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“Quero ver Portugal na CEE”, cantavam os GNR no single de estreia da banda rock, em 1981. Hoje, diríamos que a letra do guitarrista Vítor Rua se tornou viral. Na altura, representava as aspirações de um país saído da ditadura e de uma descolonização traumática, mergulhado numa profunda crise económica. Portugal era um país pobre, periférico e parado no tempo em relação à Europa Ocidental.
O primeiro acordo de pré-adesão, assinado no final de 1980, previa 100 milhões de ECU para apoiar projectos de modernização das estruturas industriais e do sector agrícola e das pescas. O ECU (European Currency Unit) estava longe de ser uma moeda física como o euro, mas era a unidade de conta usada pelos países da CEE.
Ramalho Eanes estava ainda no primeiro mandato na Presidência da República , Sá Carneiro era primeiro-ministro. Discutia-se onde aplicar as tão ambicionadas ajudas, cada um procurava captar para si a maior fatia do bolo.
Ricardo Bayão Horta, então secretário de Estado da Indústria Transformadora, defendia que as ajudas fossem usadas exclusivamente na construção de uma auto-estrada Faro-Bragança, usando para isso as Forças Armadas e a sua capacidade de engenharia, prestigiada, que seria assim posta ao serviço do país. O projecto ficou na gaveta. O dinheiro foi dividido em parcelas tão minúsculas que o seu impacto se diluiu no tempo.
O tempo passava e a adesão não chegava: “Na rádio, na TV/nos jornais, quem não lê […] Quanto mais se fala menos se vê/eu já estou farto e quero ver/ Quero ver Portugal na CEE”. Não foi em 1981 nem em 1982, foi cinco anos depois, a 1 de Janeiro de 1986.
“Para a minha geração, a Europa foi um dos sonhos da nossa vida. […] Parecia que nunca mais chegava. Era isso ligado à democracia e à liberdade”, resumiu Marcelo Rebelo de Sousa em conversa com jornalistas, no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, depois da sessão solene dos 40 anos da adesão de Portugal e Espanha e à União Europeia.
A questão é mesmo essa, Marcelo Rebelo de Sousa tinha então 37 anos. Passaram 40 anos e perto de 140 mil milhões de euros em fundos comunitários — o suficiente para fazer 16 novos aeroportos de Lisboa ou 15 ligações TGV Lisboa-Galiza. Que não temos.
Faço parte da geração apanhada na curva, a que esteve no antes e no depois, a que ouviu vezes sem conta “Portugal vai sair da cauda da Europa”, a mesma que continua a ver Portugal ficar para trás, a ser ultrapassado por países que aderiram à União Europeia nove ou 20 anos mais tarde. Pior, a geração que vive pior do que antes, a que consegue dar menos aos filhos do que recebeu dos seus pais.
Estamos inegavelmente melhor do que quando entrámos, mas tragicamente muito atrás do que sonhámos estar. É verdade, o PIB triplicou desde meados dos anos 90, o PIB per capita real duplicou, o abandono escolar caiu drasticamente, o ensino superior massificou-se, a esperança média de vida aumentou mais de oito anos. Estradas, portos, saneamento, escolas, ciência, agricultura, exportações — tudo isto foi profundamente moldado pela pertença à União Europeia.
Mas é precisamente aqui que o contraste entre gerações se torna mais evidente.
Uma geração inteira nasceu já dentro da União Europeia. Para esses portugueses, a UE é tão natural como a democracia ou a liberdade. Não é um sonho; é o cenário. E quando um cenário deixa de prometer ascensão, deixa de mobilizar.
O problema não é apenas económico. É estrutural. O ritmo de convergência com a Europa rica foi sempre limitado e continua a sê-lo. Persistem fragilidades profundas: salários baixos, dificuldade de acesso à habitação, dependência externa, envelhecimento demográfico, alterações climáticas.
A realidade de hoje é mais complexa do que a de há 40 anos — mais rápida, mais global, mais instável. Podemos dizer que Portugal continua a fazer aquilo que sabe fazer bem: pontes. “Sopa de pedra”, como disse Marcelo Rebelo de Sousa, mesmo quando faltam ingredientes. Mas isso já não chega para alimentar o sonho colectivo das gerações mais novas.
E é aqui que as coisas se revelam radicalmente diferentes.
Há 40 anos, sonhava-se com a Europa. Hoje, sonha-se com algo muito mais básico: ter futuro. Antes de mais, estar vivo. Ter um planeta habitável. Ter uma casa. Ter segurança económica mínima. Voltámos ao essencial dos essenciais.
Talvez seja este o sinal mais inquietante de todos: passámos do sonho da prosperidade para o sonho da sobrevivência (o que, por si só, raramente é uma coisa digna). É possível que o desafio não esteja em pedir mais Europa, mas em exigir mais de nós próprios dentro da Europa. Porque, ao contrário de 1986, o problema já não é chegar, é saber para onde queremos ir — e ter a coragem de escolher e seguir esse caminho.
Enquanto não formos capazes de mudar isto, Portugal continuará a ser, para muitos, apenas uma herança pesada — não uma promessa, um país onde se projecta a vida.
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