coimbra”. A pressão e o preconceito por ser mulher não a impediram de continuar a tocar, e hoje permite-se “brincar com as cordas e o público”. Do folclore à música de intervenção, a guitarra de Paredes ganha nova vida nas suas mãos.

O projeto mais recente da guitarrrista junta quatro mulheres e um coro de homens, e a guitarra é o centro das atenções. Toca e canta ao mesmo tempo, improvisa e domina a música, acompanhada do violino, piano e violencelo. A Alma de Coimbra é prova que o legado se transforma, e que a mulher tem lugar no Fado de Coimbra.

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“Eu prefiro ouvir uma pessoa, seja homem ou seja mulher, que toque com alma”, exclama Luísa Amaro, ao que Guilherme Ala acrescenta: “Eu ouço dizer canta desde que cantem bem. Eu acho esta frase ridícula. CANTEM! É só isso”.

A herança de Paredes, a liberdade dos novos

A figura de Carlos Paredes continua, assim, a pairar sobre todos, como mestre e referência incontornável.  “O Paredes sempre disse para cada um fazer o seu caminho”, lembra Simão, “e é isso que procuramos, não imitar, mas dialogar com o que ele nos deixou.”

Luísa Amaro vê neste movimento um sinal de maturidade: “É saudável que já sintam os desafios de compor e de arriscar. Não estão apenas a repetir fórmulas, estão a mostrar que há futuro na guitarra portuguesa.”

Esse espírito ganha agora visibilidade fora dos ensaios e das serenatas. O festival Correntes de Um Só Rio, que em outubro celebra a sua oitava edição no Convento São Francisco, presta homenagem ao centenário de Carlos Paredes e ao maestro Virgílio Caseiro, mas abre também espaço para mostrar a vitalidade das novas gerações.

No fundo, a tradição coimbrã renova-se como sempre fez: pela passagem de testemunho entre estudantes, pela amizade transformada em música e pela capacidade de reinventar a guitarra de Coimbra em cada encontro.

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