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A percepção que um lituano tem do estado do seu país e do mundo difere muito daquela que um português terá. Não porque sejam países muito afastados geograficamente, com etnias diferentes, mas porque fazem parte da mesma convenção de interesses, a União Europeia. E a Europa tradicional neste ano da Graça (o calendário, como muitos outros conceitos, foi estabelecido em Roma, em 46 a.C) assistiu, completamente impotente, a uma reviravolta no xadrez internacional como já não se via desde a queda do Império Romano, no ano da Graça de 476.
Resumindo, de uma forma muito compacta, o tempo entre 476 e 1945, os países europeus, sempre em competição uns com os outros, navegaram ou cavalgaram pelo globo, impondo os seus padrões e interesses da Austrália ao Canadá. Em 1946 estabeleceu-se outro conceito, o da supremacia dos Estados Unidos da América, cuja frota e interesses podiam intervir em toda a
parte.
Uma situação que pode ser exemplificada pelo facto de operadores na Florida manejarem bombardeamentos no Afeganistão, ou os políticos em Washington escolherem quem
governava no Chile. Chamamos a este período de Guerra Fria porque havia uma hostilidade permanente entre os Estados Unidos e a União Soviética, que combatiam em vários cenários por países intermediários – as “proxy wars”.
Este equilíbrio de forças começou a mudar a partir da década de 1970 – podemos usar como marco a visita de Nixon à China, em 1972. E, por razões várias, umas evidentes, outras difíceis de compreender, chegamos a 2025, em que o mundo está numa situação multipolar (Estados Unidos, China e BRICs) a caminho da supremacia da China num futuro próximo. A Europa e a Rússia já não têm nenhum papel nesta situação.
Para os europeus, sempre desunidos entre si, mas amarrados numa União por necessidade de sobrevivência, a constatação da sua irrelevância é ao mesmo tempo melancólica e assustadora.
Melancólica porque ninguém os ouve, assustadora porque estão em risco de ser destruídos economicamente por outras forças.
Claro que o cidadão europeu, elegantemente vestido na Europa das Luzes a assistir ao brilho de uma ópera clássica, se desinteressou pelo sacrifício de se arrastar por trincheiras para mostrar a sua superioridade. É a imagem da decadência, à semelhança de outros impérios que caíram por dentro e só depois foram destruídos de fora – “o Império Romano caiu por causa dos banhos quentes e camas fofas”.
2025 foi o ano de charneira em que finalmente “caiu a ficha” na União Europeia e no Reino Unido.
Olham para si próprios e vêem-se irrelevantes tecnologicamente, sem fontes de energia suficientes, sem armas e homens que os defendam no campo de batalha. É uma senhora vestida a rigor
pelos mais chiques designers, requintada nos gostos e maneiras, mas sozinha na festa, porque ninguém a convida para dançar.
Claro que a maioria dos europeus, como em qualquer outra região do mundo, não têm preocupações macro-económicas, científicas ou culturais sobre os estados do planeta. As preocupações são micro-económicas (quando vou ser promovido?), os interesses estéticos – vive na bolha dos seus amigos e do seu trabalho, sem acordar de manhã a pensar no Médio Oriente ou nas guerras civis em África.
Para eles, 2025 pode ter sido um ano bom, em que casaram, tiveram filhos, trocaram de carro, foram a excelentes restaurantes e espectáculos.
Durante o ano, os vários índices de tudo e mais alguma coisa foram entre o neutro e o bom. Menos mortalidade infantil, mais longevidade, melhores cuidados sociais – isto globalmente. Novas invenções promissoras (IA) mais satélites no espaço, comunicações globais. No entanto, os vários inquéritos e sondagens mostram uma população descontente, a sentir o seu nível de vida ameaçado, sem esperança de um futuro melhor. Guerras sem fim, mesmo não sendo do âmago da Europa, reflectem-se em imigrações gigantescas, escassez de matérias primas, falta de habitação e outros inconvenientes.
A situação aponta para o inevitável. Se 2025 ficará para a História, 2026 será um ano dramático.
E feliz Ano Novo!
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